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Em plena terça-feira, dia comum, é praticamente impossível caminhar pela 25 de Março e ruas vizinhas. São os transeuntes que atropelam os carros, e não o contrário, tamanha a quantidade de gente. Os camelôs disputam para ver quem berra mais alto e os lojistas colocam seus funcionários nas ruas para atrair gente.
Há lixo por todos os lados. A polícia chega. Corre-corre danado. Na dúvida, alguns clientes também correm. Quem já está acostumado, nem se abala e segue comprando. Esse é um dia tranqüilo na 25 de Março.
E mesmo parecendo um cenário não muito convidativo, a região foi eleita a terceira maravilha paulistana, atrás apenas do Parque do Ibirapuera e da avenida Paulista. A eleição foi feita pela Rádio BandNews FM em parceria com o site UOL.
O honroso terceiro lugar na votação se justifica. Embora seja quase uma aventura comprar ali, a região da 25 é um marco para a cidade e para o país. As principais atrações são a incrível variedade de produtos e a elasticidade dos preços. Quem vai à 25 compra de fantasia a eletrônico, de lingerie a brinquedo. Quase um terço do comércio é de bijuterias e seus insumos.
E tudo isso com preços até 50% mais em conta que em outras regiões e shoppings. "Eu venho aqui pelo menos duas vezes por mês", diz Maria Vanderly de Freitas, de 40 anos. Organizadora oficial dos aniversários da família, é lá que ela compra artigos de festa. "Venho sozinha, olho tudo, pesquiso e levo algumas coisas. Depois volto de carro com o meu marido para levar tudo", diz ela.
A 25, na verdade, é muito mais que uma rua. São 21. É um complexo de vias por onde antes passavam as águas do rio Tamanduateí. A ladeira Porto Geral leva esse nome porque de fato havia um porto. O cenário já era propício para o comércio, já que as mercadorias subiam e desciam pelas águas do rio.
Isso nos idos de 1850. Hoje, o que há ali é um rio de gente: 400 mil pessoas num dia tranqüilo. É como se quase toda a população de Sorocaba passasse na região diariamente. E chega a mais de um milhão nas vésperas do Dia das Mães, Natal e outras datas comerciais.
Os árabes
Nos tempos em que nem a cidade de São Paulo tinha uma população de 400 mil pessoas, quem começava a chegar e se instalar na área eram os imigrantes árabes. A comunidade sírio-libanesa com sua natural vocação para o comércio deu origem às primeiras lojas. Eram armazéns, armarinhos e o que mais houvesse demanda.
No começo do século XX, algumas famílias deram início a negócios que existem até hoje, como a Casa da Bóia, na Florêncio de Abreu, inaugurada pelo sírio Rizkallah Jorge Tahan, que começou seus negócios em 1909. A rua era um reduto da comunidade. Hoje é conhecida como a "rua das ferramentas".
Outra família que fez história na região foi a Chohfi, cujo patriarca, o também sírio Ragueb Chohfi criou a Companhia Têxtil Ragueb Chofhi. Hoje, calcula-se que uns 30% da região ainda seja de lojistas de origem árabe. "Muitos deixaram de ser lojistas e ficaram apenas como donos de imóveis", diz Miguel Giorgi Júnior, presidente da Univinco, União dos Lojistas da 25 de Março e adjacências. A colônia árabe brasileira é a maior do mundo: estima-se que 7% da população do país seja árabe. A maior parte está concentrada em São Paulo.
Presente e futuro
Nas 21 ruas da região, existem mais de três mil empreendimentos, entre empresas, lojas e serviços. A cada ano, elas geram um faturamento de R$ 16 bilhões. Segundo a Univinco, da multidão que passa por ali a cada mês, 58% são de classe A e B, contrariando a idéia de que a região só atrai camadas mais populares - 35% é da classe C e 9%, classe D.
Em uma pesquisa encomendada pela entidade sobre o comportamento dos clientes, os lojistas descobriram, por exemplo, que 79% dos compradores vão ali para fazer compras próprias e que o ônibus é a principal forma de acesso à região. Souberam também que 27% das pessoas vão ali comprar bijuterias prontas e 22% querem brinquedo. Sobre as vantagens da rua, a grande maioria cita os preços econômicos e a variedade de produtos. Sobre as desvantagens, a aglomeração de gente e falta de segurança foram as mais citadas.
Pela segurança, diz Miguel Giorgi, só cabe à Univinco cobrar o poder público. A Polícia Militar marca presença na região junto à Guarda Civil Metropolitana. No entanto, uma iniciativa da entidade acabou ajudando com a questão. Há pouco mais de um mês, quatro câmeras foram instaladas nos pontos mais movimentados da região. O projeto prevê mais doze delas.
O projeto, intitulado BBB25, tem um viés mais institucional, para promover a região, já que qualquer pessoa pode ficar assistindo ao vai e vem dos transeuntes pelo site www.bbb25.com.br. "Mas acaba ajudando na segurança também, claro, já que coíbe a ação de muitos ladrões", diz Miguel, que explica que BBB significa "Bom, Bonito e Barato na 25".
Entusiasmado com a possibilidade de fazer da 25 uma maravilha ainda mais digna da alcunha, Giorgi tem muitos planos para a região como presidente da entidade. O primeiro deles, um projeto antigo da Univinco, está saindo do papel nesse momento.
É o "cartão 25", um cartão de crédito de fidelização para os clientes. "Com ele, pela primeira vez na história da 25, as pessoas poderão dividir suas compras em até seis vezes sem juros", afirma Giorgi. Até agora, 300 lojas já estão cadastradas no projeto do cartão, que será feito sem qualquer custo.
Outra novidade é que a 25 entrou na "onda dos desfiles" e promoveu, em agosto, o Bijoux Fashion, focado, como o nome diz, nas bijuterias. A 25 também quer ser verde. Segundo Giorgi, há projetos de reciclagem para dar um fim correto ao (volumoso) lixo da região e de plantios de árvores em uma rotatória entre as ruas Barão Duprat, Cantareira e Cavalheiro Basílio Jafet.
Além disso, a Univinco deve lançar em breve as "sacolas retornáveis" de pano para evitar que os lojistas usem e abusem das sacolas de plásticos. "Vamos fazer bem baratinho, para incentivar o uso entre os clientes", diz ele.
Por fim, Giorgi acredita que o nome "25 de março" - uma homenagem à data em que D. Pedro I promulgou a primeira constituição brasileira, em 1824 - já é tão forte que está prestes a virar uma grife. "Podemos abrir, em outras partes do Brasil, novos centros comerciais com o nome '25 de março'", acredita. Como se vê, vida de maravilha é assim mesmo. É preciso honrar o título.
Três lugares, uma só rota
Não é só a 25 de Março que atrai multidões por causa dos preços baixos. O Bom Retiro e o Brás, paraísos das confecções, também. Juntos, esses três pólos comerciais da capital paulista atraem mais de 650 mil pessoas por dia. São mais de dez mil lojas e um faturamento anual, conjunto, de R$ 50 bilhões. Unidas, as três regiões formam o maior centro de compras do Brasil.
O que as entidades de cada região querem agora, é uni-las de fato. Hoje, o comprador que vai até a 25 de março, precisa se desdobrar pelo caótico transporte público de São Paulo para ir até o Brás. Ou acaba pegando um táxi.
Para facilitar a vida dos clientes, sobretudo dos que vêm de fora de São Paulo, as três regiões estão solicitando aos governos estadual e municipal, algumas medidas que ajudem a melhorar a logística entre elas. "Queremos uma infra-estrutura mínima para que as três regiões fiquem interligadas", explica Miguel Giorgi Júnior, presidente da União dos Lojistas da 25 de Março e Adjacências, a Univinco.
"Como os clientes que vêm até aqui no Bom Retiro são os mesmos que vão até a 25 e o Brás, ficaria muito mais simples se houvesse um transporte integrado", complementa Kelly Cristina Lopes, secretária executiva da Câmara dos Dirigentes Lojistas do Bom Retiro (CDL Bom Retiro).
Segundo Miguel e Kelly, a idéia é que se crie um enorme estacionamento em um ponto da cidade, próximo aos pólos comerciais, e que dali saiam vans que circulem entre os pontos. Atualmente, os três pólos recebem cerca de 400 ônibus por dia. Na véspera do Natal, chega a 800.
"E só o Brás tem estrutura para receber esses veículos", diz Kelly. A Univinco e a CDL se juntaram à AloBrás (Associação dos Lojistas do Brás) para pleitear um sistema de transportes especial para as regiões - o que também ajudaria a reduzir o fluxo de carros nessas vias, que já estão em seus limites.
A interligação feita por vans tem ainda uma segunda utilidade: ajudaria a incrementar o turismo em São Paulo. Isso porque as pessoas que vêm à cidade apenas para comprar poderiam se organizar melhor e ficar mais tempo na capital. "Hoje, muitos vêm de madrugada e voltam para suas cidades no começo da tarde", explica Kelly.
Segundo Giorgi, da Univinco, as três entidades querem fazer parcerias com agências de turismo, hotéis, teatros e cinemas para que os compradores cheguem à cidade no fim de semana e aproveitem o lado cultural que a metrópole oferece. O projeto, segundo Kelly, vai ao encontro dos planos que a São Paulo Turismo tem para a região.
Segurança e ambulantes
Além do projeto das vans e do incentivo ao turismo, o trio de entidades também clama por mais segurança nas três áreas, que devido às aglomerações, é um ambiente propício para furtos e roubos. Por fim, conta Kelly, os lojistas cobram mais iniciativa da prefeitura no que diz respeito à fiscalização contra os ambulantes, que tomam as calçadas e tornam as regiões ainda mais intransitáveis.
"Queremos o mesmo que já está acontecendo no Brás: fiscalização ostensiva, para que fiquem apenas os permissionários, ambulantes cadastrados pela prefeitura", explica. "O problema é que não adianta nada fiscalizar em apenas um dos três pólos porque eles migram para cá, Bom Retiro, ou para a 25. Tem que ser nos três ao mesmo tempo".
As três entidades se reuniram com o secretário de Desenvolvimento do estado, Alberto Goldman, em agosto, para quem entregaram um documento com todas as reivindicações. Para o presidente da Univinco, Giorgi, boa parte desse projeto de integração já estará funcionando até o primeiro semestre de 2008.
De repente, o oásis
Quarta-feira de manhã. A rua já está lotada. Em um prédio da Cavalheiro Basílio Jafet, umas dez pessoas estão completamente alheias ao vaivém da multidão da região da 25 de Março. O pequeno, e fiel, grupo acompanha as palavras finais da missa proferida pelo monsenhor Dimitrios.
A cena se passa na Paróquia Ortodoxa Antioquina da Anunciação à Nossa Senhora, fundada em 1902 pela colônia síria-libanesa (mais síria que libanesa) que se instalava na região. Em 1904, o sino foi colocado. E em 1905, veio a inauguração oficial.
Em março deste ano (no dia 25), a igreja foi reinaugurada após uma reforma estrutural. Mas, segundo o Monsenhor Dimitrios, a igreja ainda necessita de outros tratos, como a restauração das imagens tipicamente ortodoxas feitas em placas de ferro. Elas foram doadas nas primeiras décadas do século XX pelas famílias que ajudaram a levantar a igreja (Jafet, Yasbek, entre outros pioneiros).
"A colônia sírio-libanesa trouxe a igreja ortodoxa para o Brasil, pois foram esses imigrantes os primeiros ortodoxos que vieram para cá", explica Dimitrios, que é filho de libaneses. O monsenhor explica que a missa foi transferida para quarta-feira porque aos domingos a região fica completamente abandonada.
Anba - www.anba.com.br
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