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A triste revolução dos sacoleiros PDF Imprimir E-mail
Escrito por Spensy Pimentel   
Monday, 25 September 2006

Fiscalizaçao pára sacoleiros Eles ganham cerca de R$ 500 por mês. E, como muitos dizem sustentar, com esse dinheiro famílias de até seis ou sete pessoas, são, tecnicamente, pobres, diante das estatísticas oficiais.

Enquanto esperam pelos companheiros que ainda retornam das compras para o ônibus, os sacoleiros que encontramos na fronteira com o Paraguai debatem com fervor sobre a conveniência ou não dos programas públicos de combate à pobreza.

Uma das sacoleiras critica os programas públicos de transferência de renda e segurança alimentar, destinados às famílias de baixa renda - em Mato Grosso do Sul, há distribuição de cestas básicas, o que as pessoas chamam de "sacolão".

"O governo está dando ajuda a quem não trabalha. Do trabalhador, está só puxando, cobrando imposto. Tinha que dar emprego, não sacolão", diz a mulher.

Outra senhora emenda, criticando a perseguição aos sacoleiros: "Se não deixarem a gente trabalhar, vão ter é de distribuir mais cesta básica ainda". Alguém brinca: "Por que vocês não pedem um sacolão pra vocês também?". A discussão engrossa com críticas ao governo federal e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um homem mais velho se aproxima para defender: "Vocês não digam isso, não. O Lula está certo de distribuir comida para a população. Tem que ser assim mesmo". Ele compara os dias de hoje com sua infância. "Vocês lembram que antigamente não tinha merenda na escola como tem hoje? Isso é muito importante pro futuro das crianças."

Ele se senta ao meu lado e continua a dissertar sobre a dificuldade da vida dos sacoleiros, que talvez explique o ressentimento de várias pessoas ali em relação a quem recebe assistência do governo.

"Nossa vida não é fácil, é dura mesmo. Você sai com fome e sede, vem nesses ônibus ruins. E fora as perdas que a gente tem nas estradas. Tudo o que sai da fronteira pra eles é contrabando. Nossa mercadoria é contrabando, é sonegação de imposto. É pouco, mas é."

O homem conta que tem 65 anos e sustenta quatro pessoas em casa com suas sacolas. "Eu não gosto de ficar parado, tem que fazer alguma coisa, por isso que eu venho pra cá", diz.

"A gente compra essas coisas aqui porque é o lugar mais barato. Eles não dão a condição para a gente comprar lá. Mas a mercadoria é da mesma. Se eles vendessem mais baratos por lá, ninguém vinha aqui comprar.

Piedade do governo

A tensão está no semblante das pessoas sentadas diante do ônibus parado entre as barracas de camelôs na praça central entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã - uma área em que é difícil saber onde termina o Brasil e onde começa o Paraguai. As malas são acomodadas com velocidade nos bagageiros.

São todas muito semelhantes, por isso cada uma tem o nome do passageiro a que pertence. Estamos perto do 12 de outubro, dia da Criança, por isso há muitos brinquedos sendo comprados.

A partida está marcada para acontecer às 11h da manhã, e algumas pessoas ainda estão retornando das compras. Em poucos minutos, o ônibus vai terminar de ser carregado e os mais de 40 sacoleiros enfrentarão 340 km na BR-463 até Campo Grande. No caminho, pelo menos dois postos de fiscalização da Polícia Rodoviária Federal onde os ônibus são comumente parados pelos fiscais da Receita Federal.

Tão logo o repórter chega, várias pessoas se afastam. Apenas dona Maria (nome fictício) inicia uma conversa. Ela é evangélica e diz não temer falar porque Jesus a protege. "Um dia o fiscal me perguntou: 'a senhora está com quem?' 'Eu estou com o general', respondi. Ele não entendeu direito e eu apontei com o dedo pra cima. Acho que era um homem bom, porque me deixou ir sem tomar as coisas", conta ela.

Cada turista que chega à região de fronteira pode trazer para o país bens no valor de até US$ 300, sejam brinquedos, eletroeletrônicos ou quaisquer outros importados que não armas, drogas ilegais ou produtos piratas.

Os bens trazidos pelos sacoleiros podem ser apreendidos pela Receita Federal porque, segundo a legislação, é proibido trazer bens destinados à comercialização - o que é pressuposto, no caso deles, por causa das várias unidades compradas de um único produto, por exemplo.

Os passageiros do ônibus das 11 têm, quase todos, mais de 40 anos de idade. Alguns são aposentados, complementam a renda da família com as vendas. Um deles se aproxima, enquanto converso com a mulher do general: "Sabe por que a gente faz isso? Sabe? Se você tem quarenta anos, vai procurar emprego, vai. O sujeito até pega o seu currículo, mas, quando vê a idade, nunca mais liga pra você".

Maria mostra o pé machucado: "Eu sofri um acidente. Governo nenhum foi lá em casa ver se eu estava doente e podia trabalhar". Com 48 anos de idade, ela é natural de Alagoas e mora em Campo Grande há 18 anos. Diz que tem seis filhos e sustenta a casa com o dinheiro da venda das mercadorias contrabandeadas nas feiras da cidade.

Em geral, o que vende são brinquedos, principalmente de valor baixo, em torno de R$ 1 a R$ 5. "Os caros, de R$ 30, R$ 40, só saem no fim de ano, perto do Natal", conta. Segundo ela, a atividade rende algo em torno de R$ 500 por mês.

Cerca de dois ônibus cheios de mercadorias são presos por semana, em Ponta Porã, segundo a Receita Federal. A inspetoria da Receita na cidade tem uma área de 4 mil metros quadrados para guardar as mercadorias apreendidas.

Raramente, segundo a Polícia Civil da cidade, algum sacoleiro vai preso. O temor de ser apanhado na estrada é grande porque a apreensão das mercadorias gera um prejuízo considerável - cada sacola cheia vale em torno de R$ 500 - o ganho de um mês inteiro.

Os sacoleiros se preparam para pegar estrada. Eles sabem que o que fazem é crime. Um outro homem aceita falar. A pouco mais de dez dias das eleições, ele diz que espera apenas "piedade" dos novos governantes e legisladores.

"Essa fronteira aqui, pra melhorar, só tem que ser governo mesmo. Porque o Mercosul que eles montam, ninguém sabe aonde vai. Isso aqui é Mercosul, mas você pode ver: a mercadoria que a gente leva daqui é contrabandeada do mesmo jeito."

Alternativas de trabalho 

A prisão aconteceu no último sábado, como conta o delegado Mário Donizete Ferraz de Queiroz, da Polícia Civil em Ponta Porã (MS). Cada um dos dois homens esperava ganhar R$ 1 mil quando entregasse, em Campo Grande, a 340 quilômetros da fronteira com o Paraguai, os 35 quilos de maconha que carregava.

Eram desempregados, vindos de Sidrolândia, uma outra cidade do interior do estado. O detalhe: a droga era transportada nas garupas das bicicletas que eles já haviam conduzido por 90 quilômetros, durante três dias, na BR-463.

"Eles estavam famintos, queimados de sol, acabados quando chegaram aqui. E o pior é que, provavelmente, não vai acontecer nada com o sujeito que os contratou", diz o delegado.

Ele explica que os "mulas" presos na região de fronteira, em geral, vêm de fora, muitas vezes, de outros estados como São Paulo ou Mato Grosso. Trata-se de gente que não tem outra alternativa de trabalho, certamente, mas, como analisa o policial, fez a opção pela ilegalidade.

Para o economista Milton Batista Fróes, que leciona na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul em Ponta Porã, esse tipo de episódio chama a atenção para um fenômeno brasileiro: a falta de alternativas econômicas tem empurrado para a informalidade e a ilegalidade uma parcela crescente da população.

"Se tivessem emprego, muitas dessas pessoas não fariam esse tipo de trabalho", diz ele.

Fróes acredita que, na região de fronteira, a maior facilidade para ligar-se a atividades ilegais, como o contrabando e o tráfico de drogas e armas, era preciso haver especial atenção: "Era preciso injetar dinheiro aqui para gerar alternativas econômicas, para que as pessoas não se sentissem incentivadas a passar à ilegalidade".

O também delegado da Polícia Civil Clemir Vieira Jr. afirma que, a despeito das dificuldades, nos últimos anos, o combate ao crime na fronteira do Brasil com o Paraguai tem avançado. "Claro que existe dificuldade, mas nós temos improvisado, temos conseguido muita coisa por meio da integração com as autoridades do país vizinho", diz ele.

Uma legislação específica para as regiões de fronteira seca seria importante, segundo o delegado, para facilitar essa cooperação. "Por exemplo, quando há uma perseguição, um crime que acontece no outro país e a pessoa foge pra cá, ou vice-versa. Às vezes temos de esperar dias pela burocracia. Isso atrapalha."

ABr

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