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Escrito por Olavo de Carvalho   
Sunday, 10 October 2004

Eleições/2004 - Perfil do 2º turno e Colóquio sobre as eleições municipais, do 1º turno, reunindo Nivaldo Cordeiro, Ubiratan Iorio, Percival Puggina e Olavo de Carvalho, suas perspectivas e como os resultados do pleito podem influenciar nos rumos da política nacional.

Segundo turno, Eleições/2004 - perfil

  • Irão novamente à urna 27,3 milhões de eleitores, de 44 cidades, o que representa 2,8% de todo o país. O Brasil possui 5.562 cidades.
  • Haverá 10 disputas principais, onde o PT e o PSDB vão se enfrentar. As 10 cidades somam 11,6 milhões de eleitores - 7,8 milhões só de São Paulo.
  • Nestas 10 cidades, os tucanos obtiveram resultado de 3,9 milhões de votos no 1º turno, os petistas, conquistaram apenas 3,4 milhões.
  • A "maior concentração" de votos está na área urbana. E, deve-se observar que ela emerge das 26 capitais e 46 municipios com mais de 200 mil eleitores - que por lei tem direito ao 2º turno. Deste total computa-se 35,18% do eleitorado.
  • Somando todos os municípios, com mais de 150 mil eleitores e as capitais, o eleitorado sobe para 38,7% do total do país.
  • Analistas fazem previsões, contando o nº de cidades e os votos recebidos por cada partido. Porem somente em 31/outubro, os nºs oficiais finais, serão proclamados, com a votação deste 2º turno - pois, ainda faltam os votos definitivos de cerca de 1/4 dos eleitores brasileiros.

(Da Redação)

 

Primeiro turno, Eleições/2004 - opiniões

Com a aproximação das eleições municipais o jogo eleitoral novamente trouxe todas as suas implicações, a propaganda eleitoral, marketing político, mobilização dos eleitores para o exercício do voto, etc., ritual que se repete há anos e que cada vez mais parece perder o sentido para a população, visto que não é acompanhado da materialização das promessas nababescas e mirabolantes que auxiliam na eleição de grande parte dos candidatos, enquanto o debate de idéias e conceitos cada vez mais fica restrito a um festival de lugares-comuns e conceitos socialistas.

Ao contrário de outros pleitos municipais, porém, desta vez o governo central e muitas prefeituras importantes são ocupadas por um partido que possui uma bem estruturada ideologia e, em cima disso, sedimenta seus objetivos de poder.

Se o PT não possui projeto de governo – ausência que é em grande parte compensada por frases de efeito e muita pirotecnia propagandistica, além de doses cavalares de desinformação da opinião pública, tudo feito com o apoio de amplos setores da mídia - ele tem um muito bem planejado Plano de Poder.

Uma eventual derrota do PT no jogo eleitoral teria qual importância para os rumos da política nacional? É o processo eleitoral ou a formação de opinião que contam decisivamente? Até que ponto a política no Brasil é realmente democrática?

Estão representadas todas as correntes de pensamento neste esquema? Para responder estas questões, MSM elaborou este pequeno colóquio na esperança de orientar os leitores face a este assunto tão importante. Estão aqui presentes quatro dos principais articulistas:

* Ubiratan Jorge Iorio, economista e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, residente no Rio de Janeiro.

* José Nivaldo Cordeiro, economista e mestre em administração de empresas pela FGV-SP, residente em São Paulo.

* Percival Puggina, jornalista e arquiteto, residente em Porto Alegre.

* Olavo de Carvalho, filósofo, jornalista, nosso colunista, e editor de MSM, residente em Curitiba.


* * *

MEDIADOR: Boa tarde a todos. Para começar, gostaríamos de saber se, no entender de cada um de vocês, é possível que as próximas eleições resultem em algum tipo de enfraquecimento do PT no cenário político, em virtude de eventuais desgastes sofridos pela administração Lula?


NIVALDO CORDEIRO: Sim, embora os contendores pouco difiram do PT. Vemos em luta facções separadas dentro da hegemonia esquerdista. O "encanto" do PT estava na novidade, desfeita pelo exercício do PT. Perderá votos e certamente governos locais postos em jogo.

UBIRATAN IORIO: Sim, acho que o PT, após estes quase dois anos no poder, já mostrou que não possui o encanto que tentou fazer os eleitores crerem que possuía. Sob o ponto de vista ético e administrativo, um verdadeiro desastre e, politicamente, tão cheio de fragilidades quanto os partidos que o antecederam no poder. Mesmo sendo o eleitor brasileiro médio um desinformado, creio que saberá dar resposta nas urnas a isto.

PERCIVAL PUGGINA: Num sentido eleitoral amplo, no plano nacional, descreio. O PT, não devemos esquecer, é estuário de correntes políticas da esquerda nacional que se formaram dominantemente no meio urbano e intelectual. Assim, ao surgir como legenda partidária nos anos 80, era o partido que abrigava as lideranças mais preparadas para a militância política no Brasil urbanizado. Gradualmente, dentro de um planejamento bem concebido, o PT foi crescendo e acabou por alcançar excelentes resultados nas grandes cidades brasileiras. Tenho a convicção de que, nas atuais eleições municipais, o PT vai perder algumas posições junto a esse específico eleitorado mas, graças aos recursos de que dispõe e ao uso que faz das estruturas de poder, aumentará significativamente o número de seus prefeitos nas cidades de porte médio e pequeno. Em outras palavras: o PT fará mais votos para prefeito em 2004 e para vereador do que fez em 2000, e vai administrar um número bem maior de prefeituras, mas é possível que os números do contingente populacional sob gestão dessas prefeituras seja menor do que os atuais.

OLAVO DE CARVALHO: É possível, mas não em dose suficiente para mudar o rumo das coisas. O fundo de ideologia esquerdista inconsciente que domina a nossa cultura hoje em dia terminará sempre por prevalecer, favorecendo a hegemonia petista acima de mudanças superficiais do quadro eleitoral.

MEDIADOR: E o crescente viés socialista no qual o país se encontra? Ele pode ser influenciado de alguma forma pelo processo eleitoral?

NIVALDO CORDEIRO: Ele domina o processo eleitoral e determina o conteúdo da comunicação política. A esquerda há muito não tem adversários ideológicos.

UBIRATAN IORIO: Acho que não, porque as eleições são municipais (e não federais) e também porque acredito que o PT vá fazer muito menos prefeitos e vereadores do que supunha.

PERCIVAL PUGGINA: O viés socialista em que o Brasil se encontra vem influenciando todas as eleições brasileiras nas últimas décadas, à exceção do fenômeno Collor, que conseguiu levar a pauta política daquele pleito para outro terreno. No entanto, os conceitos socialistas estão muito bem consolidados no subconsciente do povo brasileiro. O discurso conservador ou liberal não tem, no Brasil, votos para ganhar qualquer eleição.

OLAVO DE CARVALHO: Pode-se aproveitar a ocasião das eleições para ir além da mera disputa de cargos e desencadear um combate ideológico, mas duvido que alguém deseje fazer isso. Mesmo os que disputam cargos com avidez, tornam-se repentinamente tímidos e recalcitrantes quando a discussão entra no terreno ideológico. Parece que todos têm medo de colocar em discussão, mesmo de longe, os méritos do socialismo. Mesmo homens soi-disant "de direita" macaqueiam o discurso esquerdista, de início por esperteza, mas depois deixando-se impregnar pela repetição até acabar acreditando ao menos parcialmente no que dizem. Hoje o Brasil inteiro, mesmo na parte antipetista, está intoxicado de valores socialistas declarados ou não declarados. Isso é, a longo prazo, a maior força dos partidos de esquerda e principalmente do maior deles.


MEDIADOR: Mas qual o programa ou abordagem que um político deveria adotar para fazer frente à hegemonia esquerdista nacional?

NIVALDO CORDEIRO: Defender claramente uma plataforma de direita, a começar pela tese de redução dos impostos e da despesa pública, pela redução da regulamentação da atividade econômica, pelo patrocínio dos valores tradicionais. Penso que um segmento importante do eleitorado responderia favoravelmente a essa plataforma.

UBIRATAN IORIO: Abrir o jogo e dizer claramente tudo o que se passa, sem qualquer tipo de medo. Assumir, enfim, que é liberal, sem qualquer vergonha. Infelizmente, a maioria dos políticos sofre de medo do patrulhamento ideológico das esquerdas. Mas o mais importante seria uma reforma política, que gerasse partidos programáticos/doutrinários e com a adoção do voto distrital.

PERCIVAL PUGGINA: É uma pergunta dificílima de responder, embora seja a mais importante de todas. Creio que uma vitória contra políticos de esquerda seja mais fácil do que uma vitória contra o discurso de esquerda. Vale dizer: como os pleitos brasileiros envolvem votos em pessoas, as estratégias eleitorais devem ser encaminhadas para esse terreno, mais do que para o terreno ideológico. Embora pareça um contra-senso, dadas as características de nosso modelo eleitoral, o trabalho ideológico no Brasil acaba sendo menos partidário e mais intelectual, devendo ser conduzido através dos meios de comunicação social, do ambiente escolar e acadêmico e das Igrejas. E aí o trabalho só pode ser de longo prazo.

OLAVO DE CARVALHO: Não me cabe dar orientação a ninguém quanto ao que deve fazer, mas, se eu fosse líder de um partido antipetista, refrearia um pouco a fome de mandatos eleitorais e me concentraria na disputa de fundo, na formação de uma oposição ideologicamente consistente e no combate cultural, exatamente como a esquerda fez nos anos 60-70. Mas, neste país, só a esquerda sabe raciocinar a longo prazo. Os outros só fazem política a varejo: eleições, disputa de cargos, defesa de pequenos interesses imediatos, em nome dos quais acabam, às vezes, matando suas melhores chances de futuro. O adesismo dos Magalhães, dos Sarneys, dos Ermírios, é pseudo-astúcia de gente sem visão.

MEDIADOR: O que os senhores entendem por "esquerda" e "direita"? Quais os candidatos ou políticos que melhor representam estas tendências políticas?

NIVALDO CORDEIRO: Direita é toda a corrente que defende a redução do Estado na economia e na regulação da vida privada. A esquerda é o seu inverso.

UBIRATAN IORIO: Para mim, esquerda e direita são quase que a mesma coisa com os sinais trocados, pois ambas defendem um papel do Estado bem maior do que aquele que os liberais julgam ser indicado.

PERCIVAL PUGGINA: Se me permitirem caracterizar a esquerda de maneira bem reduzida eu diria - valendo-me de Roberto Campos - que ela oferece respostas simples e erradas para problemas complexos. A idéia de que "os pobres são pobres por causa dos ricos", talvez seja a mais nítida evidência do que afirmo. A partir daí, a nossa esquerda compõe todo o seu discurso. Assim, os negros vivem mal por causa dos brancos; os problemas dos sem-terra são uma decorrência dos proprietários rurais; os salários são baixos por culpa da ganância dos empresários; o Brasil vai mal por causa do neoliberalismo e da globalização e assim por diante. Como tenho reiteradamente afirmado em meus artigos, essas idéias são paralisantes. Já a direita - num leque ideológico simplificado - se opõe a essas idéias e gostaria de ver aplicadas no Brasil aquelas que fazem dar certo o Primeiro Mundo. De certo modo, voltamos ao ponto anterior. A solução dos problemas políticos do Brasil e o enfrentamento de conceitos que entravam seu progresso econômico e social constituem uma tarefa a ser conduzida, prioritariamente, na esfera cultural.

OLAVO DE CARVALHO: Já expliquei que direita e esquerda, historicamente, não se distinguem pelos conteúdos de suas respectivas ideologias, mas pelo critério legitimador a que apelam: a esquerda se arroga os méritos de um futuro hipotético, a direita pretende representar a experiência acumulada dos séculos e o primado da realidade. Nesse sentido, não há mais nenhum político de direita no Brasil: só anti-esquerdistas de ocasião, limitados à defesa pontual de crenças soltas ou de interesses específicos.

MEDIADOR: Finalmente, cabe perguntar: em quem o senhores votarão nas próximas eleições municipais?

NIVALDO CORDEIRO: Voto em São Paulo e minha escolha é Luiza Erundina. Porque a conheço, porque conheço pessoas próximas a ela e porque as alternativas são bem piores. Infelizmente, não há nenhum político liberal na disputa.

UBIRATAN IORIO: Sou eleitor da cidade do Rio de Janeiro e vou anular o meu voto, porque não identifico em nenhum candidato a prefeito (e também a vereador) as propostas pelas quais me bato. Como serei obrigado a votar, por coerência, terei que anular o meu voto.

PERCIVAL PUGGINA: Moro em Porto Alegre. Votarei no candidato do Partido Progressista - o ex-governador e atual deputado Jair Soares. Ele é o único candidato "não de esquerda" entre os quatro mais bem colocados nas atuais pesquisas de opinião.

OLAVO DE CARVALHO: Nulo ou em branco. Porque confiar num candidato nas presentes condições, já transcende a mera ingenuidade humana.

MEDIADOR: Muito obrigado aos presentes, agradecemos o tempo e a dedicação dos senhores nas respostas face à importância e relevância do processo eleitoral no quadro político brasileiro.

 

MSM

Comentarios (1)Add Comment
********EMO*********
escrito por Alessandra da Silava Souza, 2006-10-04 16:54:26
MUITO MANEIROOOO....

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