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Escrito por Marcelo Seabra (tradução)   
Wednesday, 06 October 2004

Pergunta: O Brasil quer um Oscar?
Resposta: Claro, mas não por Olga.

Em seus 77 anos de história, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood nunca premiou um filme brasileiro. Em nenhuma categoria.

Não estou contando O Beijo da Mulher Aranha, de 1985, co-produzido por uma empresa americana e dirigido pelo argentino Hector Babenco, que tem também cidadania brasileira. A única vitória de O Beijo..., no caso, foi na categoria Melhor Ator: William Hurt, que obviamente não nasceu no Rio de Janeiro.

O desejo por um Oscar se tornou uma espécie de obsessão para vários jornalistas brasileiros e membros de nossa indústria cinematográfica.

Ganhar um Oscar, dizem, seria consagrar a nova e próspera fase do nosso Cinema, que foi praticamente destruído pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, mas renasceu em 1994 com o sucesso nas bilheterias de dois filmes: Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati, e O Menino Maluquinho, do diretor Helvécio Ratton.

Desde então, quatro longas-metragens do Brasil foram indicados a Oscars (além do curta Uma História de Futebol, de Paulo Machline): O Quatrilho, em 1996; O Que É Isso, Companheiro?, em 1998; Central do Brasil, em 1999; e Cidade de Deus, em 2004.

Antes disso, apenas um filme brasileiro havia sido indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira: o maravilhoso O Pagador de Promessas, em 1963.

E o mais triste nisso é que, considerando os quatro longas recentes, apenas Central do Brasil e Cidade de Deus realmente mereceram as indicações; os outros dois já foram há muito esquecidos – merecidamente.

É assim que o processo de seleção dos indicados ao Oscar de Língua Estrangeira funciona:

Cada país deve indicar oficialmente um candidato. Em seguida, a Academia divide todos os filmes em grupos, e, então, os membros de comitês especiais se dividem em comissões menores que ficam responsáveis por cada grupo de filmes.

Depois que todos os títulos forem assistidos e julgados, os cinco que obtiverem as melhores avaliações ficarão com as indicações finais.

Dos filmes antes mencionados, apenas Cidade de Deus não conseguiu a indicação para a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, um erro enorme que foi corrigido no ano seguinte quando foi indicado a quatro Oscars, fato sem precedentes: Diretor (Fernando Meirelles), Fotografia (César Charlone), Edição (Daniel Rezende) e Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani) - novamente, não estou considerando O Beijo da Mulher Aranha.

Eis o problema: nos últimos anos, o comitê oficial brasileiro vem tentando escolher o candidato que tenha mais chances de ser indicado e de vencer o Oscar, e isto não significa que ele seja sempre nosso melhor representante.

Em 2000, o comitê selecionou o decepcionante Orfeu, ao invés do belíssimo A Ostra e o Vento. Em 2002, eles escolheram Abril Despedaçado, o pior dos filmes de Walter Salles, em vez do magnífico (mesmo que difícil) Lavoura Arcaica, de Luís Fernando Carvalho.

Em 2004, o comitê escolheu o terrível Carandiru, ignorando grandes candidatos como O Homem que Copiava, Dois Perdidos Numa Noite Suja e O Caminho das Nuvens. Felizmente, a Academia deixou Carandiru fora da competição.

Eu disse felizmente? É, disse. Ao contrário de alguns membros do tal comitê, não quero ver um filme que não mereça ganhando um prêmio tão cobiçado. Quero celebrar nossa inevitável vitória com a consciência limpa: ganhamos porque o filme era ótimo, não porque foi moldado para comover os eleitores da Academia.

Mas é provável que eu não consiga fazer isso.

Este são os oito filmes disputando para ser o indicado brasileiro para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2005: Olga, de Jayme Monjardim; Pelé Eterno, de Anibal Massaini Neto; Cazuza, o Tempo Não Pára, de Sandra Werneck e Walter Carvalho; Garrincha – Estrela Solitária, de Milton Alencar Jr.; De Passagem, de Ricardo Elias; O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein; Benjamim, de Monique Gardenberg; e Redentor, de Cláudio Torres.

A indicação oficial do Brasil foi anunciada em 21 de setembro.

Os quatro primeiros indicados eram cinebiografias, o que foi uma tendência interessante, considerando que alguns dos já favoritos americanos também o eram: Ray, Finding Neverland, Kinsey, Diários de Motocicleta (o melhor dos filmes de Walter Salles) e Alexandre, além de Beyond the Sea, de Kevin Spacey, que foi uma das atrações do Festival de Cinema de Toronto.

Agora... não vou nem comentar o fato de que dois dos melhores filmes brasileiros do ano não estão sendo considerados: Narradores de Javé* (que não foi registrado na competição por sua diretora, Eliane Caffé) e Contra Todos, de Roberto Moreira, que é desqualificado por não ser exibido no Brasil até novembro.

O que realmente me incomoda é que todas as chances apontavam para a seleção de Olga, sobre a socialista alemã Olga Benario, que veio para o Brasil nos anos 30 para lutar contra a ditadura de Getúlio Vargas e se apaixonou pelo revolucionário Luís Carlos Prestes.

Depois de ser presa, ela foi mandada de volta para a Alemanha por Vargas, que sabia ser isto equivalente a uma sentença de morte, já que Olga era judia.

A história de sua vida é magnífica – e, se você tiver a oportunidade de ler a biografia escrita por Fernando Morais, leia. Infelizmente, o filme mantém seu foco no seu romance com Prestes e é excessivamente melodramático e carregado de clichês (Monjardim construiu sua carreira como diretor de novelas). No entanto, se o comitê seguiu a lógica do 'qual filme tem mais chances', Olga venceu.

Por quê? Ele traz uma história de amor arruinada pelo Holocausto - e todos sabem que a Academia é louca por filmes sobre o Holocausto.

Esta visão pragmática (e incorreta) do comitê brasileiro se manifestou em outro lugar. Acredite ou não, apesar de The Five Obstructions, de Lars von Trier e co-dirigido por Jorgen Leth, ter sido escolhido pelo comitê oficial dinamarquês para ser seu representante, um grupo de produtores do país decidiu obstruir a decisão, alegando que a narrativa experimental faria com que fosse impossível para o filme ser indicado ao Oscar.

'Não se trata apenas de escolher o melhor filme, mas aquele que terá mais chances de ser indicado', disse um dos produtores revoltosos.

Espero estar errado. Mas realmente temo que Olga possa ser o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E isto seria uma vergonha.

Mau perdedor

Todos vocês já viram a cena: cinco pessoas são indicadas a um prêmio e, quando o vencedor é anunciado, os outros quatro aplaudem e assumem uma expressão alegre, tentando simular a aparência de 'OK, estou bem com isso... ele realmente mereceu... estou feliz de ter sido indicado, de qualquer jeito!'.

E aposto que você torce para, pelo menos por uma vez, um dos perdedores abandonar a farsa e mostrar seus sentimentos verdadeiros. Sei que eu torço. A cara de bravo de Bill Murray no Oscar, quando Sean Penn venceu, quase satisfez este desejo.

Assim sendo, vocês precisavam ter visto o que aconteceu no Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro, que está fazendo de tudo para se tornar tão importante quanto o Goya é para a Espanha ou o César é para a França.

Quando Hector Babenco foi (injustamente) anunciado como co-vencedor do prêmio de Melhor Diretor por Carandiru (junto com o merecedor Jorge Furtado, de O Homem que Copiava), alguém se levantou na platéia e começou a protestar.

Era o diretor Cláudio Assis, que foi indicado por seu primeiro filme, o impressionante Amarelo Manga. A atitude de Assis não é exatamente recomendável, obviamente. A coisa mais simpática que alguém pode dizer é que ele é um mau perdedor.

Mas algumas das coisas que ele disse durante sua explosão deveriam ser ao menos consideradas protestos válidos. Ele alegou que existe uma elite que domina a indústria cinematográfica no Brasil, e não está errado neste ponto.

O momento que Assis escolheu, no entanto, não poderia ter sido pior. Tudo o que ele conseguiu foi passar a impressão de que estava sendo apenas desdenhoso por ter perdido o prêmio – e, assim, questões importantes que deveriam ser discutidas estão sendo ignoradas.

Um grande abraço e bons filmes!



* Observação: um alerta para um erro: na verdade, Narradores de Javé está, sim, competindo por uma vaga. O que ocorreu foi um atraso na chegada da inscrição ao comitê, mas como o formulário fôra enviado dentro do prazo estipulado pelas regras, o longa pôde entrar na disputa. Uma ótima notícia (que ficará ainda melhor caso ele seja o selecionado).

** Observação 2: É possível que Jayme Monjardim tenha boicotado as próprias chances ao dizer, em uma entrevista à Folha de São Paulo, que a cineasta Suzana Amaral (que tem 72 anos de idade) é uma 'debilóide' e 'frustrada' – o que, além de provar sua falta de educação, ainda evidencia seu desconhecimento sobre tudo que diz respeito à produção nacional, já que A Hora da Estrela, dirigido por Amaral, é um dos filmes mais premiados da história do nosso Cinema.

*** Observação 3: A Comissão de Seleção que escolheu, dia 21/09 o representante brasileiro ao oscar, foi formada por cinco integrantes: Carla Camurati, André Luiz Pompéia Sturm, José Geraldo Couto, Paulo Maurício Germany Caldas e Luiz Severiano Ribeiro Neto.

 

O artigo foi publicado originalmente, em inglês, na coluna Burden of Dreams, do site Hollywood Elsewhere.

Comentarios (1)Add Comment
Dívida externa
escrito por Maria Carvalho, 2006-10-16 09:50:30
1- Quais as principais causas da evolução da dívida externa brasileira a partir da década de 70?
2- Como pode ser avaliado o volume da divida externa brasileira?
Desejo a resposta de imediato para conclusão de um trabalho.
Att,
Maria.

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