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O lendário Glauber Rocha produziu, dirigiu, criou argumentos, roteiros e até músicas do varias vezes premiado "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). Nessa peça antológica da filmografia brasileira, baseada na literatura de cordel e nas suas belas metáforas, estão presentes o cangaço, as "milícias de coronéis", a gente do povo e morte, muita morte.
Parece até existir algo de paralelo, entre a ficção Glauberiana e os acontecimentos reais do final de semana de 17/18 de outubro de 2009 no Rio de Janeiro. As muitas mortes desse final de semana também aconteceram em uma "Terra do Sol", só que na da "Cidade Maravilhosa", da garota de uma das músicas brasileiras mais cantadas no exterior: a da "moça do corpo dourado do sol de Ipanema" de Jobim e Vinícius. Na terra de parte da futura Copa do Mundo de Futebol de 2014 e da olimpíada inteira de 2016.
Nesse final de semana de 17/18 de outubro foram mais doze mortes em local próximo ao "Morro dos Macacos", fruto de confronto entre traficantes de quadrilhas rivais. Emblematicamente, a polícia apreendeu cerca de 260 quilos de maconha. Dois policiais tombaram, mais uma vez, sem que sejam contados, nem no Rio de Janeiro nem no restante do país.
É um número invisível, talvez por ser também do "gado invisível" que não pode fazer o que "os deuses podem". Não puderam simular que a guerra não está aberta contra o Estado e suas instituições - morreram nela. São visivelmente os "mortos em ação" de uma guerra tornada invisível na retórica oficial que enumera e conta só o que interessa enumerar e contar.
É a guerra do melhor "estudo de caso", com fartas fontes de dados para estatísticas, que a Secretaria Nacional de Segurança Pública e o governo central que ela representa não fez e sequer compilou e divulgou os dados: mortes de policiais. Mas se o governo federal não quer "mexer com isso", certamente quer mexer com a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e com a Olimpíada de 2016. Ora, até mesmo chora quando se assegura de uma delas.
O cangaço e a saga Glauberiana que retratava o "passado do passado", quase 50 anos atrás, talvez pudessem ser reencenados hoje. Ao invés do clássico ser ambientado no nordeste do Brasil, com cangaceiros, milícias, povo e muita morte, seria reencenado na "Cidade Maravilhosa" - só que com traficantes, mas igualmente, milícias, povo e morte, muita morte...
Não demora muito e a categoria policial carioca, até mesmo sob os auspícios do atual governo central, estará sendo responsabilizada pelos acontecimentos do final de semana de 17/18 de outubro de 2009. O narcotráfico estará sendo confundido, mais uma vez, com a exclusão social. Pior, ideologia será confundida com leniência implícita com a delinqüência e o exercício de muita flexibilidade (resultando em muita morte...) em questões de lei e ordem.
Reinaldo Azevedo vem apontar (em "A Chicago dos anos 30 ganhou da Chicago de 2009" - 18 de outubro de 2009) que "O Comitê Olímpico internacional rejeitou a Chicago dos anos 2000. Preferiu a Chicago dos anos 30: o Rio". Ele também entende que os termos da equação das políticas públicas nacionais para a segurança pública "Estão todos fora do lugar ou errados".
É possível realizar com segurança, no Rio de Janeiro, os jogos que lá tiverem de ser sediados durante a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e todas as competições de uma olimpíada inteira em 2016? - Claro que sim. - Da mesma maneira que aconteceu com o PAN/2007 e a Eco/92. Não houve retórica político-ideológica nem em uma nem na outra situação. Houve ação do Estado. Houve ocupação de um espaço ilegalmente tomado do "gado que não pode fazer o que os deuses podem".
O "general" Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Delegado de Polícia Federal Mariano Beltrame tem feito a parte dele. A "tropa de elite" da polícia do Rio de Janeiro (PC e PM) também. Mas os mortos policiais não apontados e levados em conta nos termos da equação oficial de um PRONASCI centrado em "prevenção primária" constituem um grave sintoma de que existe uma "agenda oculta" que impede que tudo isso se resolva, bem antes, e permaneça resolvido, bem depois, de 2014 e 2016.
Isso se o "fogo amigo" cessar sobre as instituições da segurança pública brasileira, quando então será bem provável que cesse também o "fogo inimigo" sobre a própria "segurança do público", aí incluído o povo carioca e de outras unidades federativas.
Infelizmente, por várias razões, o gênio de Glauber Rocha já não está entre nós desde a década de 1980. Mas se estivesse, poderia estar refletindo sobre "Deus e o Diabo na Terra do Sol"... Só que na terra do sol da "Cidade Maravilhosa", da "moça do corpo dourado do sol de Ipanema".
Refletindo sobre neo-cangaceiros, neo-milicianos e um neo-povo, todos eles mais para CNN do que para cordel, mas com o ingrediente da velha e conhecida morte - muita morte. Mortes desnecessárias e evitáveis se os "termos da equação" elaborada pelos "deuses da segurança pública" estivessem em seus devidos lugares. Só eles podem reverter isso. O gado, ou melhor, o povo não pode - Non Licet Bovi.
Prof. Doutor George Felipe de Lima Dantas teclando da capital do país sede da Copa do Mundo de 2014 e dos 31ºs Jogos Olímpicos da Era Moderna - Olimpíada do Rio de Janeiro - 2016.
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