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Escrito por Janer Cristaldo   
Monday, 30 October 2006

Lula reeleito presidente do Brasil Sempre vivi em conflito com o Brasil. Em verdade, sou mais platino que brasileiro. Nasci na pampa, a mais ou menos um quilômetro da Linha Divisória entre Brasil e Uruguai. Com meus pais, falava português. Com minha ama, doña Catulina, falava espanhol.

Na estrada, em frente a nosso rancho havia um desses marcos divisores de fronteira, em concreto. Meu pai costumava colocar-me nos ombros para que eu subisse até o topo do marco. Mandava que eu me virasse para o nascente e dizia: "Fala para os homens do Uruguai, meu filho".

Depois fazia virar-me para o poente: "Fala agora para os homens do Brasil". Nasci entre duas culturas e o primeiro grande poema de minha infância foi o Martín Fierro. Meu pai era camponês sem maiores luzes, mas conhecia de cor dezenas de sextilhas de Hernández. Pergunte hoje a um professor universitário quem foi José Hernández. Poucos saberão responder.

Entender o mundo foi algo que sempre me fascinou. O aprendizado da leitura me absorveu a tal ponto que eu entrava noite adentro lendo à luz das brasas do fogão.  As seleções do Reader's Digest, não sei como, chegavam até aqueles rincões. Não sei se algum leitor ainda lembra delas.

Tinham o formato de um pequeno livro e o texto era disposto em seis colunas. Em minha sofreguidão, eu lia as linhas na horizontal, pulando de uma coluna para outra. Não era tarefa fácil, após a leitura, ordenar o texto todo. Fiz o primário em escola rural. Minha alegria de fim de ano era saber que no ano seguinte eu receberia novos livros.

Desde pequeno, tive a intuição de que um homem vale pelo que conhece. No ginásio, me fascinou o estudo de inglês, francês e latim. Sentia-me como que travestido falando uma língua estrangeira. Não o espanhol, é claro, que nunca foi estrangeira para mim.

Enquanto meus colegas e parentes se dedicavam a projetos mais práticos, como o de ganhar dinheiro e comprar coisas, eu me preocupava em ler mais para entender melhor o universo que me cercava. Um dos apelidos que me pespegaram em meus dias de Porto Alegre foi "Pra-que-dinheiro?". Eu não entendia muito bem para quê.

Os livros foram minhas armas para enfrentar o mundo. Com eles enfrentei a arrogância dos padres, dos marxistas, dos acadêmicos. Nos dias em que estava abandonando a fé cristã, que me fora enfiada a machado na cabeça, um padre foi enviado à minha cidadezinha para reconduzir ao rebanho a ovelha prestes a perder-se.

Conversamos um dia inteiro, esvaziando várias jarras de água. "Com que autoridade - me perguntava o padre Firmino - ousas contestar o que homens ilustres afirmaram?" Contesto, padre, com a autoridade da razão, da lógica e de minhas leituras. Eu teria 17 anos. Graças a meus livros, enfrentava com serenidade aquele Torquemada cinqüentão. A leitura me havia salvo do obscurantismo.

O valor que mais cultivo é o conhecimento. Certa vez, em uma audiência judicial, um juiz me defendeu como me defenderia minha mãe. "Este homem nunca teve tempo de ganhar dinheiro, passou sua vida estudando".

Estudando, continuo até hoje. Não tenho maior apreço por quem ostenta fortuna ou poder. Vivemos dias em que sucesso é um valor. Conheço pessoas de bom nível cultural que invejam o Supremo Apedeuta: "Ele teve sucesso".

Tenha o sucesso que tiver, pessoa inculta para mim não vale um vintém. Respeito o analfabeto que não teve condições de alfabetizar-se. Não tenho respeito algum por quem, tendo a chance de educar-se, não se educou. Tenho mais respeito por minha faxineira, que surpreendi outro dia lendo Machado de Assis.

Quem me acompanha sabe que abomino aquele carioquinha. Mas melhor ler Machado que não ler nada. Urge acabar com esse mito de que alguém vale alguma coisa só porque é presidente da República, bispo de Roma ou sabe chutar uma bola.

Falava de meu conflito com o Brasil. Quando fugi para a Suécia, fugia de duas coisas: carnaval e futebol. Mas por mais que um homem fuja, sempre carrega nas costas seu passado. Os suecos me interrogavam sempre sobre ... carnaval e futebol. 

Em todas minhas viagens, a peste Brasil sempre viajou grudada à minha pele. Seja nas fronteiras políticas do mundo socialista, seja nas fronteiras hipotéticas do Saara, ao mostrar o passaporte verde nunca faltou um policial analfabeto que me dissesse: "Brassil? Pelê, cafê, sambá".

Nunca tive razões para orgulhar-me de meu país. Tampouco encontro homens em sua história a quem possa conferir a comenda de herói. Tivemos alguns homens de visão, é verdade, Hipólito da Costa (que nasceu na Colônia do Sacramento, atual Uruguai), José Bonifácio, Silva Paranhos.

É muito pouco para país tão grande. Santos Dumont? De acordo. Mas Dumont é fruto da cultura francesa, não da nossa. Meus heróis estão em outras culturas. Alexandre, Sócrates, Cervantes, Schliemann, Fernão de Magalhães, Nietzsche, Mozart, Pessoa, Hernández. Entre meus numes tutelares não há nenhum brasileiro.

Viajando, aprendi a gostar deste país. Gosto de repetir uma frase de Chesterton: "Não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela". Precisei sair para entender melhor a terra em que nasci. Se aqui existem mares de burrice, há também ilhas de inteligência. Se há miséria, há também riqueza. Se há feiúra, há também beleza.

Todo país é lindo quando nele existe uma mulher a quem amamos. Essa mulher eu a tive e era daqui. Tivesse eu nascido no Congo ou em Ruanda, teria fortes razões para partir e não mais voltar. Mas ao Brasil dá pra voltar.

Que o digam os exilados de 64, que nos cafés de Paris ou Berlim juravam só voltar de metralhadora em punho. Mal Figueiredo decretou a anistia, voltaram chorando a cântaros. Quando passamos muito tempo longe do Brasil, sempre dá um nó na garganta ao voltar. Se choramos ao voltar, é porque o país é viável.

Sempre nos doem na alma as mazelas do país do qual gostamos. Gostar do Brasil é viver de alma machucada. Temos tudo para ser ricos e - ilhas à parte - vivemos atolados na miséria. Eleições são momentos em que brota, no peito de quem gosta de sua pátria, um raminho de esperança: quem sabe, desta vez saímos do barro.

Esse raminho, em meu peito há muito murchou. Faz hoje dezesseis anos que não voto, por não conseguir vislumbrar candidato em quem confiar meu voto. Se por um lado não voto, por outro sempre espero apreensivo o resultado das urnas.

Há quatro anos, foi eleito presidente da República um homem que se gaba de sua incultura. Parafraseando Lula: nunca houve na história deste país tamanho acinte à inteligência. Sua eleição gerou um clima funesto no país. Para "ter sucesso" não era mais necessário ter cultura.

Analfabeto mesmo serve, desde que minta à vontade, conforme o gosto das gentes. Não bastassem suas demonstrações quase que diárias de analfabetismo, não bastasse a roubalheira institucionalizada de seu governo, não bastassem suas mentiras deslavadas e continuadas, candidatou-se novamente à Presidência da República.

Nos tempos d'antanho, para justificar suas vontades, os poderosos costumavam dizer: Deus quer, Deus quis, em nome de Deus. O tal de Deus parece andar um tanto fora de moda. Hoje, os poderosos ou candidatos ao poder dizem: em nome do povo, o povo quer, o povo diz.

Soaria um tanto obsoleto, tanto para Lula quanto para Alckmin, dizer: eu sou o candidato de Deus. Mas não têm maiores pudores em afirmar que são o candidato do povo. As duas palavrinhas - Deus e povo -  continuam sendo de difícil definição e têm tantas acepções quanto as bocas dos que as pronunciam.

Jamais vi ou li uma definição de povo que satisfizesse a todas as mentes. Mas uma coisa é certa. Passe numa segunda-feira de manhã em um parque público ou em uma praia. Você pode não saber o que é povo. Mas é óbvio que o povo passou por ali. Nesta segunda-feira, Lula acordou reeleito presidente da República. No domingo, o povo passou pelas urnas.

Ainda na semana passada, o candidato derrotado dizia que o PT "está fazendo apologia da mentira. Os petistas podem mentir. Não, o brasileiro não gosta de mentiroso. Nada se sustenta em cima da mentira. Mentira é desvio".

Santa ingenuidade tucana. Esta coisa informe que se chama povo parece ter-se indignado com as palavras de Alckmin. E correu às urnas para desmenti-lo: "Somos brasileiros e gostamos de mentirosos, sim senhor. Quem disse que nada se sustenta em cima da mentira? Mentira não é desvio. Mentira é direito sagrado de todo cidadão".

Em um sistema democrático, bem ou mal o presidente representa as aspirações da nação toda. Triste país este meu, que elege e reelege um bronco sindicalista.

Disse certa vez um político inglês que a Inglaterra era bem sucedida porque seus cidadãos honestos tinham a mesma audácia que os canalhas. Claro que no Brasil existirão não poucos homens honestos. O problema é que carecem de audácia, virtude que nunca faltou aos canalhas.

Janer CristaldoJaner Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor. Vive em São Paulo. Site do autor: http://cristaldo.blogspot.com. E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso .  

Comentarios (6)Add Comment
Reportagem de Veja humilha nordestinos...
escrito por Eujácio Dantas, 2006-11-01 13:55:32
“Os pobres do Nordeste, podem até declarar voto em LULA, nas pesquisas eleitorais, mas são tão ignorantes, tão ignorantes, que vão apertar o botão errado na hora de votar, anulando suas escolhas. Sempre que LULA ultrapassa a barreira dos 50 pontos sou obrigado a apelar para esse argumento.”
“O Brasil é dominado por uma massa de pobres ignorantes. Eles estão decidindo por nós. E estão decidindo muito mal. Isso se não confundirem os algarismos e apertarem os botões errados”

Diogo Mainardi
VEJA / 20 de setembro de 2006.
EDICAO 1974 – ANO 39 – NO 37.

Atônito? Indignado? Revoltado? Eu também. A mídia manipuladora perdeu os limites da decência e do respeito ao povo nordestino, o que falta?
Apesar de não ser um leitor assíduo da veja, porque esta como a Globo tenta manipular a opinião publica em prol de seus interesses empresariais, li decepcionado esta critica preconceituosa e maldosa do Sr. Diogo Mainardi afirmando que Lula estava sendo eleito por causa dos miseráveis e desinformados nordestinos.

Em primeiro lugar, eu como nordestino gostaria de afirmar a este senhor que o nordeste é o maior celeiro cultural deste pais, terra de Jorge Amado, Castro Alves e centenas de outras celebridades mundialmente conhecidas, mas continuando, a maior parte de nós aqui do Nordeste estamos cansados da influencia que a mídia interesseira tenta exercer sobre nos brasileiros.

Estes órgãos de imprensa se sentiram desafiados ao constatar que estavam perdendo o controle da opinião publica e se deliciaram com o golpe aplicado nos imbecis assessores do PT. A desgraça deste país não são os políticos corruptos, não são os coronéis da política e sim a mídia conservadora que tenta impor a sua vontade manipulando a mente de pobres mortais.

A Globo jugula a vontade política de nosso povo deste a ditadura militar. Ocultou os crimes praticados pelos militares e acuada hipocritamente forjou apoiou as diretas. Em seguida novamente num ato desastroso junto com a Veja elegeu Collor e escondeu o desespero da população após o confisco bancário. Recentemente em 2002 tiveram que engolir a eleição de Lula. Pouco se enfatiza, mas a Globo como outras empresas de renome deste pais, contribuiu para o caixa dois do PT, também depositou dinheiro na conta de Marcos Valério, prática infelizmente muito comum na política. Quem desafia estes órgãos da imprensa morre, vide Anthony Garotinho. Existe uma clara opção destas duas empresas pela causa Alckimin quem assistiu as entrevistas com os presidenciáveis, ou ler as reportagens da Veja, pode atestar isto, num país democrático como o nosso elas tem todo direito de fazer esta escolha, mas não pode perder os limites da ética e tentar influenciar no pleito eleitoral, este privilégio só cabe ao povo.

Sem ter nada contra aos paulistas, mas gostaria que o editor da Veja explicasse o fato do Sr. Paulo Maluf, ter tido a votação espetacular que teve, deve ser culpa dos paulistas ignorantes.

O Nordeste tem sido campeão em repasses do Governo Federal, isto tem acontecido independente da sigla partidária do governador, vide o caso da Bahia que recebeu enormes somas para o programa “LUZ PRA TODOS”. Estados de outras regiões como o Espírito Santo e Minas tem recebido recursos que antes se concentravam em São Paulo. Não sou partidário de ACM muito pelo contrário, mas ele acertou em cheio quando chamou a equipe ministérial de FHC de paulistério. Por isso senhor editor é que nós aqui do nordeste demos uma votação expressiva a LULA, não por se tratar de ignorantes desinformados .

"Nenhum nordestino é indiferente ao meio em que vive, em que se criou."
João Cabral de Melo Neto - Nordestino
Lamentável
escrito por silvano pereira, 2006-11-05 01:50:59
Lamento muito, Senhor Cristaldo, mas...É LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO!
Apesar de vocês.
Quem sabe na próxima eleição vocês não tenham argumentos mais civilizados que possam vir a convencer o povo avotar nos candidatos que vocês defenderão?
VLW MESMO!!!
escrito por Douglas Carvalho, 2006-12-20 00:20:10
Ler o texto acima, após ler Dia da Suequinha, mesmo sendo negro e de pouco conhecimento (apesar de graduado), fez-me bem. Nunca vi meus ideais expostos de forma tão clara. Imaginei que nunca alguém me entenderia, mas vejo que há, infelizmente em ilhotas, pessoas de conhecimento invejável, que já me entendem mesmo sem me conhecer. Pessoas que conseguem expor de forma magnífica idéias tão simples, a ponto de incomodar "grandes" pessoas, fanzendo-as enxerga toda sua enorme insignificância. Espero que um dia ideais de retidão e justiça façam parte do Brasil de ponta-a-ponta, uma vez que as mentiras dos políticos são a promessa de realização dos sonhos dos humildes que, como presa hipnotizada, caem na armadilha de forma tão inocente que me fazem crer que viverei sem ver erguer-se o Brasil dos meus sonhos: Justo!
Incultura X cultura, estamos perdendo a batalha, mais não a guerra.
escrito por Ruy Vasconcelos, 2007-02-23 03:40:41
O reflexo da incultura que o Brasil apresenta neste momento, confirma a verdaeira fragilidade e má formação de uma sociedade "alejada".Prefere viver numa lenda construída pelos homem brasileiros, a reconhecer o total fracsso da nossa Nação Esatado. A propósito ,o "Partido dos Trabalhadores" são o exemplo para mundo hoje, que se orgulha das manchetes em todos os principais jonais do mundo dizendo ter um presidente genuinamente vindo do povo. Até a nossa vergonha não podemos ter mais, pois se quer existe em nosso país. Só uma coisa, sigo o exemplo de poucos, como os que aqui se encontram expondo os seus pensamentos de que a INTELIGÊNCIA, a VONTADE e a ÉTICA ainda está viva esperando o dia da verdadeira democracia escolhida através daqueles que renegam a burrice.
afê
escrito por eu, 2008-08-22 02:29:06
aff ! que saco .. eu naun to achando a pesquisa que eu to precisando :QUEM É CIDADÃO EM MEU PAÍS .. smilies/angry.gif alguém pode me falar onde eu posso encontrar ?

escrito por eu, 2008-08-22 02:29:51
ki bosta !

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