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Escrito por Xico Vargas   
Tuesday, 05 October 2004

Houve um tempo – nem tão distante assim – em que a polícia do Rio de Janeiro não dependia de cinegrafista amador para identificar criminosos, nem para saber o que ia pela cidade.

Olhava as ruas do alto, com câmeras de precisão, empregava seis homens para patrulhar 70 quilômetros quadrados por hora e botava o grosso do dinheiro em inteligência.

Mas esse serviço, a governadora Garotinho dispensou, segundo ela, por caro. Em seu lugar contratou helicópteros que nunca saíram do chão, comprou centenas de viaturas que custaram até 30% mais que as da polícia paulista, entregou zero à inteligência e destinou R$ 100 milhões à publicidade de sua administração.

Outras decisões de idêntica sabedoria certamente concorreram para o que se vê, mas os últimos dias ofereceram a melhor explicação sobre o que ocorre na segurança que o estado fornece ao carioca.

Do arrastão na praia do Leblon ao assalto à casa da psicóloga Marylin Helen Xavier, cruzando pela morte do bicheiro Maninho, a polícia, para usar uma expressão do meio, atrapalhou-se mais que cego em tiroteio. Antes de correr atrás dos bandidos que espancaram e roubaram turistas na areia, suspeitou da motivação eleitoral que pudesse ter o autor do vídeo.

O pobre homem teve de ligar para os jornais e explicar: filmou o arrastão e entregou a fita à TV por que cansou de assistir a cenas como aquelas sem que a polícia sequer se mexesse. Chama-se Fernando, mora de frente para a praia, paga as próprias contas, não tem nada a esconder de ninguém e, se preciso, faria de novo.

Só então, 48 horas depois, a polícia decidiu investigar por que as custosas câmeras que instalou em prédios e postes da orla não gravaram nada.

No bairro ao lado, a Gávea, a psicóloga Marylin, de 74 anos, lançou mão de toda a astúcia possível à condição de assaltada em casa pela segunda vez este ano – convenceu um dos bandidos a tirar a luva e beber um copo d’água.

Quando se livrou do assaltante, guardou cuidadosamente o copo num saco plástico e levou a impressão digital quentinha para a 15ª. delegacia. Só faltaram dizer-lhe que anda vendo muito filme policial, nos quais a polícia tem arquivos digitalizados. Aqui isso sequer freqüenta os sonhos da polícia.

No Rio de Janeiro, o máximo de informatização a que a polícia chegou foi a instalação da delegacia legal, um out-door criado às custas da prescrição de mais de 100 mil crimes que tinham inquéritos em andamento.

De todos, porém, o episódio mais perigoso para a polícia é a morte do bicheiro Waldemir Garcia, o Maninho. É perigoso por que a contravenção não está nas ruas há quase um século por incompetência.

Ali não se atrasa bola para goleiro. Enterrado Maninho, seu pai, Waldomiro Garcia, um contraventor aposentado, septuagenário e doente, pediu aos comandantes do jogo do bicho dura investigação sobre a morte do filho.

Em dois dias – e com a participação de policiais a soldo desses respeitáveis senhores – a contravenção apresentou resultados que apontam para uma briga interna. Maninho teria comprado pontos de jogo na Barra da Tijuca. Pretendia dá-los ao pai, no aniversário.

A compra, feita ao bicheiro Emil Pinheiro, foi vista como uma espécie de afronta pelo também bicheiro Rogério Andrade, sobrinho do já morto Castor de Andrade, que tem interesses na área. Foragido há dois anos (foi condenado pela morte do filho de Castor), Rogério teria pago R$ 300 mil para que um ex-policial enchesse Maninho de chumbo.

A polícia não sabe de nada, mas examina duas hipóteses. Na primeira, Maninho estava ligado a uma conexão que levava cocaína para a Ásia e foi morto por ordem de um sujeito que lhe devia dinheiro e não pretendia pagar. Na segunda, a morte foi conseqüência de uma briga de boate na qual humilhara um desses fortões da noite que lhe espancara o personal trainner.

Por opostos, os caminhos da contravenção e da polícia podem conduzir a um embate explosivo. Se confirmarem que estão no rumo certo, os chefes do jogo passarão Rogério Andrade nas armas e desmoralizarão mais uma vez a polícia, que por dois anos não conseguiu devolvê-lo ao xilindró.

Se a polícia acertar em uma de suas hipóteses, ainda assim terá permitido a investigação paralela patrocinada pelo crime e Rogério, um condenado, deverá continuar em liberdade. Carece a segurança do estado de inteligência – quesito inseparável do trabalho policial no mundo.

Pode-se dizer que o governo Benedita foi um desastre, como o faz Garotinho, o marido, apesar de acusado de ter passado à sua então vice-governadora a chave de um cofre quebrado. Vai ver foi mesmo uma droga de governo, mas pelo menos aparentemente a polícia trabalhava melhor.

As imagens do dirigível, que era o olho da segurança sobre o Rio de Janeiro, e todas as informações sobre o universo do crime eram reunidas no mesmo lugar.

Percebia-se que a inteligência e a investigação ocupavam lugar importante no trabalho da polícia. Hoje aposta-se na delação que chega pelo Disque-denúncia.

Não se pode negar eficácia ao trabalho dessa ONG sustentada pela iniciativa privada e responsável pela quase totalidade do sucesso da polícia no encontro de autores de crimes. Mas isso é tudo.

Uma investigação tem sempre como ponto de partida a denúncia e isso não falta. Entre 1995, quando foi fundada, e este ano acumula quase 800 mil denúncias.

Só este ano já são quase 92 mil. É praticamente o principal impulso no trabalho da polícia. O que vai além é residual; ações pontuais de combate ao tráfico de drogas e coisas que tais.

É mais uma vez a sociedade civil, a iniciativa privada, que investe na elucidação de crimes, com incentivo e recompensa pela indignação das pessoas de bem. O alvo é quase sempre o morador de áreas pobres onde os pequenos criminosos se concentram.

Nos últimos meses, no entanto, a classe média tem trocado a habitual indignação silenciosa pela ação. Batalhões de leitores munidos de câmeras digitais assediam a coluna do jornalista Ancelmo Gois, no Globo, com flagrantes de desrespeito à lei.

“Recebo pelo menos 10 por dia”, diz ele. “Só não publico mais por falta de espaço”.

O mesmo impulso moveu o avô que documentou o arrastão do Leblon e o ofereceu à TV Globo. Na verdade, Fernando comprou a câmera para registrar as cambalhotas do neto que está para nascer.

Na hora, porém, resolveu dar uma força na ordem pública. Vá lá que o estado entregue a segurança do carioca aos produtores de vídeos domésticos e ao povo da foto digital. Isso é coisa para o eleitor daqui a um par de anos decidir se foi bom.

Por enquanto só não pode desconfiar que o cinegrafista amador tenha motivação eleitoral, quando exibe crime que a polícia não quis ver.

Aí já é debochar da vítima.

 

nomínimo

Comentarios (1)Add Comment
rogerio andrade
escrito por nivaldo, 2008-05-04 22:55:03
gostaria do mail dele ou do msnpoderia me passar

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