Com inaudito espanto, li ha uns dois anos atrás, um artigo que a revista Veja havia publicado sob o título de "O teatro é o problema".
De início, fiquei felicíssimo com as revelações do
jornalista, de que:
Em Ribeirão Preto, a prefeitura havia colocado 300
adolescentes interpretam sketches pedagógicos sobre a dengue, em
locais públicos.
Em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, ativistas
recitaram um ato em favor da estatização da indústria
farmacêutica.
Em São Paulo, a prefeita organizou um psicodrama
coletivo para discutir o que você pode fazer para ter uma
cidade feliz? O evento mobilizou 8.000 moradores.
Em Santo André os grupos teatrais incentivaram o
espectador a debater os problemas da cidade e a sugerir
soluções.
Depois dessas revelações que encheram minhalma de justa
alegria, o articulista concluiu que eu era o culpado de tudo isso
porque inventei o Teatro do Oprimido, e que todo o teatro é
intrinsecamente maléfico, pois a nossa população necessita de
um pouco mais de freio inibitório porque nós
não necessitamos de mais teatros e ainda
as igrejas evangélicas trouxeram o benefício de fechar
grande quantidade de teatros inúteis.
Em suas linhas epilogais, o articulista revelou seus temores:
O risco que corremos agora é que, com a vitória de Lula,
o teatro brasileiro recupere as forças e tome as ruas.
Diante do pânico do jornalista, eu o tranqüilizei, informando
que, o Teatro do Oprimido existe atualmente em mais de 70
países.
Não cabe então ao nosso atual presidente nenhuma culpa pelo
extraordinário desenvolvimento do TO no mundo inteiro, não só
nas atividades político-legislativas referidas, mas também
psicoterapêuticas, sociais e pedagógicas, nas quais é
amplamente utilizado.
É verdade que os exemplos citados, na época, foram obra de
governos municipais do PT. No entanto, o trabalho que fizemos
naquele período, em 37 prisões de São Paulo; o que fizemos
posteriormente, com seis grupos do Teatro Legislativo, no Rio; ou
com os trabalhadores do MST em todo o Brasil esse nada
têm a ver com nenhum partido.
O medo do articulista muito nos anima e, com ansiedade, esperamos
que se cumpra a sua profecia de que o Brasil se transforme
em um gigantesco palco.
Não para canastrões, como dizia o artigo, mas para que
cidadãos livres possam, democraticamente, recuperar o seu
legítimo direito à expressão teatral.
Ainda uma vez discordei do articulista quando afirmou que
os petistas ainda acham que o teatro deve ser usado como
instrumento de transformação social.
Digo que não só eles, mas, desde Aristóteles, todo mundo. A
diferença é que alguns pretendem usá-lo para adormecer os
espectadores e, outros, para despertá-los.
Discordo ainda e nisto tenho o apoio de 99,99% da nossa
classe teatral de que já não necessitamos de mais
teatros... porque já se produzem bobagens suficientes no
Brasil.
Bobagens, é verdade, vemos em toda a parte: no teatro, sim,
mas também no jornalismo, nas telas de TV, nos filmes de
inspiração holliudesca, na política.
Tenho certeza de que o jornalista não dirá que já não
necessitamos de governos ou de novos jornais ou revistas, só
porque, por esses meios, tantas tolices já foram ditas e postas
em prática.
Quando ele se regozija com o fechamento de teatros e, ao mesmo
tempo, se insurge contra o teatro feito nas ruas, na verdade o
que o intimida é o fato de ser o teatro uma linguagem que pode
ser usada pela população a qualquer momento, em qualquer lugar.
Augusto Boal é teatrólogo
Consciência.Net
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