| Crédito do Pronaf e a Mulher Agricultora Sertaneja |
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| Escrito por Lígia Albuquerque de Melo * | |
| Saturday, 09 October 2004 | |
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Relações Desiguais de Gênero no Pronaf A ausência da perspectiva de gênero nos programas rurais não se constitui um problema específico do Brasil... E quando as instituições se comprometem com a sua inclusão
não se tem, na prática, a garantia da sua ocorrência. Ao contrário, se as políticas incorporam homens e mulheres,
se amplia para a mulher o leque de possibilidades de
participação do processo produtivo e das atividades políticas,
inclusive as eletivas "A mulher, ao contrário, é sempre considerada no âmbito dos programas de desenvolvimento rural conjuntamente com os filhos, pois cabe ao homem a representação da família por ser, o agricultor, o produtor rural, o chefe da família. Neste sentido existe uma tendência dos Programas em privilegiar a organização familiar e seu projeto estratégico, subsumindo integralmente as mulheres como atores sociais" (Lobo-Souza, 1992). É a partir desta e de outras situações vivenciadas pela mulher que Moser (1991), uma das principais proponentes do planejamento com a Perspectiva de Gênero ou Gênero e Desenvolvimento (Machado, 1999), justifica a importância da inclusão de gênero. Para a autora homens e mulheres têm diferentes necessidades
que precisam ser consideradas pelo planejamento, separadamente. Mas sua representação nas tomadas de decisão significaria,
no mínimo, a visibilização e a possibilidade do seu
reconhecimento como sujeito do processo social. Responsáveis pelo Pronaf acreditam, no entanto, haver
incorporado gênero por não proibir a participação da mulher
trabalhadora. Destaco aqui á inclusão de gênero na linha de crédito que segundo o Programa ocorreu por pressão dos movimentos de mulheres (Pronaf, 2002). A partir da mobilização das mulheres, o Ministério do Desenvolvimento Agrário determinou a inclusão de gênero. Tal decisão fez parte do Programa de Ações Afirmativas do Ministério de Desenvolvimento Agrário MDA/Incra. O documento baixado pelo ministro, Portaria n. 121 de 22 de maio de 2001 foi publicado no Diário Oficial, facilita o acesso para mulheres agricultoras rurais aos recursos de crédito do Pronaf. A Portaria no Art. 1o determina que no exercício de 2001, no
mínimo 30% dos recursos relativos à linha de crédito do
Programa, nos termos do Plano de Safra da Agricultura, seriam
destinadas as mulheres (Pronaf, 2002). A decisão do ministro parece ter ficado somente no documento, pois o desconhecimento quase generalizado da sua existência no município de Afogados da Ingazeira, foi realidade confirmada pelo estudo em pauta. Mulheres agricultoras pesquisadas, representantes das organizações governamentais que atuam na operacionalização do Pronaf, assim como representantes do movimento sindical, do movimento organizado da sociedade civil, da agência bancária responsável pela linha de crédito do Pronaf (6) e de organizações não governamentais afirmaram, apenas com uma exceção, não ter, até então, conhecimento da medida adotada pelo Ministério (7). Do mesmo modo desconheciam o manual de divulgação elaborado
pelo Ministério com esclarecimentos sobre a medida, destinado as
mulheres agricultoras familiares, lideranças locais, pessoal
técnico comprometido com a consolidação da agricultura
familiar no Brasil. No município em estudo do total das 112 (cento e doze)
operações financeiras efetivadas no período de 1997 a 2002,
somente 18 das operações de crédito foram realizadas por
mulheres. Do total de mulheres participantes 14 (quatorze)
solicitaram o Pronaf B, enquanto 4 (quatro) mulheres participaram
do crédito do tipo D. O governo já deu sinal que a mulher tem valor na vida. Achei que foi muito bom, isso valoriza muito a mulher. É uma alegria a gente saber que não tem discriminação contra a mulher. É só a mulher ter coragem para enfrentar. Tanto faz ser homem como mulher, podia pegar o empréstimo. Foi a primeira vez que eu tirei o empréstimo. Queria que viessem outros. Tanto fazia sair no meu nome ou
no nome dele, porque quando é para comprar combina o dois, e
quando é para pagar também. Além da própria inserção no Programa, o tratamento
dispensado à mulher, sem discriminação de sexo, pelo agente
financeiro, também é visto pela agricultora como algo novo O pai dele foi assinar a autorização porque é o dono da terra. Eu fiz o empréstimo, mas para ele pagar... a responsabilidade de pagar é do dono da casa. Ele foi quem agiu para pagar. Minha obrigação foi pegar o dinheiro porque estava no meu nome e eu entreguei a ele. Ele me deu um pedaço do dinheiro R$100,00, eu tive a parceria, ele ficou com o resto. Ele comprou 5 cabeças de bode e ainda ficou com um
troquinho. Ele também fez um cercado para os bichos e foi bom
porque antes, enquanto ele estava trabalhando na firma eu estava
tucalhando [tocaiando] os bodes, era o maior sacrifício A participação da mulher no crédito rural por determinação do homem, reforça a idéia de que o poder de decisão é masculino, mostra a influência masculina no modo de organização social em que a autoridade está centrada, ou seja, a figura do patriarca na unidade doméstica, ainda fortemente presente na área rural do sertão Nordestino. Com isso não se quer negar indícios de mudanças sociais
presentes nas relações sociais de gênero e também explicar as
desigualdades de forma única e congelada, mas pensar o
patriarcado de forma desnaturalizada mostrando seu engendramento
social e cultural como uma forma de dominação (Saffioti,1987). Para lidar com essa perda de tempo, o homem
reforça o estereótipo de gênero de que a mulher é mais
paciente, permitindo que ela o substitua na realização do
crédito. A herança da terra para os agricultores familiares está articulada com a escolha do sucessor, aquele que assegura a continuidade da exploração da terra, isto é, o homem (Carneiro, 2001). Apesar de ser o homem o eleito para herdar a terra, a mulher em quantidade menor que seus irmãos recebe a herança. O repasse da terra para mulher acontece sobretudo se o marido também trabalha na roça. Ciente desse direito de herança ela se anuncia, quando
indagada sobre a posse da propriedade, como proprietária mesmo
quando a terra ainda está registrada no nome do pai, do sogro,
do marido Juntamente com o kit e a documentação pessoal, o requerente anexa recibo de compra dos animais e atestado de vacina deles (11) e encaminha a Empresa oficial que presta Assistência Técnica - Ebape ou ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais. A documentação exigida pelo Pronaf referente à
identificação pessoal completa do solicitante do crédito
deixou mulheres de fora do Programa. Embora isso seja uma
realidade, é importante lembrar que, com a campanha lançada
pelo governo federal Nenhuma Trabalhadora Rural sem
Documento (12), têm diminuído substancialmente a
existência de mulheres rurais sem documentos pessoais,
principalmente as mais jovens. O tamanho do grupo é variado (6, 10, 14 participantes), pois depende do número de candidatos ao crédito. Cada integrante do grupo ao mesmo tempo em que é solicitante do empréstimo, também desempenha a função de avalista de um agricultor requerente. Desse modo, todos os solicitantes do crédito são também avalistas. Na forma de solicitação do empréstimo o avalista substitui o documento da terra. O Banco ao utilizar a prática do crédito em grupo transfere
para os agricultores o trabalho de realização de cobrança,
pois os componentes do grupo automaticamente realizam esse
trabalho para salvaguardar seus interesses. E ao fazê-lo estão
garantido ao Banco o retorno dos recursos financeiros
emprestados. O grau de confiança é grande. Esta corrente se quebrada, em caso do não cumprimento do pagamento da dívida, provoca exclusões no grupo, pois tanto o devedor como o fiador, ficam impedidos de renovar os empréstimos mesmo se o avalista tiver quitado a própria dívida. O devedor não honrou o compromisso assumido e perdeu a confiança do grupo. Os demais participantes continuam em condições de realizar novos empréstimos. O não pagamento da dívida, além de causar prejuízo financeiro ao agricultor fiador, poderá provocar conflito entre os participantes do grupo e se estender pela comunidade. Não foi constatada a quebra da corrente de solidariedade nos grupos em que as mulheres agricultoras entrevistadas participaram. Segundo entrevistada, no seu grupo, houve menção de calote
por parte de um agricultor que tinha uma mulher como sua
avalista, mas o presidente da associação da localidade
interferiu e o devedor saldou a dívida. O dinheiro era para aplicar na roça e no final o tanto que lucrei não deu para pagar o dinheiro de uma só vez como eu queria mas, paguei. Para pagar o Banco tirei o dinheiro dando dia de serviço nas roças do outros. Meu marido até hoje não pagou esse dinheiro e ele tem o ganho dele porque trabalha na cidade passando bicho (Banca de Jogo). Hoje o Banco vê que a mulher paga melhor do que o homem. Antes ele botava muita barreira para a mulher fazer empréstimo mas hoje não. A mulher se preocupa mais de pagar o empréstimo do que o homem (Entrevistada 1) A responsabilidade assumida pela mulher agricultora entrevistada de saldar a dívida com o Banco começa no momento em que o empréstimo é liberado. Nessa ocasião, a preocupação em saldar a dívida já toma conta das mulheres. Muitas delas começam a se preparar para o pagamento do empréstimo, reservando no Banco parte do empréstimo solicitado, caso possuam conta bancária, ou na conta de outra pessoa da família. Em caso de inexistência da conta, a reserva do dinheiro é
guardada em casa. A adimplência da mulher em relação ao homem
é também confirmada por representante da agência bancária que
assim se expressa Dessas mulheres, 78% participam do crédito do tipo B, o de
menor financiamento do Programa, enquanto 9% participam do
empréstimo acima dos R$500,00. A participação inferior das
mulheres agricultoras no crédito rural acontece pelas
condições desiguais de gênero impostas ao feminino lém de jurídicas, também sociais, pois como aponta o senso comum o homem que deve é chamado simplesmente de caloteiro enquanto que a mulher é chamada de mulher caloteira. As mulheres também procuram honrar o espaço público dos
negócios que tradicionalmente é masculino. Tem mulheres que acham que não vão pagar o empréstimo,
elas acham que é difícil. A gente sempre tem um pouquinho de
medo de pagar o empréstimo por ser da classe mulher que não tem
acesso a qualquer trabalho, tem que ser mais o trabalho da roça,
não tem outro lugar. Mas a gente naquele pensamento, tem sempre
uma força e aí a gente faz o empréstimo...(Entrevistada
1) Quando a gente gasta o dinheiro com coisa que não tem
valor, como na casa (não gera renda) aí fica difícil pagar o
empréstimo. Para pagar não foi preciso vender muita coisa. Eu
tinha coragem de tirar R$ 4mil mas eu não tinha terra para
garantir (Entrevistada 6) No entanto, a mulher agricultora familiar que historicamente não participa do crédito rural por ser negócio de homem, do mesmo modo que é o negócio de homem a comercialização da produção agrícola na feira como constatou Garcia Jr. (1989), ao participar do crédito do Pronaf, de modo geral, não temia saldar a dívida bancária contraída mesmo quando esta constituía a primeira experiência de empréstimo no Banco. A autoconfiança da agricultora acontece porque ela, mesmo não se envolvendo diretamente com a compra dos animais que motivou o crédito (aplicação do crédito B, modalidade em que a mulher tem maior acesso no Pronaf), pois no geral o marido se encarrega de realizar o negócio, participa do planejamento e acompanha a aplicação dos recursos. Para garantir o compromisso assumido, a mulher de forma preventiva, no ato do recebimento do empréstimo não retira o total dos recursos disponíveis iniciando o processo de reposição do valor solicitado, como mencionado anteriormente. Além disso, sendo um empréstimo de baixo valor, a mulher
garante o pagamento da dívida com os proventos da aposentadoria,
caso possua, da criação de galinhas e de parte da criação dos
animais adquiridos para saldar a dívida bancária. Porém maior
número dos animais comprados permaneceu com a família da
agricultora O governo nunca pensa na mulher da roça. Pode ser que o de
hoje (governo de Lula) pense porque a mãe dele foi da roça e
ele sabe das dificuldades da mulher do campo. Para o outro
governo (Fernando Henrique) só quem trabalhava era a mulher
dele, as outras eram todas vagabundas (Entrevistada
1) O governo nunca pensa na vida da mulher da roça. Ele
não valoriza. Se ele desse valor ele dava emprego para as
mulheres. Ele nem sabe que a mulher existe porque até agora não
fez nada por ela (Entrevistada 3) A mulher deveria ter mais direito, mas chance para ela
trabalhar, para ela desenvolver. Mais facilidade para ela fazer
negócio no Banco. Tem muito negócio que o homem tem direito e a
mulher não tem. Acho que é porque o homem já é considerado
agricultor e a mulher não (Entrevistada 14) O Desenho do Pronaf - O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), inserido nas políticas públicas brasileiras, foi criado para atender reivindicações da sociedade civil organizada, que desde o início da década de 90 intensifica suas mobilizações. Nesta época os movimentos sociais como as organizações de trabalhadores rurais lutavam para conseguir do governo federal um programa direcionado para os agricultores familiares que, dentre outras causas, reivindicava uma política de crédito agrícola diferenciada. O motivo desta reivindicação se explica na forma como o crédito era oferecido aos agricultores familiares, sem diferenciá-los, por exemplo, dos chamados grandes agricultores. Assim, as normas do financiamento bancário eram praticamente
as mesmas para todos os agricultores solicitantes do crédito
rural. Ele atua nas regiões brasileiras e elegeu como beneficiários
os agricultores familiares e suas organizações. Na forma de intervir o Pronaf adota uma estratégia inovadora,
qual seja, a participação conjunta da sociedade. O princípio
de parceria é celebrado entre os governos municipais, estaduais
e o governo federal, além da iniciativa privada, dos
representantes dos agricultores familiares e suas organizações A solicitação do crédito pelo agricultor familiar pode se realizar de forma individual, coletiva ou institucional. Existem duas modalidades de crédito no Pronaf: de custeio e de investimento que são operacionalizadas pelos agentes financeiros. O crédito de custeio se destina ao financiamento das atividades agropecuárias e não agropecuárias, enquanto o crédito de investimento se destina a benfeitorias da propriedade. Nesta modalidade o crédito pode ser também do tipo grupal e coletivo. O crédito grupal é formalizado com grupos de produtores para finalidades individuais e o coletivo com finalidades coletivas no qual todos são responsáveis pelo recurso liberado. É utilizado, dentre outras atividades, na piscicultura e apicultura. Cada linha de crédito do Programa funciona quanto ao limite de empréstimo, as condições e prazo de pagamento e de acordo com as categorias de beneficiados de regiões do país. O crédito é oferecido aos agricultores familiares sob a
forma de 4 (quatro) grupos chamados de A, B, C, e D (Pronaf,
2002). A partir do ano de 2000 o crédito foi distribuído em 4
(quatro) grupos: A, B, C, e D. (Pronaf, 2002). Com exceção do
grupo A, a participação nos demais grupos de crédito está
condicionada a renda familiar (1) anual do solicitante O tipo de crédito concedido é de custeio e o limite de empréstimo é de até R$500,00. A taxa de juros cobrada no Pronaf B é de 1% a.a. O agricultor tem o prazo de até 2 (dois) anos para saldar a dívida, com até 1 (um) ano de carência e direito ao rebate de 40%, no ato da liquidação, para o pagamento em dia. Esse crédito pode ser concedido até 3 (três) vezes consecutivas e não cumulativas. Além disso, o agricultor poderá, considerando os requisitos exigidos, se candidatar a outro grupo do crédito oferecido pelo Pronaf.
Algumas Considerações Finais - Fica evidenciado a partir das condições de participação da mulher no crédito do Pronaf que elementos tradicionais estão presentes na organização social rural do município pesquisado. O modelo social que mantém elementos tradicionais, o passado e os símbolos produzidos são valorizados pela sociedade porque são criados a partir das experiências das gerações que se encarregam de reproduzi-los. Porém, essa realidade tradicional não se mantém intacta, ela sofre alterações ou se esgarça, promovidas pelas novas gerações que se formam, embora ela sempre ofereça resistência (Giddens, 1991). Para esse autor quando ocorre a transição entre o velho (tradicional) e o novo (moderno) acontece o deslocamento das relações sociais que ele denomina de desencaixe. As relações sociais de gênero na agricultura familiar em Afogados da Ingazeira apontam para permanências e modificações. Permanência pode ser percebida quando o homem é o responsável pelos negócios da agricultura, como, por exemplo, venda da produção e empréstimo bancário, mesmo quando a mulher de fato é a responsável pela geração da produção e adquirir o crédito bancário. Neste caso a mulher reproduz a situação de desigualdade ao reconhecer no homem a capacidade de lidar com a esfera pública, sob alegação de sua inexperiência no ramo e até incompetência para realizar a atividade de comercialização. Apesar disso, o fato da mulher participar do crédito rural
marcando presença em espaços públicos para efetivar o
empréstimo mesmo que, na maioria das vezes, por decisão do
homem (desinteressado ou impossibilitado de fazê-lo indicou a
mulher para garantir o direito ao empréstimo concedido pelo
Pronaf à família) significa sinal de mudança nas relações de
gênero. Sua participação no crédito dá visibilidade ao seu trabalho na agricultura familiar, possibilita aumento na sua auto - estima, promove geração de renda, dentre outros.
Referências Bibliográficas adital Comentarios (6)
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"O desenho de políticas de desenvolvimento
rural dos países da região latino americana e do Caribe, com
poucas exceções, não se tem integrado nem considerado
adequadamente as mulheres" (Arriagada, 1991).
Sou estagiária de um agente financeiro e precisava saber mais porque eu trabalho com FNO Especial.
Obrigada e parabéns...