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Quarenta anos atrás, as palavras se escondiam para não
construir frases, por medo das conseqüências do que diziam.
Agora, as palavras continuam se escondendo para não formar
frases. Por desesperança diante do que vão dizer.
Falar de uma civilização que está aquecendo o planeta em uma rápida
marcha rumo à desarticulação do tênue sistema que mantém a
vida e do equilíbrio com o qual funciona a natureza e sobrevivem
bilhões de seres humanos; ameaçando destruir, em nome do
progresso, o patrimônio construído até aqui, após dez mil
anos de evolução.
Dizer da desigualdade criada por esse progresso, que começa a
fazer os homens diferentes, mais do que desiguais, provocando uma
mutação biológica que fará os que podem ter os produtos do
avanço técnico viverem mais, com mais inteligência e saúde, e
bilhões viverem pouco, doentes, esfomeados, sem instrução.
Ou falar de um tempo no qual, graças a esse avanço técnico,
armas são chamadas de inteligentes o que mata
a ética e desmoraliza o conceito de inteligência e são
usadas indiscriminadamente contra povos indefesos e crianças
cujo único erro foi estar no local escolhido como alvo, conforme
o gosto dos governantes, seus interesses políticos ou suas
patologias psicológicas, ou ainda pior, a vontade de vingança
dos seus eleitores.
Ou contar que, em nome dos oprimidos, muitos terminam do lado de
ditadores e terroristas que agem fora da lei, apenas para ficar
contra governantes perversos que agem dentro de uma lei fabricada
por eles próprios, e saber que esses terroristas em breve terão
armas de destruição em massa para serem usadas contra povos
inteiros, desarmados, somente para atingir um ou outro governo.
E duvidar que a democracia, que resistiu 2.500 anos como sendo a
excelência na forma dos homens se relacionarem, comece a ficar
obsoleta diante do choque entre o curto prazo do egoísmo
nacional com o qual eleitores escolhem e eleitos decidem e o
longo prazo das conseqüências dessas decisões e seus efeitos
planetários.
E perceber que o poder corrompe até os incorruptíveis, senão
pela ganância, pela insensibilidade com a qual a realidade que
deveria ser modificada termina aceita com naturalidade, mesmo nos
mais perversos e malditos defeitos que deveríamos combater.
E narrar a desesperança ao perceber, depois de décadas lutando
para que a esperança saia dos livros e vire realidade, que a
realidade mata a esperança, que no lugar de chegarmos ao futuro
sonhado continuamos na mesma e inexorável marcha das coisas, não
importa qual seja o governo escolhido.
Desesperança e medo de imitar as palavras e querer se esconder
diante do que estamos construindo, ou do que deixamos de
construir, por falta de ética para construir o que sonhamos, de
ousadia para tentar novos caminhos, de vontade para continuar na
mesma onda do passado, e por excesso de egoísmo e falta de
solidariedade para com os excluídos, por serem pobres hoje ou
por ainda não terem nascido.
Quando comecei a escrever, as palavras se escondiam para não
fazerem frases, com medo das conseqüências do que diziam. Mas
apesar do medo, uma força maior as fazia surgirem, se
encontrarem e escreverem as frases que as uniam.
Agora, as palavras continuam se escondendo para não formar
frases, por desesperança diante do que vão dizer. Mas apesar da
desesperança, elas continuam surgindo e escrevendo, em nome da
esperança que mata o medo, impede o silêncio e nos obriga a
dizer as coisas.
Porque, apesar do medo e da desesperança que assustam as
palavras, sua força lhes dá vontade de nascer, apostar no
futuro, retomar a esperança, sem medo de escrever.
Publicado no Jornal do Commercio do dia 1º
de outubro de 2004
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador
do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT
com a maior votação dada a um político no Distrito Federal.
Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de
Educação da Unesco. Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br
e escrever-lhe em
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