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Jango e a dor do Exílio PDF Imprimir E-mail
Escrito por David Lerer   
Saturday, 09 December 2006

Ex-presidente brasileiro João Goulart Há trinta anos, amargurado e solitário, partia João Goulart. Em 6 de Dezembro de 1976, na pequena cidade de Mercedes, Argentina, do coração. Tinha apenas 56 anos de idade. Com a sua fortuna pessoal e os recursos da cirurgia cardíaca de hoje, teria se salvado. Mas será que ele queria viver?

Não creio.

Ficamos amigos em fevereiro de 1967, ele já cassado pelo primeiro golpe militar, o de 1964, e eu ainda deputado federal que viria a ser cassado no ano seguinte, pelo golpe dentro do golpe, turbinado pelo AI5, de 1968.

Aproveitei o feriado de Carnaval para ir ao Uruguai articular a Frente Ampla, movimento político que visava derrubar a ditadura militar por meios políticos. Fui falar com Brizola, cuja situação estava tão difícil que, além de exilado, fora confinado ao seu apartamento em Montevidéu. Brizola disse não, nada de políticos burgueses, só sargentos, cabos e marinheiros e luta armada. Mais tarde ele iria mudar, mas na época a influência de Cuba era forte.

Jango, porém, aderiu à Frente Ampla onde já participavam Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, este último o grande articulador de sua derrubada.

Jango era assim, um homem sem rancor. Este sim, amava o seu povo. A ponto de, em 1964, recusar-se a resistir aos golpistas que marchavam de Juiz de Fora para não derramar sangue brasileiro nem provocar uma guerra civil. Atitude que lhe valeu críticas amargas de parte da esquerda, ironias da direita, e dor. Muita dor.

Como eu estava dizendo, ano e meio depois volto ao Uruguai, já não como deputado e promissor liderzinho da esquerda, e sim como simples cidadão sem direitos políticos, cassado, perseguido pela ditadura e obrigado a atravessar sozinho e a pé, numa fria madrugada de julho, a fronteira Santana do Livramento-Rivera. Exilar-se para não morrer.

Jango me recebeu de braços abertos. Ele sustentava dezenas de exilados, a maior parte deles seus desafetos, cabos, marinheiros e sargentos e militantes de extrema esquerda que comiam da mão dele mas no Café Sorocabanos o chamavam de covarde e poltrão.

Esse pessoal vivia numa espécie de pensão chamada "Vietcong". Um belo dia, cansado de tanto apanhar, Jango resolveu fechar o Vietcong, mas como bom líder trabalhista, deu um mês de aviso prévio para seus maldizentes.

Para os refugiados de passagem, como eu, Jango mantinha um hotel bem decente com fachada comercial no centro de Montevidéu, onde já encontrei o atual Ministro da Defesa do governo Lula, Waldir Pires, também cassado. O hotel era dirigido por um dos seus homens de confiança, o ex-prefeito de Brasília Ivo Magalhães.

No dia seguinte à minha chegada lá vem o Jango, como sempre puxando da perna direita fraturada numa antiga queda de cavalo, o olhar baixo e quase humilde, o sorriso bondoso e quase irônico. Sorria sempre. Nunca vi o Jango gargalhar às bandeiras despregadas, dar "aquele abraço" ou chamar alguém de "meu chapa". Ele apenas sorria, ouvia, e ajudava. E foi direto ao assunto.

"Então, sempre chegaste, paulista! Sabia que mais dia menos dia, tu também vinhas parar nesse potreiro. Em que posso te ajudar?"

Jango deu-me dinheiro, hospedagem no hotel e duas semanas de longas conversas em sua estância de Tacuarembó; uma passagem até Paris via Pacífico (escala no Rio, nunca), num providencial pinga-pinga que me fez passar alguns meses em Santiago do Chile e um ano inteiro no Peru.

Desde 1970, quando cheguei a Paris, eu o recebia todo ano nos meses frios e o acompanhava a Lyon, onde ficava sua clínica de tratamento do coração. Em Paris Jango se hospedava no prestigioso Hotel Claridge, avenida dos Champs Elysées, e recebia os amigos regiamente.

Perdi o contato em 1973, quando fui para Moçambique ser médico da guerrilha. Quando esse homem tão importante e generoso morreu, em 6 de dezembro de 1976, nem fiquei sabendo. Eu estava em Angola, em plena guerra, isolado, tentando salvar o mundo.

Jango foi o único ex-presidente brasileiro a morrer no exílio. Ao amigo querido, minhas tardias homenagens.

David Lerer é médico e ex-deputado federal.

Comentarios (1)Add Comment
Obrigada
escrito por Carmem, 2008-11-16 21:14:09
Estou e sou muito grata por saber que existe e existiu pessoas que conseguem ser generosas e lucidas, mesmo na guerra, estou muito feliz por saber que vocês existem, nasci em l962, sempre fui pobre e as escolas e os meios de comunicção para nós sempre foi direcionado para que acreditassemos no Feijão Maravilha.

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