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São Che, o frio assassino que virou santo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Janer Cristaldo   
Monday, 22 October 2007

Che Guevara Na manhã do dia 09 de outubro de 1967, eu caminhava pela Rua da Praia em Porto Alegre, quando um advogado um tanto alucinado me abordou: "É ele. Não há dúvidas. Viste os olhos?" Sem me dar tempo de falar, o amalucado seguiu em frente. Eu não havia visto olhos alguns, aliás não havia visto nada.

Só entendi o que o angustiado rábula dizia quando vi as manchetes dos jornais. Che Guevara havia sido morto no dia anterior. De lá para cá, foram décadas de culto. A foto feita por Korda, que o assimilava a Cristo, foi certamente o ícone mais cultuado nestas últimas décadas.

Em um passe de mágica, por obra de um fotógrafo, o celerado virou santo. E não falo por metáforas. Morto em odor de santidade, o guerrilheiro foi cultuado na Bolívia, como San Ernesto de la Higuera.

Em 18/06/99, escrevi:

"Se este foi o século do comunismo, pelas mesmas razões foi o século do culto aos fracassados. Particularmente nesta América Latina, onde a figura do herói coincide com a dos derrotados pela História. Você quer um manual do fracasso? Leia qualquer uma das dezenas de biografias de Che Guevara.

"Fracassou em todos os países onde lutou. Só venceu uma batalha: a da instauração em Cuba da mais longa ditadura do continente e do mundo contemporâneo. Teve sorte: morreu em odor de santidade. E até hoje sua efígie - xerox contemporâneo de um Cristo armado - permanece como bandeira e cartilha do subdesenvolvimento".

Leio na edição desta semana de Veja: "exceto na revolução cubana, sua vida foi uma seqüência de fracassos. Como guerrilheiro, foi derrotado no Congo e na Bolívia". Foi necessário transcorrer quatro décadas após a morte de Che, para que um órgão da grande imprensa brasileira titulasse em sua capa:

CHE, A FARSA DO HERÓI

Melhor que nada. Há dez anos, jornal algum no Brasil ousaria assim tratar o santo. Guevara era o mártir da libertação da América Latina e de todos os oprimidos do mundo. No fundo, não passava de um assassino de gatilho fácil. Que iludiu inclusive críticos ferrenhos do marxismo. Entre eles, Ernesto Sábato.

Em novembro de 1967, em discurso proferido na Universidade de Paris, Sábato via no guerrilheiro o homem que encontrou a morte combatendo não somente pela elevação do nível de vida dos povos miseráveis, mas também por um ideal mais valioso, pelo ideal de um Homem Novo:

"Assim acabou a vida do comandante Guevara. Indefeso, após sofrer horas intermináveis com muitas balas em seu corpo enfermo, sem médico, com a asma que agravava de modo insuportável sua dor. Houve um latino-americano suficientemente covarde para aproximar-se daquele corpo dorido, com a suficiente coragem para sacar o revólver diante de seus olhos, dirigi-lo ao coração e disparar esse balaço miseravelmente histórico.

"Jamais saberemos o que disse Ernesto Guevara nesses momentos, mas podemos imaginar que seu olhar foi muito triste. Não por sua esperada morte, mas pelo fato de ter-lhe sido dada de tal forma e por um boliviano. Não por um ranger dos Estados Unidos, mas por alguém que de certa forma era seu próprio irmão".

Mais tarde, em Abadón, o Exterminador, o escritor argentino faz a hagiologia de seu conterrâneo, desenvolvendo a saga do Che, através do personagem Palito, suposto companheiro de armas do guerrilheiro. Sábato mescla história e ficção. Boa parte de seu relato está baseado no diário de campanha de Inti Peredo. Em carta de despedida a Fidel, diz Guevara:

"Outras terras do mundo reclamam o concurso de meus modestos esforços. Posso fazer o que te está negado por tua responsabilidade à frente de Cuba e chegou a hora de separarmo-nos. Deixo aqui o mais puro de minhas esperanças de construtor e o mais querido entre meus seres queridos. Libero Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que emana de seu exemplo. Se a hora definitiva me chegar sob outros céus, meu último pensamento será para ti, Fidel".

Comovente. Pelo menos para quem desconhece História. Abadon traz ainda a transcrição de um outro trecho de carta, esta endereçada a seus pais, que evidencia o caráter romântico e quixotesco do empreendimento do guerrilheiro:

"Queridos velhos: sinto outra vez sob meus talões o costilhar do Rocinante, volto à estrada com minha adarga no braço. Há coisa de dez anos, escrevi-lhes outra carta de despedida. Segundo recordo, lamentava-me de não ser melhor soldado e melhor médico. O segundo já não interessa, médico não sou dos piores... Pode ser que esta seja a definitiva. Não a busco, mas está dentro do cálculo lógico.

"Se é assim, vai um último abraço. Sempre os quis muito, só que não soube expressar meu carinho. Sou extremamente rígido em minhas ações e creio que às vezes não me entenderam. Por outro lado, não era fácil entender-me. Creiam-me, pelo menos hoje".

A evocação de Palito, no romance de Sábato, mostra um homem que acredita mais no moral e na disciplina que no poder das armas. Um guerrilheiro deve manter a decisão de combater seus ideais até a morte. Esta disciplina não é a dos quartéis, mas a de "homens que sabem pelo que lutam e que sabem que isso é grande e justo". À noite, segundo o relato de Palito, Che dava um curso de francês:

"Não é uma questão de dar tiros, dizia, só de dar tiros. Algum dia vocês terão de ser dirigentes, se triunfarmos nesta guerrilha. O dirigente, dizia, tem de ter não só coragem, tem que se desenvolver ideologicamente, tem de ser capaz de análises rápidas e de decisões justas, tem de ser capaz de fidelidade e disciplina. Mas, principalmente, dizia, tem de constituir o exemplo de homem que queremos em uma sociedade justa".

Palito confessa não compreender muito bem o que Che queria dizer "homem novo". Deduzia que deveria ser mais ou menos como o Che: "com espírito de sacrifício pelos outros, com coragem e ao mesmo com compaixão e..." O companheiro de armas de Guevara hesita. Mas acaba fazendo uma descrição quase evangélica do Che:

"Dizia que não se podia lutar por um mundo melhor sem isso, sem amor pelo homem e que isso era uma causa sagrada, não uma simples questão de palavras, que a cada dia, a cada hora, tinha-se de prová-lo. Muitas vezes o vimos tratar sem rancor soldados que pouco antes haviam atirado para matar, como curava suas feridas, mesmo gastando os medicamentos que para nós eram escassos".

Em suma, um santo. Hoje, sabemos que era um assassino frio. Sábato, ex-comunista que denunciou com vigor o comunismo e o stalinismo, tinha profunda admiração pelo assassino... comunista. Chegou inclusive a trocar afável correspondência com Guevara. Em entrevista que me concedeu em sua casa em Santos Lugares, disse Sábato:

"Devo esclarecer, no entanto, algo que para mim é importante: sempre respeitei os comunistas que, por sua candidez ou sólida fé acreditaram no regime soviético, os que sofreram prisão e torturas, os que lutaram com boa fé por seus ideais.

"Por isso - fato que enalteci em dois de meus livros - admiro e continuo admirando Che Guevara, que foi acima de tudo e de seu marxismo, um grande idealista, um personagem quixotesco que, como diria Rilke, teve sua morte pessoal na selva boliviana, após ter abandonado a burocracia cubana. Um herói, e sempre temos de nos erguermos ante um herói que morre por ideais."

Esta imagem difundida por Sábato difere um pouco do guerrilheiro que, em janeiro de 1957, escrevia à sua mulher: "Estou na selva cubana, vivo e sedento de sangue". Também difere do homem que, em 11 de dezembro de 1964, disse na assembléia-geral da ONU: "Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte".

Em maio de 1967, na revista cubana Tricontinental, Che escrevia: "O ódio intransigente ao inimigo converte o combatente em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim".

Se o celerado argentino conseguiu enganar um escritor lúcido, não é de espantar que tenha enganado gerações e gerações de basbaques durante décadas. E ainda continuará enganando.

O frio assassino não enganou apenas Sábato, mas o século todo. Foi preciso que o Muro fosse derrubado, que a União Soviética desmoronasse, que o socialismo fosse desmoralizado internacionalmente como regime, foi preciso que ainda decorressem quase duas décadas mais para que jornalistas e escritores ruminassem a idéia do fracasso rotundo do marxismo, para que Veja produzisse a capa desta semana.

Antes tarde do que nunca. A impressão que fica é que, quarenta anos após sua morte, Che acaba de morrer de novo. Pelo menos para os desavisados.

Janer Cristaldo Janer Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor. Vive em São Paulo. Site do autor: http://cristaldo.blogspot.com/. E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (6)Add Comment
Mais um chamando-o de assassino
escrito por Samuka, 2008-02-19 02:27:08
De fato nao concordo com a mistificaçao em torno de Che. Porém ele foi homem ao lutar por seus ideais, de dar sua vida sem hesitar por algo que achava certo. Realmente é um exemplo a ser seguido sr Janer Cristaldo. Sim no processo pessoas foram mortas, porém em todo o processo de evoluçao do capitalismo moderno, houveram muito mais mortes e digo mais, de pessoas inocentes!
Tambem digo aqui que o povo brasileiro esta muito abaixo deste revolucionario, pois com tamanhos escândalos não se dão ao luxo de protestar. Não foi visto nenhum manifesto anti corrupçao, nenhuma insurgencia...Ora se querem desmantelar o mito, nao farei objeçoes, mas se querem sujar a imagem de um homem que lutou por seus ideias...irei prostrar diante de tais infamias!
Viva à Revolução!!!
reproduzindo a Revista Veja...ahhhhh de novo!!!
escrito por Danielle, 2008-03-13 19:44:33
Meu caro amigo, se baseando na revista Veja, não é de me espantar que você tenha analisado o Che Guevara desta forma e a Revolução Cubana, infelizmente, todos aqueles que são contestadores do sistema capitalista, quase ou nunca venceram em nenhuma batalha, você sabe disso, não é??!?!!? Por isso, caro jornalista ao analisar os discursos do che, gostaria que o senhor fosse na fonte original, não no comentarista do comentarista que já tem seus pré-conceitos, pré-juízos bem formados,ok!! Ah se quiser posso até repassar discursos dele!!!rsrs
No país da Distorção...
escrito por bebeto_maya, 2008-04-22 20:27:40
Bom. Detesto o Che...Mas quando o estudo é pouco sobram argumentos mal estruturados entrelaçados por palavras bonitas...Percebi que essa é a retória do Sr.Janer: Soltar bombas e ver no que dá. Ele fez o mesmo com Olavo de Carvalho, ao afirmar que ele tem problemas psicológicos por "condenar" homossexuais. Detalhe, o leitor mais atento perceberá, a primeira leitura, que Olavo considera os homossexuais pessoas normais e dignas. Distorção: Como é "massa"!
Tem que ser muito imbecil
escrito por Fábio André P. Silva, 2008-09-06 22:25:15
Meu caro Janer,
Graças a Deus temos jornalistas, escritores e tradutores sérios neste Brasil, onde honestamente você não faz parte. É inadmissível que uma pessoa que se diz jornalista, escritor e tradutor, escrever tantas asneiras baseadas numa revistinha de terceira classe, vagabunda e sem o menor prestígio como é a revista "Veja". Não é apenas um curso universitário que forma um profissional. Não é escrevendo tolices que se faz um escritor. Tenho minhas dúvidas quanto as suas traduções. Porque se suas traduções seguirem o mesmo padrão das suas interpretações infundadas e sem uma pesquisa séria e de fundo, em documentação original, na fonte, não aconselho ninguém a ler nada que você escreve ou traduz. Porque desta forma você não é um jornalista. Está mais para um piolho que anda pela cabeça dos outros. Pois meu querido Janer, sei que esta matéria foi escrita já faz um bom tempo, mas não pude evitar de deixar o meu recado de tão absurdo que são os seus comentários. Acho sinceramente que você deveria mudar de profissão. Pois não leva o menor jeito para esta área. Só para o seu conhecimento assista o filme: "Che - Doce Guerrilheiro", de Steven Soderbergh, interpretado por Benício Del Toro, e que foi lançado recentemente em Madri, na Espanha. Filme este feito em cima de uma pesquisa séria, por pessoas competentes. Não é um comentáriozinho qualquer feito baseado em cima de uma revistinha vagabunda como a Veja.
Comentários ao filme do Che
escrito por Fábio André P. Silva, 2008-09-06 22:52:09
Em tempo.
http://www.cinemacomrapadura.c...rgentino/

O novo projeto de Steven Soderbergh (”Traffic“), CHE, enfrentou alguns problemas. Mesmo com os comentários de que a atuação de Benicio Del Toro (”Coisas Que Perdemos Pelo Caminho“) valeria uma indicação e possível vitória do ator no Oscar pela sua interpretação de Ernesto “Che” Guevara, o filme demorou para conseguir distribuição no mercado americano. Até que a Focus Features comprou os direitos e decidiu distribuir a jornada do argentino.
Sobre o orçamento dilatado do projeto, com os dois filmes que o compõem tendo custado, ao todo, US$ 65 milhões, nenhuma distribuidora queria pegar o projeto. Vários fatores explicavam tal relutância. Além de se tratar, basicamente, de um único filme de quatro horas de duração e quase totalmente falado em espanhol, a controversa figura de Che Guevara assusta boa parte das companhias. Por isso decidiram dividir em 2 partes, sendo a primeira o “The Argentine“. O lançamento está previsto para o fim do ano.
“Che” é uma ambiciosa obra que cobrirá os períodos mais turbulentos da vida do revolucionário. THE ARGENTINE retratará o período em que Cuba sofreu a tomada de poder feita por Guevara ao lado de Fidel Castro (Demián Bichir, de “Sem Notícias de Deus“). Já GUERRILHA mostrará os feitos e ideais do socialista entre os anos de 1964 e 1967.
O elenco da produção conta ainda com Franka Potente (”A Identidade Bourne“), Santiago Cabrera (da série de TV “Heroes“) e Rodrigo Santoro (”Cinturão Vermelho“).
Esquerdinha é mesmo de doer...
escrito por Giorgio, 2008-10-30 20:23:34
Na falta de argumentos para rebater o jornalista, partem para os ataques pessoais, à pessoa dele, à revista Veja... e nada de apontar PROVAS sobre o maior fracassado do século XX: Che Guevara, assassino que nem Fidel queria po perto. Tão higiênico que seu apelido era "El Chanco" (o porco). Tá passando da hora de as universidades brasileiras expulsarem os esquerdopatadas... mandem-nos para CUBA!

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