|
Houve um tempo nem tão distante assim
em que a polícia do Rio de Janeiro não dependia de cinegrafista
amador para identificar criminosos, nem para saber o que ia pela
cidade.
Olhava as ruas do alto, com câmeras de precisão, empregava
seis homens para patrulhar 70 quilômetros quadrados por hora e
botava o grosso do dinheiro em inteligência.
Mas esse serviço, a governadora Garotinho dispensou, segundo
ela, por caro. Em seu lugar contratou helicópteros que nunca saíram
do chão, comprou centenas de viaturas que custaram até 30% mais
que as da polícia paulista, entregou zero à inteligência e
destinou R$ 100 milhões à publicidade de sua administração.
Outras decisões de idêntica sabedoria certamente concorreram
para o que se vê, mas os últimos dias ofereceram a melhor
explicação sobre o que ocorre na segurança que o estado
fornece ao carioca.
Do arrastão na praia do Leblon ao assalto à casa da psicóloga
Marylin Helen Xavier, cruzando pela morte do bicheiro Maninho, a
polícia, para usar uma expressão do meio, atrapalhou-se mais
que cego em tiroteio. Antes de correr atrás dos bandidos que
espancaram e roubaram turistas na areia, suspeitou da motivação
eleitoral que pudesse ter o autor do vídeo.
O pobre homem teve de ligar para os jornais e explicar: filmou
o arrastão e entregou a fita à TV por que cansou de assistir a
cenas como aquelas sem que a polícia sequer se mexesse. Chama-se
Fernando, mora de frente para a praia, paga as próprias contas,
não tem nada a esconder de ninguém e, se preciso, faria de
novo.
Só então, 48 horas depois, a polícia decidiu investigar por
que as custosas câmeras que instalou em prédios e postes da
orla não gravaram nada.
No bairro ao lado, a Gávea, a psicóloga Marylin, de 74 anos,
lançou mão de toda a astúcia possível à condição de
assaltada em casa pela segunda vez este ano convenceu um
dos bandidos a tirar a luva e beber um copo dágua.
Quando se livrou do assaltante, guardou cuidadosamente o copo
num saco plástico e levou a impressão digital quentinha para a
15ª. delegacia. Só faltaram dizer-lhe que anda vendo muito
filme policial, nos quais a polícia tem arquivos digitalizados.
Aqui isso sequer freqüenta os sonhos da polícia.
No Rio de Janeiro, o máximo de informatização a que a polícia
chegou foi a instalação da delegacia legal, um out-door criado
às custas da prescrição de mais de 100 mil crimes que tinham
inquéritos em andamento.
De todos, porém, o episódio mais perigoso para a polícia é a
morte do bicheiro Waldemir Garcia, o Maninho. É perigoso por que
a contravenção não está nas ruas há quase um século por
incompetência.
Ali não se atrasa bola para goleiro. Enterrado Maninho, seu
pai, Waldomiro Garcia, um contraventor aposentado, septuagenário
e doente, pediu aos comandantes do jogo do bicho dura investigação
sobre a morte do filho.
Em dois dias e com a participação de policiais a
soldo desses respeitáveis senhores a contravenção
apresentou resultados que apontam para uma briga interna. Maninho
teria comprado pontos de jogo na Barra da Tijuca. Pretendia dá-los
ao pai, no aniversário.
A compra, feita ao bicheiro Emil Pinheiro, foi vista como uma
espécie de afronta pelo também bicheiro Rogério Andrade,
sobrinho do já morto Castor de Andrade, que tem interesses na área.
Foragido há dois anos (foi condenado pela morte do filho de
Castor), Rogério teria pago R$ 300 mil para que um ex-policial
enchesse Maninho de chumbo.
A polícia não sabe de nada, mas examina duas hipóteses. Na
primeira, Maninho estava ligado a uma conexão que levava cocaína
para a Ásia e foi morto por ordem de um sujeito que lhe devia
dinheiro e não pretendia pagar. Na segunda, a morte foi conseqüência
de uma briga de boate na qual humilhara um desses fortões da
noite que lhe espancara o personal trainner.
Por opostos, os caminhos da contravenção e da polícia podem
conduzir a um embate explosivo. Se confirmarem que estão no rumo
certo, os chefes do jogo passarão Rogério Andrade nas armas e
desmoralizarão mais uma vez a polícia, que por dois anos não
conseguiu devolvê-lo ao xilindró.
Se a polícia acertar em uma de suas hipóteses, ainda assim
terá permitido a investigação paralela patrocinada pelo crime
e Rogério, um condenado, deverá continuar em liberdade. Carece
a segurança do estado de inteligência quesito inseparável
do trabalho policial no mundo.
Pode-se dizer que o governo Benedita foi um desastre, como o faz
Garotinho, o marido, apesar de acusado de ter passado à sua então
vice-governadora a chave de um cofre quebrado. Vai ver foi mesmo
uma droga de governo, mas pelo menos aparentemente a polícia
trabalhava melhor.
As imagens do dirigível, que era o olho da segurança sobre o
Rio de Janeiro, e todas as informações sobre o universo do
crime eram reunidas no mesmo lugar.
Percebia-se que a inteligência e a investigação ocupavam
lugar importante no trabalho da polícia. Hoje aposta-se na delação
que chega pelo Disque-denúncia.
Não se pode negar eficácia ao trabalho dessa ONG sustentada
pela iniciativa privada e responsável pela quase totalidade do
sucesso da polícia no encontro de autores de crimes. Mas isso é
tudo.
Uma investigação tem sempre como ponto de partida a denúncia
e isso não falta. Entre 1995, quando foi fundada, e este ano
acumula quase 800 mil denúncias.
Só este ano já são quase 92 mil. É praticamente o
principal impulso no trabalho da polícia. O que vai além é
residual; ações pontuais de combate ao tráfico de drogas e
coisas que tais.
É mais uma vez a sociedade civil, a iniciativa privada, que
investe na elucidação de crimes, com incentivo e recompensa
pela indignação das pessoas de bem. O alvo é quase sempre o
morador de áreas pobres onde os pequenos criminosos se
concentram.
Nos últimos meses, no entanto, a classe média tem trocado a
habitual indignação silenciosa pela ação. Batalhões de
leitores munidos de câmeras digitais assediam a coluna do
jornalista Ancelmo Gois, no Globo, com flagrantes de desrespeito
à lei.
Recebo pelo menos 10 por dia, diz ele. Só não
publico mais por falta de espaço.
O mesmo impulso moveu o avô que documentou o arrastão do Leblon
e o ofereceu à TV Globo. Na verdade, Fernando comprou a câmera
para registrar as cambalhotas do neto que está para nascer.
Na hora, porém, resolveu dar uma força na ordem pública. Vá
lá que o estado entregue a segurança do carioca aos produtores
de vídeos domésticos e ao povo da foto digital. Isso é coisa
para o eleitor daqui a um par de anos decidir se foi bom.
Por enquanto só não pode desconfiar que o cinegrafista
amador tenha motivação eleitoral, quando exibe crime que a polícia
não quis ver.
Aí já é debochar da vítima.
nomínimo
|