| Estado precisa voltar a ser fiador do bem comum |
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| Escrito por Demétrio Valentini | |
| Sunday, 21 October 2007 | |
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A escolha não foi aleatória. Houve a evidente intenção de vincular a Cáritas com a região amazônica. Como organismo de ação social da Igreja Católica, a Cáritas sempre procura estar em sintonia com as preocupações da própria Igreja. Neste momento estamos assistindo a uma emergência da Amazônia, dada sua importância no contexto das preocupações como o aquecimento global e outros sintomas do desequilíbrio ambiental que parecem se aproximar da irreversibilidade. No contexto da Amazônia, era normal que estas preocupações fossem apresentadas com a urgência que demandam. Com os alertas sempre mais claros que a natureza emite, vai crescendo a convicção de que é necessário, enquanto é tempo, mudar de hábitos e sintonizar mais com a dinâmica da natureza, para que a vida em nosso planeta não fique inexoravelmente comprometida. Mas, não foram só estas as reflexões da assembléia, feitas para iluminar o programa da Cáritas para os próximos quatro anos. Outro ponto que mereceu atenção foi o crescente engajamento da Cáritas em parcerias com o Estado para a execução de programas governamentais de políticas públicas. Não é o caso aqui de detalhar os termos dessas parcerias, que já são diversas, estabelecidas a nível governamental, de ordem federal, estadual e ou municipal. Uma conclusão já foi tirada pela Cáritas: ela está disposta a colaborar na implantação de políticas públicas, contanto que não perca sua identidade, nem se reduza a mera executora de programas governamentais. Esta situação enseja o retorno a algumas ponderações que me parecem não só válidas, mas urgentes. Assim como é forçoso modificar nossa postura diante da natureza, pois as conseqüências comparecem com sempre maior evidência, assim existem certos comportamentos econômicos e políticos que emitem sinais de alerta, que custamos a aceitar, mas que também são percebidos como graves e urgentes. Se não mudarmos nossa postura diante da natureza, aceleramos o passo em direção ao impasse planetário. Se não alteramos certos procedimentos políticos e econômicos, caminhamos rapidamente para impasses que podem se tornar irreversíveis. Na análise da realidade, um dos dados que mais chamou a atenção foi o enorme volume de capital público que na América Latina, nos últimos anos, passou para as mãos de particulares. Isto já foi feito, à surdina, sem que as decisões tivessem sido refletidas e debatidas publicamente, e colocadas sob decisão democrática. Em grande parte, a economia de nossos países já não é comandada pelo Estado, está nas mãos de empresas particulares, cujo único móvel a conduzir o seu processo é a obtenção do maior lucro possível. Assim, se estabelece uma íntima correlação entre depredação da natureza com a exasperação do capitalismo. Neste cenário, está clara a crise ambiental. Falta perceber sua vinculação com o sistema econômico vigente hoje no mundo. Deixado à sua dinâmica, ele leva a um processo suicida, que precisa ser interrompido em tempo Se levada a sério, a crise ambiental pode se constituir na grande oportunidade de mudanças de rumo, que leve a um novo relacionamento da humanidade com a natureza que lhe possibilita sua existência. Esta mudança de rumo precisa se nutrir primeiro de valores éticos, que sirvam de parâmetro imprescindível para a conduta humana. Esses valores precisam ser urgidos por um sistema político que recupere a capacidade de construir consensos democráticos dotados de força política para a sua implementação. As privatizações, feitas com o objetivo de dinamizar uma economia conduzida pelo lucro, se tornaram em armadilha para a aceleração da crise ambiental. O Estado precisa recuperar sua função de condutor do interesse público, e de fiador do bem comum. A natureza vai agradecer.
Foi Presidente da Cáritas Brasileira, e membro do Depto. de Pastoral Social do CELAM (1991-99). É membro da Comissão Permanente do Sínodo Especial da América, onde foi eleito membro permanente (1997). Você pode se comunicar com ele pelo email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso . Sua página na Internet: http://www.diocesedejales.org.br/.
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Nesta semana a Cáritas Brasileira realizou sua Décima Sexta Assembléia Nacional. O local escolhido foi Belém do Pará, mais precisamente a cidade de Castanhal, na região metropolitana desse estado.
Dom Luiz Demétrio Valentini, é bispo Diocesano de Jales/SP. Natural de São Valentim, Rio Grande do Sul. Foi membro da Comissão Episcopal de Pastoral da Conferência Nacional de Bispos Brasileiros (CNBB), responsável pelo Setor Pastoral Social.

