Não sei se você conhece o Brasilino!? Mas isso não
importa...
Brasilino é um homem qualquer, que mora num apartamento
qualquer, numa cidade qualquer... Situemo-lo em Santos, por
exemplo.
Brasilino, como todo o bom burguês, começa o dia acordando;
sim, porque o operário, este, levanta-se ainda dormindo a fim de
chegar a tempo ao serviço.
Brasilino acorda e aperta o botão da campainha à cabeceira da
cama, campainha essa que soa na copa; porem soa, consumindo
energia energia que é da Light, e, assim, o Brasilino
inicia o seu dia pagando dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas
Brasilino não pensa nisso e começa o seu dia, feliz!
Abre-se a porta. É Marta, a criada, que entra com o café da
manhã: café, leite, pão, manteiga, um pouco de geleia e o
jornal O Estado de São Paulo.
Brasilino, como todo o bom burguês, lê somente a boa imprensa
a chamada sadia.
Enquanto lê as notícias, toma a sua primeira refeição.
Brasilino não sabe que o leite, que bebe, é originário de uma
vaca que foi alimentada com farelo REFINAZIL, da Refinações
de Milho do Brazil (Brasil com Z), que é americana, e que
a farinha com a qual foi feito o pão é originária do Moinho
Santista, que não é santista e sim inglês.
Assim, para tomar o seu café da manhã, Brasilino tem que
pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas, Brasilino nem sabe
disso... e toma o seu café, bem feliz!
Terminado o café, Brasilino acende o seu primeiro cigarro:
Minister, ou Hollywood, um desses da Cia. Souza Cruz,
que não é do Sr. Souza e muito menos do Sr. Cruz, mas, sim, da
British, American Tobacco Co., o trust
anglo-americano do fumo.
E assim, para fumar seu cigarrinho, Brasilino paga dividendos
ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas Brasilino nem pensa nisso e saboreia
seu cigarrinho, feliz... feliz...
Em seguida, Brasilino vai ao quarto de banho, fazer a sua
toilette: acende o aquecedor de gás- gás que é da City e,
portanto, do grupo Light, e, enquanto a água aquece, toma da
escova de dentes, marca TEK, da Johnson &
Johnson do Brasil (que é americana), e da pasta dentifrícia
KOLYNOS, com clorofila, da Whitehall
Laboratories of New York e, assim, para escovar os dentes,
Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIROS...
Mas Brasilino nem pensa nisso...
Brasilino não sabe bem o que é clorofila e está certo de que,
quando entrou na farmácia e escolheu essa pasta, o fez
livremente; ignora que sua vontade foi condicionada pelas
custosas campanhas de promoção de vendas, feitas através da
imprensa, do rádio e da televisão e que, da mesma forma como
ele escolhe sua pasta de dentes, escolhe, também, o seu
candidato à Presidência da República.
Em seguida, Brasilino vai fazer a barba: toma do pincel, feito
com fios de Nylon, da Rhodia que é francesa
enche-o com creme de barbear Williams, que é
americano. Ensaboado o rosto, Brasilino toma seu aparelho Gillette,
munido com lâminas Gillette, ambos da Gillette
Safety Razor do Brazil, e, feliz, vai raspando a face, pois
nem pensa que, para fazer sua barba, tem que pagar dividendos ao
CAPITAL ESTRANGEIRO...
Terminada a barba, Brasilino entra no banheiro, envolvendo o
corpo com a espuma acariciadora de um desses sabonetes, Lever
ou Palmolive, um desses cuja espuma acaricia o corpo
de 9, entre 10 estrelas de Hollywood. E assim, até para tomar
seu banho, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL
ESTRANGEIRO.
Após o banho, Brasilino enxuga-se com uma toalha felpuda da
Fiação da Lapa, que também não é da Lapa porque
é Suíça e, a seguir, passa pelo corpo talco Johnson,
da Johnson & Johnson do Brasil.
E... começa a vestir-se.
Acontece, então, uma tragédia! Cai um botão da camisa do
Brasilino. Ele toca novamente a campainha, e Marta corre a
socorrer o nosso herói, munindo-se de agulha e linha. Dentro de
poucos instantes, ao ver Marta cortar a linha com os dentes,
depois de preso o botão, Brasilino sente-se novamente feliz.
Feliz porque ele não sabe que Marta, a criada, para pregar o
botão, usou a linha marca Corrente da Cia.
Brasileira de Linhas para Coser, que é inglesa e que, até
para pregar um botão, Brasilino tem de pagar dividendos ao
CAPITAL ESTRANGEIRO.
Já vestido, Brasilino despede-se de Marta, avisando que não virá
almoçar nem jantar, pois irá a São Paulo, a negócios...
Sai, bate a porta, toma o elevador, que é Schindler,
da Schindler do Brasil, que é suíça, e movido por
força fornecida pela Light, e chega ao pavimento térreo.
Dá bom dia ao zelador e toma o seu automóvel Volkswagen,
fabricado pela Volkswagen do Brasil, que é alemã,
rodando sobre pneus Firestone, da Firestone do
Brasil que é americana, acionado por gasolina refinada
pela Petrobrás, mas distribuída pela Esso
Standard do Brasil, que é americana.
Até para usar a gasolina, refinada pela Petrobrás, Brasilino
paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO! Ele não sabe que os
brasileiros têm capacidade para refinar o petróleo e produzir a
gasolina, mas não a têm para a difícil tarefa de
distribuí-la e que, para esse serviço a simples
distribuição as companhias distribuidoras (EssoShell
GulfTexaco, etc.) ganham muito mais que a Petrobrás.
Mas Brasilino ignora tudo isso... e Brasilino é feliz!
Pouco depois, Brasilino encontra-se na Via Anchieta, dirigindo-se
a São Paulo. Ao passar por Cubatão e ao ver a Refinaria
Presidente Bernardes, põe-se a pensar: Porcaria essa
Petrobrás! agora que a gasolina é nacional, custa cinco vezes
mais. Sim, porque Brasilino não reflete que a
gasolina custa, agora, muito mais, por um motivo muito simples:
ao tempo em que a gasolina era importada, o dólar custava Cr$
18,72 e, atualmente, para a importação de óleo bruto, custa
Cr$ 200,00.
Não sabe, também, que o dólar está caro porque é
escasso, e é escasso devido à procura, e a procura é muito
grande, porque os dólares obtidos com a exportação brasileira,
mal dão para fazer face às remessas de royalties e dividendos
do CAPITAL ESTRANGEIRO.
A irritação do nosso herói, contudo, logo desaparece, pois a
algumas centenas de metros à frente, Brasilino vê surgirem os
dutos da Light e uma grande tabuleta com os seguintes dizeres:
LIGHT AND POWER, a maior usina hidrelétrica da América do Sul
1.200.000 KW.
Aí, Brasilino exulta e monologa com entusiasmo
Isto sim! A Light! A Light! A Light que fez a grandeza de São
Paulo. Sim, porque Brasilino confunde Light com Energia.
Ele não sabe que o que fez a grandeza de São Paulo não foi a
Cia. Light e sim a Energia e que, se a Energia não pertencesse
à Light, São Paulo seria dez vezes maior, ou o Brasil dez vezes
menos miserável.
O interessante é que Brasilino nunca perguntou, a si mesmo, que
seria da Inglaterra se não existissem as Lights pelo mundo.
Brasilino prossegue a viagem e, logo mais, atinge o altiplano,
onde vê descortinar-se o panorama grandioso do progresso
industrial, que ele julga ser do Brasil: Volkswagen do
Brasil Mercedes Benz do Brasil
Willys Overland do Brasil General Motors
do Brasil Rolls Royce do Brasil
Cia. Brasileira de Peças de Automóveis
Simca do Brasil Plásticos do Brasil
e inúmeras outras do Brasil e brasileiras,
mas todas elas ESTRANGEIRAS.
Brasilino, afinal, chega a São Paulo. Estaciona o seu carro em
uma das ruas do centro e, a pé, alcança a Rua Líbero Badaró,
para concluir um negócio. Brasilino recorda-se de que Líbero
Badaró foi um homem que, ao ser assassinado, exclamou: Morre
um liberal, mas não morre a Liberdade!
E Brasilino conclui: Que sujeito burro! Que interessa a
Liberdade para um homem que já morreu!?
Enquanto assim pensa, Brasilino chega aos escritórios da Crescinco,
Cia. de Investimentos, pertencente ao Sr. Rockefeller.
Brasilino sente-se orgulhoso de emprestar o seu dinheiro a um dos
homens mais ricos do mundo, mas que, para financiar as suas indústrias,
prefere usar o dinheiro dos próprios brasileiros, atraindo-os
com a vantagem de juros de 2% ao mês e livre de imposto de
renda.
Brasilino não sabe que, entre o dia em que ele entregou o
dinheiro e o dia em que esse mesmo dinheiro lhe foi devolvido, a
desvalorização da moeda foi de 4% ao mês e assim , ele está
menos rico, pois esse juro e mais os lucros da Cia. Investidora
terão, forçosamente, de ser acrescentados ao custo das
utilidades, saindo, consequentemente, da própria pele do
Brasilino.
Mas Brasilino não sabe disso e recebe o seu dinheiro e os
juros, feliz!
Liquidado o negócio, Brasilino vai almoçar. Entra num
restaurante onde lhe é servido, como antepasto: frios da Armour
do Brasil, que é americana, Margarina Clay-Bon,
de Anderson Clayton que é americana, toma uma Coca-Cola
e saboreia um prato de massa, preparado com farinha do Moinho
Paulista, que é inglês, e, depois, come um filé com
fritas, cuja carne foi fornecida pelo Frigorífico Wilson
e as batatas foram fritas com óleo Mazola, da Refinações
de Milho Brazil (Brazil com Z).
Como sobremesa, comeu um pudim feito com Maizena Duryea
também da Refinações de Milho Brazil e, assim, até
para comer, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL
ESTRANGEIRO.
Após o almoço, Brasilino passeia pela cidade, a fim de fazer
hora para o cinema, gastando a sola do sapato com saltos de
borracha Good Year, pagando, até para andar,
dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Brasilino entra no Cine Metro, onde passa a tarde, deliciando-se
com um filme, que é americano e, para passar algumas horas
distraídas, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Ao sair do Cinema, Brasilino sente uma leve indisposição; entra
numa farmácia e toma um Alka-Seltzer. E, assim, até
para prevenir uma indigestão, Brasilino precisa pagar dividendos
ao CAPITAL ESTRANGEIRO.
Toma novamente o seu carro e volta para Santos. Chegando à casa,
faz novamente a sua toilette, liga o rádio de cabeceira, marca
G.E. da General Electric do Brasil, e
deita-se sobre um colchão de espuma de borracha Foamex
da Firestone do Brasil e repousa a cabeça, sobre um
travesseiro do mesmo material, dormindo, feliz, o sono da inocência.
Não sei porque, mas a história do Brasilino traz sempre, à
mente, aquelas magníficas palavras do Sermão da Montanha:
Bem-aventurados os pobres de espírito porque será deles o
reino dos céus.
Mas uma coisa jamais será do Brasilino: O REINO EM SUA PRÓPRIA
TERRA.
Por isso, leitor, se alguém lhe disser que não existe
imperialismo econômico, no Brasil, é porque está ENGANADO, ou
porque ESTÁ ENGANANDO VOCÊ.
Santos, Outono de 1961
cultura brasil
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