O brasileiro é morto pelo bandido, mas tem raiva da
polícia; é saqueado pelo governo, mas odeia os empresários; se
diz cristão, mas recorre à macumba sempre que a coisa aperta e,
depois, o louco, o insano é o Bush.
Conhecer e meditar no pensamento conservador é penetrar em um
universo, cuja existência pode escapar quase que completamente o
modo de viver brasileiro.
Um conservador nestas terras é a mais estranha das figuras,
um aparente louco a orientar sua vida de acordo com pressupostos
absolutamente incompreensíveis para o brasileiro médio.
Um tipo que ninguém confiaria, tamanha a distância que separa suas
referências mais caras das nossas referências mais íntimas.
Um conservador no Brasil seria como um príncipe Míchkin - o
famoso personagem de O Idiota de Dostoievski - que ao possuir uma
mentalidade completamente diversa da do seu meio, estará sempre
fadado a ser tomado, ou como um imbecil imprestável, ou como um
criminoso ardiloso; mas nunca será visto de acordo com a sua
natureza refinada que está acima da capacidade de compreensão
de seus compatriotas.
Apesar da contradição clamorosa ao pensar ser possível a um
imbecil imprestável viver ao mesmo tempo como um ardiloso
vigarista, nada mais restaria a um indivíduo que, vivendo num país
repleto de imbecis imprestáveis a serviço de ardilosos
vigaristas, tivesse que ser avaliado por ambas as partes nada
possuindo em comum com nenhuma delas.
Na confusão geral, dar-lhe-iam ambas interpretações. Assim
aconteceu com o Sr. Mìchkin no romance de Dostoiévski; assim
acontece com o Sr. George W. Bush no Brasil.
Passando por todo o espectro social brasileiro, desde o
analfabeto até o doutor; desde o sem posses até o mega
investidor, é quase unânime a opinião sobre Bush: um idiota
patético e desprezível que tem um plano maquiavélico de dominação
mundial.
Porém, argumentar aqui o quão Bush passa longe de nossas
toscas opiniões, é como tocar um prelúdio de Bach a uma platéia
de orangotangos esperando que a música os enleve, ou seja, um
trabalho em vão, absolutamente inapropriado tendo-se em
consideração a natureza dos envolvidos.
Nossa cultura, absolutamente absorvida por gracejos inúteis
daquele tipo de homem cordial e bajulador que Sérgio Buarque de
Holanda tão bem analisou está, apenas, ornamentada por uma
pseudo alta cultura repleta de discursos de filosofias, uma vez
consideradas chiques na metrópole.
Uma compensação que suaviza a realidade grotesca de uma
cultura perdidamente utilitarista que ao não possuir lastro
espiritual descamba para um salve-se quem puder sem fim.
Nós importamos todos os maneirismos e suas respectivas tendências
como se tais perfumarias fossem nos civilizar, embora, no fundo,
saibamos que aqui, nesta terra de Lampiões, Getúlios e Dirceus,
o mais forte levou e sempre vai levar.
Nossa civilização não nos protege porque nós não temos uma;
sempre vivemos numa terra de piratas, de capitães do mato, de
fiscais do rei, de traficantes de escravos, de coronéis e
agitadores. A civilização passou aqui, mas não aportou, não
fincou raízes.
Somos órfãos de alta cultura, desprovidos, não de comida
que aqui há bastante e é barata, mas do espírito universal do
conhecimento e da religião que estruturam os campos que
alimentam as grandes civilizações.
Aqui não se desenvolveu a civilização das catedrais, das
universidades e das guildas, nem direta, nem indiretamente. Fomos
de cara rebaixados a uma categoria que mistura entreposto
comercial com fornecedor de matéria prima e de produtos agrícolas.
Fomos colocados na periferia de uma monarquia portuguesa que já
era periférica e, assim, tivemos que construir a nossa história.
Nesse sentido, podemos ter até um certo orgulho por
conseguirmos construir uma nação tão extensa com tão parcos
recursos; mas é um orgulho que nos deixa entristecidos, pois não
apaga o profundo abismo que se criou aqui.
Temos o mérito dos sobreviventes, mas sabemos que sobreviver não
é o bastante para quem quer viver plenamente. O Brasil sobrevive
faz quinhentos anos.
Todavia, ao Norte desta massa continental da qual fazemos
parte, desenvolveu-se uma outra nação que, ao contrário da
nossa, recebeu e pariu uma quantidade enorme de alta cultura.
Dessa nação, George W. Bush é hoje o seu presidente e fiel
protetor.
Nós não entendemos Bush porque, sobretudo, não entendemos
os Estados Unidos. Para entendê-los seria preciso sair por
completo de nossa história com suas mesmices e lugares comuns
para nos aventurarmos numa outra história, na qual a força das
pessoas comuns associadas em torno de valores e conhecimentos
universais foi vital na formação do seu povo.
Nesse aspecto, os Estados Unidos podem ser considerados como a
própria civilização. Eu sei que ao dizer tal coisa, o mínimo
que espero é o torcer de narizes de meus compatriotas
brasileiros, quando não o ranger de verdadeiros insultos que já
até posso antever em sua forma e modulação.
Todavia, uma vez que alguém se dedique a estudar os EUA e sua
notável história, verá a dimensão da civilização americana
e, como ela tornou-se o ponto mundial de equilíbrio e força.
Honrar essa tradição, guardando os seus princípios
fundamentais que a ligam com a civilização mãe judaico-cristã,
é o que se espera de qualquer conservador digno do nome.
Pois bem, Bush é um dos grandes líderes de um partido
conservador por excelência - o partido Republicano - e, como
tal, nada mais esperado que ele tenha um compromisso estrito com
a própria linha mestra que define os republicanos.
Aliás, Bush devido a sua determinação, em detrimento,
inclusive, de sua popularidade, vem provando ser um legítimo
conservador. Não quero dizer que os conservadores sejam sempre
uns docinhos de coco quase santos mas, muito menos, são os sujos
manipuladores que sempre estão por trás de interesses
corporativos escusos.
Apenas nossa ignorância total sobre eles nos faz aceitar como
absoluta verdade todos os ataques proferidos contra os
republicanos. Repetimos, como verdadeiros idiotas úteis, todo o
discurso antiamericano pré-fabricado nas redações de nossos
jornais e revistas, nos comitês dos partidos, nas ongs e nas
salas das universidades, como se essa doutrinação bárbara
fosse a mais pura constatação da realidade.
E, o pior, nos deleitamos com isso. É o nosso prazer secreto,
nossa catarse nacional, pois achamos que, apesar de eles serem
ricos, poderosos e confiantes, no fundo não passam de monstros
corruptos que se alimentam da miséria do mundo.
Basta assistir o jornal das 23:00 h. e ler a Carta Capital e,
pronto, temos tudo o que precisamos para conhecer os Estados
Unidos.
Mas, felizmente, não é nada disso. Na verdade, somos nós que
nunca saímos da nossa monstruosidade, nem nunca ousaremos pois,
e se, por acaso, descobrirmos que o Bush não é nem um
manipulador horrendo muito menos um patético marionete? Vai que
vislumbremos, nem que seja por um átimo, a nobreza do pensamento
conservador.
Tais coisas teriam um impacto devastador em nosso íntimo,
pois teríamos que ver a verdadeira miséria em que estamos
metidos. Muito pior que qualquer fome, praga ou guerra. Seria a
constatação da miséria dos que têm medo da realidade que os
rodeia e criam fantasias na vã tentativa de substituir uma pela
outra.
O brasileiro é morto pelo bandido, mas tem raiva da polícia;
é saqueado pelo governo, mas odeia os empresários; se diz cristão,
mas recorre à macumba sempre que a coisa aperta e, depois, o
louco, o insano é o Bush que persegue implacavelmente os
assassinos do seu povo, facínoras que juraram com sangue
destruir a civilização americana e tudo o que nela subsiste.
Ao contrário da maciça maioria de meus compatriotas e de quase
todos os meus amigos e pessoas a quem amo e admiro, torço para
que Bush ganhe as eleições que se aproximam e confirme a sua
reeleição.
Terei um prazer enorme ao ler a nossa "nata
intelectual" representada pelos Roberto Pompeu de Toledo, os
Arnaldo Jabor, dentre outros ilustres, demonizar Bush pela enésima
vez.
MidiaSemMascara
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