|
A existência de boa parte da região amazônica em território brasileiro certamente centraliza e intensifica a questão ecológica em nosso país. Padecemos historicamente da falta de políticas públicas claramente estabelecidas para essa região, local que hoje é o foco da atenção do resto do mundo sobre o Brasil.
Uma das conseqüências de tal situação é a nossa permanente vulnerabilidade política, diante de movimentos internacionais de preservação ecológica, "watchdogs" (cães de guarda) sempre prontos a denunciar supostas crises da política conjuntural brasileira com impacto na hiléia, tanto em relação à exploração dos seus recursos naturais, quanto vis-à-vis problemas decorrentes do contato entre 'civilizados' e grupos étnicos nativos.
Temos respondido positivamente, de alguma forma, aos anseios nacionais e internacionais em relação à preservação da amazônia brasileira, mas importantes questões, ainda invisíveis aos olhos da nação, continuam tragicamente negligenciadas.
Se os princípios norteadores das políticas públicas nacionais para a Amazônia devem lidar com a dificuldade do trato de problemas complexos e dinâmicos (e até mesmo pouco conhecidos...) em relação à exploração dos formidáveis recursos naturais da região, não se pode dizer o mesmo em relação aos grupos étnicos lá existentes.
Preservar os 'povos da floresta,' ou promover sua aculturação, representa conceitualmente uma dicotomia bastante conhecida dos brasileiros, com sobejos precedentes históricos. Vale relembrar o enorme desastre ocorrido em tempos coloniais, época que marca o início do desaparecimento de vários grupos nativos após seus primeiros contatos com os colonizadores europeus.
Atualmente sabe-se da vulnerabilidade imunológica dos povos nativos em geral, realidade de conseqüências trágicas ao longo da história, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Uma vez expostas a doenças infecto-contagiosas trazidas ao seu meio ambiente por não-nativos, essas populações estão fadadas ao desaparecimento.
É sabido hoje que o conhecimento de boa parte das riquezas amazônicas está profundamente assimilado na cultura de seus povos nativos, remetendo a questão de sua exploração racional e econômica ao respeito e conservação do patrimônio 'étno-botânico' dos povos da floresta.
Tal conceito associa as riquezas locais ao conhecimento acumulado pelas culturas ancestrais da região, fazendo com que flora, fauna e cultura estejam intimamente ligados nessa relação sinérgica de conhecimento, respeito, uso e conservação.
Mas se a preservação física e tangível dos 'povos da floresta' é uma questão de caráter natural, imunológico e médico, sua preservação 'enquanto cultura' possui um forte componente político, muito mais controlável e ameno à intervenção do Estado.
Preservação cultural, em linguagem leiga, implica dar condições às populações indígenas de seguirem com seu próprio modo de vida, baseado em crenças e costumes milenares de seus ancestrais. Na base de tudo isso estaria a própria 'visão cósmica' desses grupos, seus 'mitos teológicos' inclusive.
É tocante a constatação de que a cosmologia Yanomame (ou Yanomamo) faça com que eles se auto percebam como 'o povo' (tradução da expressão "Yanomame"). Acreditam viver num lugar da Terra que, literalmente, "caiu do céu," de acordo com aquela mesma visão cósmica...
Assim como judeus e cristãos, budistas, islâmicos ou outro grupo religioso qualquer, os indígenas do que hoje é o Brasil possuem suas próprias divindades e as cultuam como vários outros povos...
Estudando o mito teológico de diferentes povos, o renomado antropólogo norte-americano Joseph Campbell [The Hero With a Thousand Faces (1973)] sublinha a importância desse conceito no referencial de diversos grupos, funcionando como um elemento básico de conservação cultural.
É impossível proteger os nativos do Brasil, em sua expressão cultural única e singular, ao mesmo tempo que permitindo a destruição sistemática de seus valores culturais por "missionários profissionais" "novos cruzados" da era moderna.
Sob a alegação de conduzirem programas de 'caridade amazônica,' algumas autoridades ainda permitem que grupos estrangeiros, ou mesmo brasileiros, promovam o endoutrinamento religioso de povos nativos da Amazônia, o que corresponde invariavelmente ao 'desmonte' da identidade cultural de tais etnias.
Em troca de alguns poucos medicamentos da cultura ocidental e eventuais cuidados médicos, bens e serviços que os indígenas brasileiros nunca esperaram ter, se permite que esses 'cruzados da era moderna' terminem por tirar deles tudo que sempre tiveram e esperavam continuar tendo para sempre: sua cultura milenar.
Em seguida, os nativos que logram sobreviver a esse verdadeiro etnocídio, vão juntar-se às hordas de brasileiros urbanos excluídos, passando a ser vitimas das mesmas 'enfermidades sociais' de não-nativos: pobreza, violência e crime, prostituição, alcoolismo, desemprego, etc..
Como nativos, deixam de ter tudo aquilo que sempre tiveram, para serem convertidos numa subclasse de 'civilizados,' senhores de quase nada do que nunca pretenderam ter. A contra-partida disso é uma idéia equivocada de altruísmo e de dever cumprido.
Alguns pseudo-messias pós-modernos, com uma agenda etnocêntrica da Europa e América do Norte (e até mesmo do próprio Brasil!), continuam a reeditar, no Brasil de hoje, o referencial de miséria estabelecido séculos atrás nas Américas, Ásia e África.
É urgente a necessidade de conceber a Amazônia, em suas imensas possibilidades econômicas, como um amálgama de componentes indissociáveis e que inclui, necessariamente, o natural e o cultural: a floresta e o homem.
Professor Doutor George Felipe de Lima Dantas Núcleo de Estudos em Defesa, Segurança e Ordem Pública (NEDOP) Centro Universitário do Distrito Federal (UniDF) (061) 3393-6468 e/ou 9293-9594
|