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No prazo de 24 horas, morreu Pinochet e Lula disse que a esquerda é uma doença dos jovens. Que a idade traz equilíbrio, levando os políticos para "o meio", nem na esquerda, nem na direita. Citou o seu exemplo de homem agora equilibrado, do "meio". Allende, portanto, ao ser assassinado, era um político desequilibrado, porque passara dos 60 e continuava de esquerda.
Com sua fala, o presidente Lula reconheceu uma verdade pessoal: ele é um político que saiu de uma esquerda, até certo ponto desequilibrada no comportamento, e caminhou para o centro. Isso não é, porém, uma característica de todo político de esquerda.
Alguns são equilibrados desde a juventude, e continuam de esquerda mesmo com a idade avançada. Basta lembrar o mais velho militante brasileiro: Oscar Niemeyer, aos 99 anos é tão de esquerda quanto era 80 anos atrás. E certamente tão equilibrado hoje, como antes.
A idade não equilibra. Acomoda. É por isso que as pessoas de direita não se mudam para a esquerda, continuam acomodadas. São as pessoas de esquerda que mudam para a direita: por acomodamento, não por equilíbrio. É muito raro ser de direita e incomodado com o mundo. E impossível ser de esquerda e acomodado com a realidade.
O acomodamento seria o equilíbrio, se a realidade mudasse. Se os sonhos de quando somos jovens se realizassem. Nesse caso, deixaria de ser necessário manter a luta, continuar o combate. O velho militante não deixaria de ser de esquerda, apenas a esquerda deixaria de ser necessária. Isso não aconteceu no Brasil. Nem no mundo.
A eleição do Lula, quando ainda um homem de esquerda, como se apresentou na eleição de 2002, não trouxe a revolução que se esperava. Trouxe alguma positiva generosidade, ampliando os programas sociais criados no governo anterior. Mas, sem qualquer vigor transformador, embora mais generoso.
Programas que ficaram ainda mais assistenciais do que antes, como a transformação do Bolsa-Escola em Bolsa-Família. Nada mudou de concreto para nos levar para uma sociedade mais justa, soberana, eficiente, como sonham os homens e mulheres de esquerda, muitos deles que votaram no Lula.
Por isso, a esquerda continua sendo tão necessária hoje como antes. Talvez ainda mais. Porque além de lutar contra a realidade injusta, dependente, ineficiente, é preciso lutar também contra o acomodamento dos que antes se diziam de esquerda, tanto os acomodados pela idade, como, ainda mais grave, os que se acomodaram na juventude.
No poder, sem utopia a ser construída e com o acomodamento natural, romperam com o passado, assumiram, aos poucos, o discurso dos outros, concluindo com o reconhecimento feito pelo presidente nessa semana, que tinham se encontrado, "no meio", com aqueles que antes eram chamados de direitistas. Porque, segundo ele, na idade deles, todos são iguais. Isso, no dia seguinte à morte de Pinochet, que teria gostado muito de saber dessa declaração.
O Brasil precisa da esquerda que mantenha o sonho de uma sociedade melhor, saiba que essa nova sociedade não será o resultado de pura e simples evolução, exige mudança, transformação, revolução. Isso é possível com equilíbrio.
O presidente acertou no seu reconhecimento pessoal e de seu partido, que hoje, pelo acomodamento, fazem parte do bloco conservador, mesmo que generosamente com os mais pobres. Errou, entretanto, ao generalizar o que caracteriza o comportamento dele e de seu partido.
Deixou de olhar ao redor e ver como a realidade ainda precisa de uma esquerda, e de perceber como ainda há militantes de esquerda. Alguns ativos, apesar da idade, outros, apesar de jovens, ansiosos por despertar do letárgico sono do acomodamento político. Todos nós, sobretudo os velhos, contentes com o nosso desequilíbrio.
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Foi candidato à presidência da república pelo PDT em 2006. Site: http://www.cristovam.com.br. E-mail:
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