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Em primeiro lugar, desculpem a ousadia. Sei que não sou ninguém e que vocês são a mais poderosa empresa do Brasil. Mas não se preocupem, não estou lhes enviando esta para pedir emprego, mesmo porque já tenho um parente pendurado em estatal. Só que esse trabalha, e como! É o "Tatuzão". Ele cava túneis para o Metrô de São Paulo.
De fato, nem sou eu quem escreve. Estou ditando esta ao André Rossi, meu empresário e tratador aqui da Fundação. Não escrevo porque, além de machucado, sou um bicho tatu analfabeto que até ontem nem apelido tinha, e foram me chamar logo de Ernesto, que nome! Se ao menos fosse Ernesto Che Guevara.
Deixa pra lá. No estado em que me encontro não quero nem posso me enervar. Ao contrário, vim agradecer à Petrobras por estar mantendo a Fundação Animália, que sabe tratar direitinho de tatuzinhos filhotes como eu, atropelados na Rio-Santos .
Sem esquecer os bons samaritanos da Guarda Rodoviária, Polícia Civil e Polícia Ambiental que me encontraram no fim do feriadão na SP-55, esticado no asfalto com a perna quebrada e desidratação. Eles me trataram como gente. Até quiseram lavrar BO, mas expliquei minha situação de animal selvagem, menor de idade, sem seguro nem domicílio fixo, e eles entenderam.
O dono do carro fugiu, como sempre. Motorista de feriadão com a cuca cheia de Tatuzinho líquida ou similar. Não socorrem nem os humanos, quanto mais um pobre tatu.
O sinistro deu-se à noite, que é quando saio da toca para comer formigas gordas e umas larvas de besouro na terrinha fofa e fresca perto do riacho. Acontece que o riacho fica do outro lado da estrada e não tem passagem por baixo para os inquilinos antigos e não voadores da Mata Atlântica como tatus, veados, jaguatiricas, raposinhas, cobras, sapos, lagartos, mil insetos e que tais.
Daí que volta e meia eu e meus irmãos da mata somos vítimas de colisão. Cortaram nosso mundo ao meio. Só podemos casar de um lado, comer de um lado. E ainda querem cortar mais, duplicar estradas, asfaltar a mata. É contra a natureza. Daqui a pouco só vai nos sobrar o Jardim Zoológico.
Agora, a senhora, dona Petrobras. A bicharada de São Sebastião, Caraguá e Ilha Bela, sem esquecer Ubatuba, anda falando cobras e lagartos da Petrobras, Ibama e companhia. No capinzal dos córregos, as poucas capivaras que escaparam dos caçadores correm histéricas de um lado para outro: medo de morrer de fome. Consta que vão cimentar a Fazenda Serramar para instalar um depósito de gás, que fica no meio de dois tubos: um que vem do mar, outro que sobe a serra.
É o que vocês chamam de Projeto Mexilhão, que ironia. Projeto Morte ao Mexilhão talvez fosse mais adequado. Nas ilhas, algas e marés vermelhas tomarão o lugar de peixes e crustáceos.
Vocês querem mais gás e petróleo para queimar, esquentar a Terra e dificultar ainda mais a vida de todos nós. Vocês podem dizer que não são tatus, mas estão cavando a própria sepultura.
Quanto a mim, eu não me aperto. Embora humilde, já suportei calores extremos, terremotos, vulcões e a Era Glacial, e estou aqui vivo e são. Apesar de enxergar pouco e andar devagar, caminho pela Terra há muitos milhões de anos, desde o tempo dos grandes dinossauros. Enterrei todos eles, e lamento dizer que vou enterrar vocês também, se continuarem a meter os pés pelas mãos.
Quem avisa amigo é. E obrigado pela hospitalidade.
Atenciosamente ,
Ernesto, um sobrevivente."
David Lerer é médico e ex-deputado federal.
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Oberigado