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Eleições/2004 - Perfil do 2º turno e
Colóquio sobre as eleições municipais, do 1º turno, reunindo
Nivaldo Cordeiro, Ubiratan Iorio, Percival Puggina e Olavo de
Carvalho, suas perspectivas e como os resultados do pleito podem
influenciar nos rumos da política nacional.
Segundo turno, Eleições/2004 -
perfil
- Irão novamente à urna 27,3 milhões de eleitores, de 44
cidades, o que representa 2,8% de todo o país. O Brasil
possui 5.562 cidades.
- Haverá 10 disputas principais, onde o PT e o PSDB vão
se enfrentar. As 10 cidades somam 11,6 milhões de
eleitores - 7,8 milhões só de São Paulo.
- Nestas 10 cidades, os tucanos obtiveram resultado de 3,9
milhões de votos no 1º turno, os petistas, conquistaram
apenas 3,4 milhões.
- A "maior concentração" de votos está na
área urbana. E, deve-se observar que ela emerge das 26
capitais e 46 municipios com mais de 200 mil eleitores -
que por lei tem direito ao 2º turno. Deste total
computa-se 35,18% do eleitorado.
- Somando todos os municípios, com mais de 150 mil
eleitores e as capitais, o eleitorado sobe para 38,7% do
total do país.
- Analistas fazem previsões, contando o nº de cidades e
os votos recebidos por cada partido. Porem somente em
31/outubro, os nºs oficiais finais, serão proclamados,
com a votação deste 2º turno - pois, ainda faltam os
votos definitivos de cerca de 1/4 dos eleitores
brasileiros.
(Da Redação)
Primeiro turno, Eleições/2004 - opiniões
Com a aproximação das eleições municipais o jogo eleitoral
novamente trouxe todas as suas implicações, a propaganda
eleitoral, marketing político, mobilização dos eleitores para
o exercício do voto, etc., ritual que se repete há anos e que
cada vez mais parece perder o sentido para a população, visto
que não é acompanhado da materialização das promessas
nababescas e mirabolantes que auxiliam na eleição de grande
parte dos candidatos, enquanto o debate de idéias e conceitos
cada vez mais fica restrito a um festival de lugares-comuns e
conceitos socialistas.
Ao contrário de outros pleitos municipais, porém, desta vez o
governo central e muitas prefeituras importantes são ocupadas
por um partido que possui uma bem estruturada ideologia e, em
cima disso, sedimenta seus objetivos de poder.
Se o PT não possui projeto de governo ausência que é
em grande parte compensada por frases de efeito e muita
pirotecnia propagandistica, além de doses cavalares de
desinformação da opinião pública, tudo feito com o apoio de
amplos setores da mídia - ele tem um muito bem planejado Plano
de Poder.
Uma eventual derrota do PT no jogo eleitoral teria qual
importância para os rumos da política nacional? É o processo
eleitoral ou a formação de opinião que contam decisivamente?
Até que ponto a política no Brasil é realmente democrática?
Estão representadas todas as correntes de pensamento neste
esquema? Para responder estas questões, MSM elaborou este
pequeno colóquio na esperança de orientar os leitores face a
este assunto tão importante. Estão aqui presentes quatro dos
principais articulistas:
* Ubiratan Jorge Iorio, economista e professor
da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, residente no Rio
de Janeiro.
* José Nivaldo Cordeiro, economista e mestre em
administração de empresas pela FGV-SP, residente em São Paulo.
* Percival Puggina, jornalista e arquiteto,
residente em Porto Alegre.
* Olavo de Carvalho, filósofo,
jornalista, nosso colunista, e editor de MSM, residente em
Curitiba.
* * *
MEDIADOR: Boa tarde a todos. Para começar,
gostaríamos de saber se, no entender de cada um de vocês, é
possível que as próximas eleições resultem em algum tipo de
enfraquecimento do PT no cenário político, em virtude de
eventuais desgastes sofridos pela administração Lula?
NIVALDO CORDEIRO: Sim, embora os contendores
pouco difiram do PT. Vemos em luta facções separadas dentro da
hegemonia esquerdista. O "encanto" do PT estava na
novidade, desfeita pelo exercício do PT. Perderá votos e
certamente governos locais postos em jogo.
UBIRATAN IORIO: Sim, acho que o PT, após estes
quase dois anos no poder, já mostrou que não possui o encanto
que tentou fazer os eleitores crerem que possuía. Sob o ponto de
vista ético e administrativo, um verdadeiro desastre e,
politicamente, tão cheio de fragilidades quanto os partidos que
o antecederam no poder. Mesmo sendo o eleitor brasileiro médio
um desinformado, creio que saberá dar resposta nas urnas a isto.
PERCIVAL PUGGINA: Num sentido eleitoral amplo,
no plano nacional, descreio. O PT, não devemos esquecer, é
estuário de correntes políticas da esquerda nacional que se
formaram dominantemente no meio urbano e intelectual. Assim, ao
surgir como legenda partidária nos anos 80, era o partido que
abrigava as lideranças mais preparadas para a militância
política no Brasil urbanizado. Gradualmente, dentro de um
planejamento bem concebido, o PT foi crescendo e acabou por
alcançar excelentes resultados nas grandes cidades brasileiras.
Tenho a convicção de que, nas atuais eleições municipais, o
PT vai perder algumas posições junto a esse específico
eleitorado mas, graças aos recursos de que dispõe e ao uso que
faz das estruturas de poder, aumentará significativamente o
número de seus prefeitos nas cidades de porte médio e pequeno.
Em outras palavras: o PT fará mais votos para prefeito em 2004 e
para vereador do que fez em 2000, e vai administrar um número
bem maior de prefeituras, mas é possível que os números do
contingente populacional sob gestão dessas prefeituras seja
menor do que os atuais.
OLAVO DE CARVALHO: É
possível, mas não em dose suficiente para mudar o rumo das
coisas. O fundo de ideologia esquerdista inconsciente que domina
a nossa cultura hoje em dia terminará sempre por prevalecer,
favorecendo a hegemonia petista acima de mudanças superficiais
do quadro eleitoral.
MEDIADOR: E o crescente viés socialista no qual
o país se encontra? Ele pode ser influenciado de alguma forma
pelo processo eleitoral?
NIVALDO CORDEIRO: Ele domina o processo
eleitoral e determina o conteúdo da comunicação política. A
esquerda há muito não tem adversários ideológicos.
UBIRATAN IORIO: Acho que não, porque as
eleições são municipais (e não federais) e também porque
acredito que o PT vá fazer muito menos prefeitos e vereadores do
que supunha.
PERCIVAL PUGGINA: O viés socialista em que o
Brasil se encontra vem influenciando todas as eleições
brasileiras nas últimas décadas, à exceção do fenômeno
Collor, que conseguiu levar a pauta política daquele pleito para
outro terreno. No entanto, os conceitos socialistas estão muito
bem consolidados no subconsciente do povo brasileiro. O discurso
conservador ou liberal não tem, no Brasil, votos para ganhar
qualquer eleição.
OLAVO DE CARVALHO: Pode-se aproveitar a ocasião
das eleições para ir além da mera disputa de cargos e
desencadear um combate ideológico, mas duvido que alguém deseje
fazer isso. Mesmo os que disputam cargos com avidez, tornam-se
repentinamente tímidos e recalcitrantes quando a discussão
entra no terreno ideológico. Parece que todos têm medo de
colocar em discussão, mesmo de longe, os méritos do socialismo.
Mesmo homens soi-disant "de direita" macaqueiam o
discurso esquerdista, de início por esperteza, mas depois
deixando-se impregnar pela repetição até acabar acreditando ao
menos parcialmente no que dizem. Hoje o Brasil inteiro, mesmo na
parte antipetista, está intoxicado de valores socialistas
declarados ou não declarados. Isso é, a longo prazo, a maior
força dos partidos de esquerda e principalmente do maior deles.
MEDIADOR: Mas qual o programa ou abordagem que
um político deveria adotar para fazer frente à hegemonia
esquerdista nacional?
NIVALDO CORDEIRO: Defender claramente uma
plataforma de direita, a começar pela tese de redução dos
impostos e da despesa pública, pela redução da
regulamentação da atividade econômica, pelo patrocínio dos
valores tradicionais. Penso que um segmento importante do
eleitorado responderia favoravelmente a essa plataforma.
UBIRATAN IORIO: Abrir o jogo e dizer claramente
tudo o que se passa, sem qualquer tipo de medo. Assumir, enfim,
que é liberal, sem qualquer vergonha. Infelizmente, a maioria
dos políticos sofre de medo do patrulhamento ideológico das
esquerdas. Mas o mais importante seria uma reforma política, que
gerasse partidos programáticos/doutrinários e com a adoção do
voto distrital.
PERCIVAL PUGGINA: É uma pergunta dificílima de
responder, embora seja a mais importante de todas. Creio que uma
vitória contra políticos de esquerda seja mais fácil do que
uma vitória contra o discurso de esquerda. Vale dizer: como os
pleitos brasileiros envolvem votos em pessoas, as estratégias
eleitorais devem ser encaminhadas para esse terreno, mais do que
para o terreno ideológico. Embora pareça um contra-senso, dadas
as características de nosso modelo eleitoral, o trabalho
ideológico no Brasil acaba sendo menos partidário e mais
intelectual, devendo ser conduzido através dos meios de
comunicação social, do ambiente escolar e acadêmico e das
Igrejas. E aí o trabalho só pode ser de longo prazo.
OLAVO DE CARVALHO: Não me
cabe dar orientação a ninguém quanto ao que deve fazer, mas,
se eu fosse líder de um partido antipetista, refrearia um pouco
a fome de mandatos eleitorais e me concentraria na disputa de
fundo, na formação de uma oposição ideologicamente
consistente e no combate cultural, exatamente como a esquerda fez
nos anos 60-70. Mas, neste país, só a esquerda sabe raciocinar
a longo prazo. Os outros só fazem política a varejo:
eleições, disputa de cargos, defesa de pequenos interesses
imediatos, em nome dos quais acabam, às vezes, matando suas
melhores chances de futuro. O adesismo dos Magalhães, dos
Sarneys, dos Ermírios, é pseudo-astúcia de gente sem visão.
MEDIADOR: O que os senhores entendem por
"esquerda" e "direita"? Quais os candidatos
ou políticos que melhor representam estas tendências
políticas?
NIVALDO CORDEIRO: Direita é toda a corrente que
defende a redução do Estado na economia e na regulação da
vida privada. A esquerda é o seu inverso.
UBIRATAN IORIO: Para mim, esquerda e direita
são quase que a mesma coisa com os sinais trocados, pois ambas
defendem um papel do Estado bem maior do que aquele que os
liberais julgam ser indicado.
PERCIVAL PUGGINA: Se me permitirem caracterizar
a esquerda de maneira bem reduzida eu diria - valendo-me de
Roberto Campos - que ela oferece respostas simples e erradas para
problemas complexos. A idéia de que "os pobres são pobres
por causa dos ricos", talvez seja a mais nítida evidência
do que afirmo. A partir daí, a nossa esquerda compõe todo o seu
discurso. Assim, os negros vivem mal por causa dos brancos; os
problemas dos sem-terra são uma decorrência dos proprietários
rurais; os salários são baixos por culpa da ganância dos
empresários; o Brasil vai mal por causa do neoliberalismo e da
globalização e assim por diante. Como tenho reiteradamente
afirmado em meus artigos, essas idéias são paralisantes. Já a
direita - num leque ideológico simplificado - se opõe a essas
idéias e gostaria de ver aplicadas no Brasil aquelas que fazem
dar certo o Primeiro Mundo. De certo modo, voltamos ao ponto
anterior. A solução dos problemas políticos do Brasil e o
enfrentamento de conceitos que entravam seu progresso econômico
e social constituem uma tarefa a ser conduzida, prioritariamente,
na esfera cultural.
OLAVO DE CARVALHO: Já
expliquei que direita e esquerda, historicamente, não se
distinguem pelos conteúdos de suas respectivas ideologias, mas
pelo critério legitimador a que apelam: a esquerda se arroga os
méritos de um futuro hipotético, a direita pretende representar
a experiência acumulada dos séculos e o primado da realidade.
Nesse sentido, não há mais nenhum político de direita no
Brasil: só anti-esquerdistas de ocasião, limitados à defesa
pontual de crenças soltas ou de interesses específicos.
MEDIADOR: Finalmente, cabe perguntar: em quem o
senhores votarão nas próximas eleições municipais?
NIVALDO CORDEIRO: Voto em São Paulo e minha
escolha é Luiza Erundina. Porque a conheço, porque conheço
pessoas próximas a ela e porque as alternativas são bem piores.
Infelizmente, não há nenhum político liberal na disputa.
UBIRATAN IORIO: Sou eleitor da cidade do Rio de
Janeiro e vou anular o meu voto, porque não identifico em nenhum
candidato a prefeito (e também a vereador) as propostas pelas
quais me bato. Como serei obrigado a votar, por coerência, terei
que anular o meu voto.
PERCIVAL PUGGINA: Moro em Porto Alegre. Votarei
no candidato do Partido Progressista - o ex-governador e atual
deputado Jair Soares. Ele é o único candidato "não de
esquerda" entre os quatro mais bem colocados nas atuais
pesquisas de opinião.
OLAVO DE CARVALHO: Nulo ou
em branco. Porque confiar num candidato nas presentes
condições, já transcende a mera ingenuidade humana.
MEDIADOR: Muito obrigado aos presentes, agradecemos o tempo e a dedicação dos senhores nas respostas face à importância e
relevância do processo eleitoral no quadro político brasileiro.
MSM
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