Os governantes, assim como as gravatas, devem possuir etiquetas de griffe para que sejam respeitados pela História.
Podem cometer os mais desastrados governos, assumir os mais caricatos perfis, mas algumas coisas de importância inconteste precisam deixar como marca de sua passagem pelo poder.
Getúlio, sujou o dedão de tinta e marcou sua digital na criação da Petrobrás e da Companhia Siderúrgica Nacional;
Juscelino, imortalizou-se em sigla e, como JK, fez surgir de dois traços em cruz no cerrado uma cidade suave nas formas e portentosa no destino;
Jânio, apesar da meteórica passagem etílica pelo poder, deixou as sementes de uma política externa independente, tão bem conduzida por Afonso Arinos;
João Belchior Marques Goulart, vítima da mais recente escara sofrida pela democracia, presenteou os trabalhadores com o 13º salário;
Castello, coitado, talvez seja lembrado pela criação do BNH e de uma política habitacional moderna;
Costa e Silva, a trindade dos Três Patetas e
Médici, não tiveram gravata nem grife e quando muito portaram o Black Tie do AI- 5;
Geisel, pela vontade imperial do soberano fardado devolveu a idéia de democratizar o país;
Figueiredo, com a inapetência real dos cavalarianos, quase não fez nada, mas assinou a Lei de Anistia;
Sarney. será lembrado pelo Plano Cruzado e pela sábia condução da transição democrática;
Collor, malgré sua triste memória, abriu a economia e modernizou o mercado;
Itamar, entre uma bandeja e outra de pães de queijo, mimoseou o país com o Plano Real;
Fernando Henrique, com duas etiquetas na gravata, sepultou o fantasma da inflação e modernizou o Estado; e
Lula, que até a pouco só usava camiseta, falta escolher o figurino que deixará à História.
Não é justo que Luiz Inácio Lula da Silva passe aos livros escolares como o governante que sepultou a bandeira ética do PT, engolfado entre números do jogo do bicho, bolinhas de bingo, albornal de gorjetas ou espetáculos beneficentes de duplas sertanejas.
Lula já começou na vida do poder com outras histórias para contar. A bravura da resistência sindical no estádio da Vila Euclides prometia um enredo mais nobre depois da passagem pelo 3º andar do Palácio do Planalto.
Lula personificou a esperança no embate contra o medo; acendeu a fé dos despossuidos; iluminou a crença de que o Brasil não poderia ser governado eternamente por uma oligarquia caduca, que arrasta suas mazelas desde o tempo das Capitanias Hereditárias.
Lula já começou maior que sua própria equipe. Apesar de ter uma mãe que nasceu analfabeta (sic), todos os outros brasileiros, que também tiveram uma mãe que além de analfabeta nasceu desdentada, o tem como o grande símbolo da mudança.
Tudo isso ainda é pouco para que Lula deixe sua marca histórica como portador de uma faixa presidencial.
É necessária uma grande obra ou decisão política para que seu nome seja escrito em negrito no verbete dos governantes. A essa altura do campeonato está difícil produzir grandes obras públicas.
Os minguados recursos orçamentários mal permitem o custeio da República.
No campo das majestosas decisões de Estado, o governo Lula passa por maus momentos. As reformas estruturais que o país necessita esbarram em um Congresso fragmentados por grupelhos, que episodicamente compõem maiorias eventuais.
Noblat
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