O Bush do Brasil
Escrito por Maurício G. Righi   
Saturday, 09 October 2004
O brasileiro é morto pelo bandido, mas tem raiva da polícia; é saqueado pelo governo, mas odeia os empresários; se diz cristão, mas recorre à macumba sempre que a coisa aperta e, depois, o louco, o insano é o Bush.

Conhecer e meditar no pensamento conservador é penetrar em um universo, cuja existência pode escapar quase que completamente o modo de viver brasileiro.

Um conservador nestas terras é a mais estranha das figuras, um aparente louco a orientar sua vida de acordo com pressupostos absolutamente incompreensíveis para o brasileiro médio.

Um tipo que ninguém confiaria, tamanha a distância que separa suas referências mais caras das nossas referências mais íntimas.

Um conservador no Brasil seria como um príncipe Míchkin - o famoso personagem de O Idiota de Dostoievski - que ao possuir uma mentalidade completamente diversa da do seu meio, estará sempre fadado a ser tomado, ou como um imbecil imprestável, ou como um criminoso ardiloso; mas nunca será visto de acordo com a sua natureza refinada que está acima da capacidade de compreensão de seus compatriotas.

Apesar da contradição clamorosa ao pensar ser possível a um imbecil imprestável viver ao mesmo tempo como um ardiloso vigarista, nada mais restaria a um indivíduo que, vivendo num país repleto de imbecis imprestáveis a serviço de ardilosos vigaristas, tivesse que ser avaliado por ambas as partes nada possuindo em comum com nenhuma delas.

Na confusão geral, dar-lhe-iam ambas interpretações. Assim aconteceu com o Sr. Mìchkin no romance de Dostoiévski; assim acontece com o Sr. George W. Bush no Brasil.

Passando por todo o espectro social brasileiro, desde o analfabeto até o doutor; desde o sem posses até o mega investidor, é quase unânime a opinião sobre Bush: um idiota patético e desprezível que tem um plano maquiavélico de dominação mundial.

Porém, argumentar aqui o quão Bush passa longe de nossas toscas opiniões, é como tocar um prelúdio de Bach a uma platéia de orangotangos esperando que a música os enleve, ou seja, um trabalho em vão, absolutamente inapropriado tendo-se em consideração a natureza dos envolvidos.

Nossa cultura, absolutamente absorvida por gracejos inúteis daquele tipo de homem cordial e bajulador que Sérgio Buarque de Holanda tão bem analisou está, apenas, ornamentada por uma pseudo alta cultura repleta de discursos de filosofias, uma vez consideradas chiques na metrópole.

Uma compensação que suaviza a realidade grotesca de uma cultura perdidamente utilitarista que ao não possuir lastro espiritual descamba para um salve-se quem puder sem fim.

Nós importamos todos os maneirismos e suas respectivas tendências como se tais perfumarias fossem nos civilizar, embora, no fundo, saibamos que aqui, nesta terra de Lampiões, Getúlios e Dirceus, o mais forte levou e sempre vai levar.

Nossa civilização não nos protege porque nós não temos uma; sempre vivemos numa terra de piratas, de capitães do mato, de fiscais do rei, de traficantes de escravos, de coronéis e agitadores. A civilização passou aqui, mas não aportou, não fincou raízes.

Somos órfãos de alta cultura, desprovidos, não de comida que aqui há bastante e é barata, mas do espírito universal do conhecimento e da religião que estruturam os campos que alimentam as grandes civilizações.

Aqui não se desenvolveu a civilização das catedrais, das universidades e das guildas, nem direta, nem indiretamente. Fomos de cara rebaixados a uma categoria que mistura entreposto comercial com fornecedor de matéria prima e de produtos agrícolas.

Fomos colocados na periferia de uma monarquia portuguesa que já era periférica e, assim, tivemos que construir a nossa história.

Nesse sentido, podemos ter até um certo orgulho por conseguirmos construir uma nação tão extensa com tão parcos recursos; mas é um orgulho que nos deixa entristecidos, pois não apaga o profundo abismo que se criou aqui.

Temos o mérito dos sobreviventes, mas sabemos que sobreviver não é o bastante para quem quer viver plenamente. O Brasil sobrevive faz quinhentos anos.

Todavia, ao Norte desta massa continental da qual fazemos parte, desenvolveu-se uma outra nação que, ao contrário da nossa, recebeu e pariu uma quantidade enorme de alta cultura. Dessa nação, George W. Bush é hoje o seu presidente e fiel protetor.

Nós não entendemos Bush porque, sobretudo, não entendemos os Estados Unidos. Para entendê-los seria preciso sair por completo de nossa história com suas mesmices e lugares comuns para nos aventurarmos numa outra história, na qual a força das pessoas comuns associadas em torno de valores e conhecimentos universais foi vital na formação do seu povo.

Nesse aspecto, os Estados Unidos podem ser considerados como a própria civilização. Eu sei que ao dizer tal coisa, o mínimo que espero é o torcer de narizes de meus compatriotas brasileiros, quando não o ranger de verdadeiros insultos que já até posso antever em sua forma e modulação.

Todavia, uma vez que alguém se dedique a estudar os EUA e sua notável história, verá a dimensão da civilização americana e, como ela tornou-se o ponto mundial de equilíbrio e força.

Honrar essa tradição, guardando os seus princípios fundamentais que a ligam com a civilização mãe judaico-cristã, é o que se espera de qualquer conservador digno do nome.

Pois bem, Bush é um dos grandes líderes de um partido conservador por excelência - o partido Republicano - e, como tal, nada mais esperado que ele tenha um compromisso estrito com a própria linha mestra que define os republicanos.

Aliás, Bush devido a sua determinação, em detrimento, inclusive, de sua popularidade, vem provando ser um legítimo conservador. Não quero dizer que os conservadores sejam sempre uns docinhos de coco quase santos mas, muito menos, são os sujos manipuladores que sempre estão por trás de interesses corporativos escusos.

Apenas nossa ignorância total sobre eles nos faz aceitar como absoluta verdade todos os ataques proferidos contra os republicanos. Repetimos, como verdadeiros idiotas úteis, todo o discurso antiamericano pré-fabricado nas redações de nossos jornais e revistas, nos comitês dos partidos, nas ongs e nas salas das universidades, como se essa doutrinação bárbara fosse a mais pura constatação da realidade.

E, o pior, nos deleitamos com isso. É o nosso prazer secreto, nossa catarse nacional, pois achamos que, apesar de eles serem ricos, poderosos e confiantes, no fundo não passam de monstros corruptos que se alimentam da miséria do mundo.

Basta assistir o jornal das 23:00 h. e ler a Carta Capital e, pronto, temos tudo o que precisamos para conhecer os Estados Unidos.

Mas, felizmente, não é nada disso. Na verdade, somos nós que nunca saímos da nossa monstruosidade, nem nunca ousaremos pois, e se, por acaso, descobrirmos que o Bush não é nem um manipulador horrendo muito menos um patético marionete? Vai que vislumbremos, nem que seja por um átimo, a nobreza do pensamento conservador.

Tais coisas teriam um impacto devastador em nosso íntimo, pois teríamos que ver a verdadeira miséria em que estamos metidos. Muito pior que qualquer fome, praga ou guerra. Seria a constatação da miséria dos que têm medo da realidade que os rodeia e criam fantasias na vã tentativa de substituir uma pela outra.

O brasileiro é morto pelo bandido, mas tem raiva da polícia; é saqueado pelo governo, mas odeia os empresários; se diz cristão, mas recorre à macumba sempre que a coisa aperta e, depois, o louco, o insano é o Bush que persegue implacavelmente os assassinos do seu povo, facínoras que juraram com sangue destruir a civilização americana e tudo o que nela subsiste.

Ao contrário da maciça maioria de meus compatriotas e de quase todos os meus amigos e pessoas a quem amo e admiro, torço para que Bush ganhe as eleições que se aproximam e confirme a sua reeleição.

Terei um prazer enorme ao ler a nossa "nata intelectual" representada pelos Roberto Pompeu de Toledo, os Arnaldo Jabor, dentre outros ilustres, demonizar Bush pela enésima vez.

 

MidiaSemMascara

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