Cerca de 920 mulheres, indígenas, caboclas e negras do Estado do Amapá, vivem diferenças culturais, lingüísticas, porem, em comum elas tem uma "vocação", são parteiras tradicionais, com diferentes técnicas e orações na hora do parto.
São donas-de-casa, pescadoras, agricultoras e extrativistas de castanha, que deixam seus lares para auxiliar as parturientes a dar à luz, sempre permanecendo com elas mais sete dias depois do nascimento.
É a região do País, que tem a maior ocorrência (88%) de partos normais. O índice médio de cesarianas é 12%, abaixo da marca de 15% apontada como aceitável pela Organização Mundial de Saúde (DM5).
O Amapá possui cerca de 600 mil habitantes, num território de 144 mil Km quadrados e uma das mais baixas densidades demográficas do Brasil: 2 habitantes por km quadrado. O Estado tem somente 16 municípios e não possui hospitais suficientes para atender à sua população.
Os povoados do Amapá, embora paupérrimos, trazem em sua maioria incontáveis antenas parabólicas ao lado de casebres de madeira com um único cômodo para toda a família. Até mesmo nas aldeias indígenas.

Fazendo uso de técnicas indígenas milenares, as parteiras auxiliam no nascimento de crianças por todo o Estado, atravessando grandes distâncias que dificultam o acesso entre as comunidades espalhadas pela floresta amazônica, alagados e cerrados.
Recebem como pagamento um 'bocado' de milho ou outro cereal, uma galinha ou até mesmo uma pequena quantia de dinheiro de R$ 10 a R$ 40. Mas muitas se recusam a receber qualquer tipo de pagamento, pois acreditam terem sido escolhidas por Deus para a arte de "puxar barriga" e "pegar menino".
A sabedoria dessas mulheres, a maioria analfabetas, que adquiriram um conhecimento muito 'especial' da vida e da morte, depois de participar do nascimento de centenas de crianças, entre elas, os próprios netos.
O trabalho dessas parteiras envolve cantorias indígenas, rezas, preces e orações para várias entidades religiosas, como São Bartolomeu, a maioria, acredita ter recebido uma missão de Deus.
Elas fazem massagens com ungüentos à base de gordura de animais e óleos vegetais. Dão chás e banhos com ervas nas parturientes. Usam lascas de bambu e fibras para cortar o umbigo do recem nascido.
Conhecem ervas que ajudam a descolar a placenta. Usam óleo de andiroba, cânfora, copaíba, casca de barbatimão, verônica, folhas de hortelã do maranhão, mastruz, mel, chá de chicória com cominho (para aumentar as contrações) e chá de sete grelos do ingá (contra hemorragias), feito à base de uma árvore da várzea, fervida com sal.
No período (7 dias), em que permanecem com as mães, elas lavam fraldas, preparam refeições leves, fazem massagens para que a barriga da parturiente volte ao lugar. Ensinam a não comer comida que prejudica a saúde da mãe e do bebê, como jacaré ou capivara. Orientam a comer coisas mais leves como galinha com caribé, que é uma farinha coada com água, sal, manteiga e alho. Os cuidados e a dedicação da parteira até que a mãe se restabeleça para enfrentar novamente os afazeres domésticos.
Estas parteiras, também cumprem outra importante função social: são elas que fazem o cadastro de nascimentos nos povoados.
Exercem sua profissão como atividade secundária. Receberam das mães os rudimentos da profissão e estão persuadidas que ser parteira é uma vocação divina.
Macapá, tem 223 parteiras, 105 estão na área urbana, em sua maioria negras e caboclas - que vivem em povoados caboclos, na comunidade negra de Curiaú, antigo quilombo na periferia de Macapá, e do arquipélago de Bailiki, na foz do rio Amazonas.
E mulheres de comunidades indígenas do Oiapoque, no norte do Estado, esta região engloba 118 parteiras, que vivem em povoados separados por grandes distâncias.
Muitas aldeias falam patuá, um dialeto que é uma espécie de francês arcaico. A região fica bem perto da Guiana Francesa. Na cidade de Oiapoque acaba de ser construída a primeira casa do parto do Amapá, com uma arquitetura que sugere uma mulher dando à luz.
Durante muitas décadas, as parteiras foram vítimas de preconceitos. Tinham medo de ser presas por exercício ilegal da profissão. Em sua maioria religiosas, eram consideradas bruxas e feiticeiras, mas hoje, em Macapá, são realizados encontros e cursos para parteiras, visando à melhoria da qualidade de vida, o ensino de técnicas de assepsia e treinamento com barro para mostrar como puxar uma barriga!! e também como posicionar o bebê na hora do parto.
Atualmente são distribuídos para as parteiras kits contendo o seguinte: panela de pressão (esterilizador), luvas, gaze, mercúrio, estetoscópio, fita métrica, balança, tesoura, sombrinha, capa de chuva, escovinha de unha, sabonete ou sabão de coco, álcool iodado, lanterna e colírio argirol para abrir os olhos do bebê.
No Alto Juruá as parteiras trocam experiências com a ajuda do programa "Maria Esperança"

Acesse: Profissão - Parteira
No Brasil são feitos, aproximadamente, 2,6 milhões de partos anuais. Desse total, 24% são cirúrgicos. O estado recordista é Mato Grosso, com 40,46% de cesáreas. Para coibir o alto índice de cesarianas no país, o Ministério da Saúde lançou, em 1998, uma portaria que determina controle rigoroso sobre o pagamento de no máximo 40% de cesarianas sobre o total de partos realizados pelo SUS. A medida, segundo dados da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direito Reprodutivo, conseguiu reduzir para 30% o número de cesáreas realizadas este ano na rede pública. As parteiras são responsáveis por 450 mil partos todos os anos. São 45 mil mulheres só nas regiões Norte e Nordeste. Destas, seis mil estão organizadas em rede. O Brasil ainda apresenta um coeficiente próximo de 110 mortes maternas por cem mil nascidos vivos. Elas correspondem a 6% dos óbitos de mulheres com idade entre 10 e 49 anos.
Produzido por Ugo Giorgetti, Evaldo Mocarzel, dirigiu o filme documentário, "Mensageiras da Luz", sobre essas mulheres.
"Parteiras da Amazônia" emocionam em Locarno, Suiça
O filme "Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia", do cineasta e jornalista carioca Evaldo Mocarzel, ex-editor do Caderno 2 do Estadão, provocou viva emoção no público que lotou o cine Kursaal, dentro da mostra paralela Semana da Critica, do Festival de Locarno.
Pode-se dizer que 80% dos espectadores eram mulheres e entre elas muitas parteiras do Primeiro Mundo, acostumadas a se servirem de equipamentos e condições modernas nos partos, quer como independentes ou nos hospitais e clínicas suíços.
Fora a comparação com os métodos empíricos das parteiras amazonenses que fazem o trabalho do parto em casa, pois as mães vivem em lugares distantes, o filme joga com a luz (atenuada por nuvens, refletida no rio ou num sol que desponta ou se põe) e com as águas, numa referência ao líquido amniótico das placentas, onde vivem os bebês antes de nascerem.
Impressionaram também o otimismo e a vocação das parteiras amazonenses, algumas sem qualquer instrução, mas entusiasmadas pela vocação de trazer crianças à luz que, segundo elas, as aproxima do sobrenatural. Num momento em que explodem os custos médicos europeus e que o recurso às cesarianas é utilizado pela medicina comercial, chega a ser comovente a maneira como as mensageiras da luz acentuam serem benévolas, sem qualquer retribuição monetária por seu trabalho.
O parto mostrado, que seria normal mas que se transformou num parto complicado, criou um clima tenso que, com o nascimento do bebê, provocou lágrimas de contentamento em muitos espectadores.
A ausência de Evaldo Mocarzel ou de outra pessoa da equipe, para explicar o desenvolvimento das filmagens, implicou na anulação do habitual debate com o público.
Mas duas enfermeiras obstetras suíças, Hanna Buehler e Eveline Fluckiger, aceitaram dar suas opiniões sobre alguns aspectos que poderiam ser diferentes em maternidades modernas. Elas confirmam a opinião das parteiras empíricas amazonenses quanto à possibilidade de se mudar a má posição do bebê para o nascimento, mas que se deve tomar cuidado para não traumatizar o bebê.
Caso a posição persista, num hospital moderno se utiliza a cesariana, mas é possível o nascimento em posição incorreta.
Confirmam também serem contra o corte vaginal para o nascimento. “O uso do corte ou episiotemia só serve mesmo para justificar a presença do médico, que, depois, terá de costurá-lo, pois é o único habilitado para isso”. Sem o corte, todo o trabalho poderia ser feito pelas parteiras.
Mas lembram que o lugar do corte, depois de cicatrizados os pontos, se torna dolorido, por muito tempo, podendo criar problemas para a relação sexual. Ou seja, o método natural das parteiras amazonenses afasta o risco do medo da mulher ter relações depois do parto.
No caso do parto difícil do filme, elas lembram que, na Suíça, se adota uma posição mais vertical da mulher, “pois a posição deitada, horizontal, dificulta os esforços da mulher para expulsar o bebê”.
Elas acham que o começo do trabalho foi correto, “mas houve uma modificação da posição, talvez por um nervosismo das parteiras, criado pela presença da câmera. Ao sair a cabeça, o rosto teria de ter continuado voltado para baixo, foi a modificação da posição da cabeça, que dificultou a saída”.
Elas consideram as parteiras do filme como verdadeiras heroínas e se declararam emocionadas com seu trabalho, pois fazem tudo sem a ajuda de remédios e sem um serviço pré-natal.
O filme mostra uma flagrante diferença entre o parto natural e a cesariana, praticada na maternidade paulistana, que se tornou a coisa mais comum nas maternidades brasileiras. A supermedicamentação hospitalar surge com a colocação do colírio nos olhos do bebê Mateus, filho do cineasta.
Esse colírio era usado no passado, na Europa, para prevenir os olhos do bebê de doenças venéreas como a gonorréia. Hoje, os exames prévios informam se existe esse risco, razão pela qual vem sendo deixado de lado pelas maternidades européias. No caso de cesariana, o colírio nos olhos é totalmente supérfluo, pois na cesariana o bebê não tem contato direto com a vagina.
FICHA TÉCNICA
Título Original: Mensageiras da Luz, Parteiras da Amazônia Gênero: Documentário em 35 mm Tempo de Duração: 72 min. (O documentário tem duas versões: uma curta, com 15 minutos, e outra longa, com 72 minutos) Ano de Lançamento (Brasil): 2004 Estúdio: Casa Azul Produções Artísticas / SP Filmes Distribuição: SP Filmes Direção: Evaldo Mocarzel Roteiro: Evaldo Mocarzel Produtor: Ugo Giorgetti Produção Executiva: Malu Oliveira Desenho de Produção: Afonso Coaracy Fotografia: Paulo Jacinto dos Reis (Feijão), ABC Edição: Marcelo Moraes Prêmio: recebeu o prêmio Melhor Curta-metragem Brasileiro - Prêmio da Associação Curta Minas no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, 2004.
Elenco
Parteiras: Rossilda Joaquina da Silva, Maria Zuleide da Conceição Silva, Marilene Pinto da Costa, Oscarina Barbosa Vilhena, Maria Trindade dos Santos Rocha, Maria dos Santos, Maria Alexandrina dos Santos, Jovelina Costa dos Santos, Trindade dos Santos Sarmento, Maria Teresa Sousa Bordalo, Erika do Socorro Silva Ribeiro, Francisca das Neves Guedes, Maria Pereira da Costa.
Rui Martins:
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Wilson
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