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Capitalismo Exige “Formação Rural” dos Analfabetos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fernanda Vacari   
Monday, 11 October 2004

“Antes o agricultor vivia de monocultura. Hoje, o mercado exige a policultura ou a diversidade de culturas. Os agricultores necessitam de formação para se tornarem ‘empresários do campo. É preciso ensinar a eles as maneiras de como se pode conquistar o mercado”, enfatiza Nilson Rosa de Faria.


DIVERSIDADE

O sistema capitalista vem exigindo dos agricultores, condições para que possam plantar, colher, negociar e vender os seus produtos.

A avaliação foi feita pelo filósofo Nilson Rosa de Faria, que defende ainda, que os agricultores já estão buscando formas de melhor se instruir, voltar para os bancos escolares e até mesmo se alfabetizar.

“Antes o agricultor vivia de monocultura. Hoje, por outro lado, o mercado exige a policultura ou a diversidade de culturas. Os agricultores necessitam apenas de formação para se tornarem ‘empresários do campo. Não adianta dizer para os mesmos o que devem plantar, ou apresentar quais os produtos que devem investir em suas propriedades. É preciso ensinar a eles as maneiras de como se pode conquistar o mercado”, enfatiza Nilson Rosa de Faria.

Analfabetismo gera miséria na zona rural

A falta de alfabetização tem sido um forte obstáculo na geração de renda a pequenos produtores. Conforme o IBGE, as pessoas que moram na zona rural não sabem ler e escrever. Sem instrução, os produtores têm dificuldades para gerenciar sua propriedade, são lesados e têm pouco acesso a programas de incentivo.

As dificuldades em ler, escrever e fazer contas têm sido o principal reforço para a manutenção e até aumento da pobreza no campo.

Analfabetismo reforça a pobreza no campo - A falta de instrução dificulta o gerenciamento da atividade, reduzindo as chances do produtor ampliar a renda e até mesmo de sobreviver.

NO MUNICÍPIO DE CASCAVEL / PARANÁ

Em Cascavel/PR, segundo fonte IBGE, mais de 12% das pessoas que vivem na zona rural não sabem ler ou escrever. Deste montante, 54% são homens, que, em geral, são os chefes de domicílio.

O pequeno produtor Eliseo José Bernardo, de 39 anos, tem consciência das restrições que a falta de alfabetização lhe impõe, tendo sofrido, inclusive, prejuízos por causa disso.

“Consigo assinar somente meu nome. Desde cedo tive que trabalhar na roça, em Capitão Leônidas Marques. Já fui muito logrado por não saber fazer conta. Neste caso tive que contar com a ajudar de vizinhos para me ajudar. Já perdi muito dinheiro”, relata.

Eliseo Bernardo vive hoje numa pequena chácara próximo à Estrada Rio da Paz, em Cascavel.Porém, os reflexos da falta de instrução vão além das negociações diárias.

Sem informações, os produtores acabam não tendo acesso a linhas de financiamento, a programas de incentivo e perdem até mesmo na aquisição dos insumos.

Desta forma, acabam se tornando presos a um círculo vicioso: não conseguem ampliar a renda por falta de instrução e, com baixa renda, não obtêm a instrução necessária para promover lucros em suas atividades.

Eliseo está ciente destes problemas. Tanto, que confessa ser desejo seu aprender ler e escrever e, principalmente, ampliar seu conhecimento de fazer contas. Porém, esbarra nas dificuldades.

“Espero contar com a ajuda do governo. Não tenho como me deslocar diariamente para Cascavel, mas, se fosse ativada alguma escola na comunidade, eu participaria das aulas. Seria um benefício para mim. Trabalho das 6h às 18h diariamente e não tenho muito tempo, mas acho que daria um jeito”, assegura.

“O que mais me faz sofrer é saber que não consigo ajudar minha filha de sete anos nas tarefas da escola. Consigo ajudar somente metade”, lamenta.

CAPACITAÇÃO - Governo treina alfabetizadores

O governo do Estado do Paraná, investe na capacitação dos alfabetizadores e dos coordenadores das turmas para desenvolver o Programa Paraná Alfabetizado.

Para cada oito turmas de alfabetização, um coordenador fará o monitoramento e capacitação dos instrutores que ministrarão as aulas com base em conteúdos que contribuam para sanar as dúvidas de cada analfabeto.

O governo acredita que o processo é necessário para estimular os analfabetos a não abandonarem o programa. Em Cascavel, a estratégia adotada pelos instrutores já capacitados para chamar a atenção dos analfabetos para a proposta do programa leva em consideração visitas domiciliares.

Os instrutores, além de estabelecerem um contato mais próximo com os futuros alunos, também aproveitam a oportunidade para sanar as dúvidas quanto à forma e o local onde serão ministradas as aulas. A sétima oferta de capacitação de instrutores foi recentemente realizada no Centro de Treinamento de Faxinal do Céu e contou com cerca de 170 participantes.

ESTATÍSTICA - Mais de 20 mil moradores sofrem com a “exclusão”

Mais de 80 mil analfabetos paranaenses já se cadastraram no Programa Paraná Alfabetizado do governo do Estado do paraná e destes, 30 mil estão aprendendo a ler a escrever.

Em Cascavel, porém, mais de 20 mil pessoas maiores de cinco anos que residem no município, ainda vivem a exclusão de não saber ler e escrever. Uma margem aproximada de apenas 140 analfabetos cascavelenses, manifestaram até o momento o interesse de estudar.

Os dados integram o Censo de 200 do IBGE sobre educação, onde aponta ainda que 24 milhões de pessoas no país são analfabetas.

Em Cascavel das 206.770 pessoas maiores de cinco anos que residem na área urbana em Cascavel, 18.664 não sabem ler e escrever. Em contrapartida, dos 15.129 moradores que vivem na área rural, 1940 também são analfabetos.

Mais de 90% da população de Cascavel, com mais de cinco anos, vive na área urbana. Apenas 6,82 % vivem no campo. Se somados os números, Cascavel conta hoje com 201.295 pessoas alfabetizadas morando na área urbana e 20.604 pessoas morando na área rural.

DESESTÍMULO - Não saber ler e escrever é “uma enorme vergonha”

Toda vez que precisa assinar algum documento, a agricultora Marinez Pontes, de 24 anos, que reside às margens da BR-277 se obriga a carimbar o dedo polegar direito no mesmo e assim registrar apenas as suas digitais.

Ela, que há anos se dedica ao ramo da agricultura ao lado do marido e dos filhos, tem que sujar o dedo em função de não saber ler e escrever.

“Eu sinto uma enorme vergonha de não saber assinar o meu nome e daria tudo para me alfabetizar. Bastaria que o governo do Estado também incluísse as comunidades do interior no programa de alfabetização e possibilitasse que as aulas fossem realizadas nas proximidades de nossas casas”, comenta Marinez.

Para a agricultora Maria Aparecida de Oliveira, de 40 anos, o incentivo do governo do Estado em alfabetizar os agricultores possibilitaria, inclusive, o incentivo aos seus filhos.

“Muitas vezes as crianças se sentem desestimuladas em aprender porque sabem que de uma forma ou de outra continuarão a viver na comunidade. Grande parte dos agricultores que resolverem voltar a estudar, vai levar os filhos juntos. Todos sairão beneficiados”, aponta.

Segundo a agricultora Maria de Souza, de 59 anos, junto com a oportunidade de estudo o governo também estaria proporcionando às comunidades agrícolas uma chance a mais para expandir os seus negócios.

“Hoje me preocupo em ter que sobreviver sozinha, sem o apoio de familiares e amigos, porque não sei ler nem escrever. Para muitas pessoas providenciar um documento é simples, mas para mim é complicado. Não consigo me entender com a escrita e me sinto insegura em concordar com o que me dizem. O estudo é necessário”, argumenta.

DIFICULDADES - Rotina pesada de trabalho impede volta à escola

Das 6h às 18h o agricultor Benedito Avelino da Silva, de 56 anos, se dedica ao plantio, a tratamento dos animais e aos demais cuidados com a propriedade que mantém próximo a estrada Rio da Paz em Cascavel.

A rotina pesada de trabalho que possui desde a sua infância, está entre os motivos de ter voltado a estudar. Na primeira série do ensino fundamental, Benedito chegou a memorizar algumas letras do alfabeto. Hoje ele lamenta não ter continuado os estudos para que pudesse ter aprendido ao menos escrever seu nome.

“Não sei ler e escrever, mas nunca perdi a vontade de voltar a estudar. Como trabalho muito, acabo priorizando as minhas tarefas diárias e os meus esforços acabam se concentrando todos na minha propriedade. O que me falta é tempo. Se meus pais tivessem me incentivado a freqüentar a escola, talvez hoje eu não teria muito com o que me lamentar”, comenta.

Segundo Benedito, o governo precisa criar estratégias diferentes para alfabetizar as pessoas que vivem no campo e na zona urbana.

“A rotina de trabalho de quem vive no campo e na cidade não é a mesma e em função disso o governo do Estado deveria implantar um programa de alfabetização voltado para os dois públicos. Na zona rural, as aulas deveriam acontecer durante o dia e em horários curtos. Mesmo que incluísse ter aulas nos finais de semana. Assim o agricultor interromperia seus afazeres para assistir as aulas no período da manhã, por exemplo, e não se sentiria prejudicado, ou tão cansado”, comenta.

Para a agricultora Anísia Bernarde, de 38 anos, que também não sabe ler e escrever e que reside próximo a propriedade de Benedito, a implantação de mais escolas nas zonas escolares, ou mesmo, a improvisação de aulas em espaços públicos nas zonas rurais, também facilitaria a vida dos agricultores.

“Não temos com quem deixar os nossos filhos e freqüentando as aulas na nossa própria comunidade, teríamos a chance de encontrar um espaço na sala de aula para acomodar os nossos filhos”, complementa.

CONSCIENTIZAÇÃO - Estado traça estratégia de incentivo

De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Educação, a proposta do governo do paraná, é capacitar os instrutores que deverão alfabetizar os moradores dos municípios, para que também contribuam para o cadastramento de mais analfabetos.

Segundo a assessoria, as visitas nas residências dos moradores dos municípios pelos instrutores estão sendo realizadas de forma aleatória, porém direcionada.

Em Cascavel, as primeiras visitas estão sendo realizadas nas comunidades mais carentes, onde a história de vida das pessoas se confunde com a necessidade de ter deixado os estudos para trabalhar.

A estratégia também é direcionar as visitas para as comunidades do interior do município, uma vez que, é grande o número de pessoas que moram na zona rural e não sabem ler e escrever.

 

AGROTÓXICO - Campanha Nacional vai orientar produtor rural, sobre devolução de embalagens

O Inpev (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias) lançou, no Ministério da Agricultura, campanha educativa que vai orientar os produtores rurais sobre a importância da tripla lavagem dos recipientes usados e os procedimentos de devolução de embalagens de defensivos agrícolas.

A campanha, que tem o apoio do governo federal, será veiculada em outubro e novembro de 2004, período de aplicação de agrotóxicos na safra de verão, quando as embalagens de defensivos agrícolas devem ser lavadas depois de utilizadas.

A segunda parte da campanha abordará a devolução dos recipientes e será lançada no início de 2005.

 

JHoje

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