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A Reação dos Miseráveis PDF Imprimir E-mail
Escrito por Carlos Chagas   
Sunday, 03 October 2004
Apesar das poucas horas que nos separam das eleições, ou por isso mesmo, importa lembrar as diferenças cada vez mais profundas entre os dois Brasis em que vivemos.

Um, o Brasil formal, dos candidatos buscando votos em campanhas às vezes monumentais, protegidos pela lei e prometendo mundos e fundos. Outro, porém, o Brasil real, cujas imagens freqüentemente chocam, mas que, mesmo sem elas, exprime uma situação impossível de continuar sem que sobrevenha a maior das explosões, reduzindo o Brasil formal a escombros.

Famintos e os meios marginais

As telinhas e os jornais mostraram um bando de animais assaltando e agredindo gente pacífica na praia do Leblon, no Rio. Horrorizaram-se quantos assistiram àquele espetáculo de bestialidade explícita. Teria mudado alguma coisa se um cinegrafista amador não tivesse flagrado a truculência? Infelizmente, não. O que aconteceu, dessa vez documentado, constitui rotina em todas as grandes cidades. Só as grandes?

Nem pensar. Generaliza-se a reação dos miseráveis. Apesar da propaganda oficial, o desemprego continua em ascensão. A indigência e a fome, também. Resta aos famintos e indigentes, como aos desesperançados que hoje somam 60 milhões, apelar para os meios marginais ao seu alcance: a violência, o assalto, a agressão e o crime.

Poder público e sociedade têm o dever de enfrentar a realidade, muito menos pela repressão do que pela necessidade de promover a justiça social. O pouco de que o Brasil formal dispõe pode ser repartido pelo Brasil real. É isso que os governos fingem não entender, como é isso que as elites e a classe média teimam em achar que não lhes diz respeito. Diz. Aí estão as eleições municipais, como antes aconteceram as eleições gerais, para demonstrar que adiantam muito pouco. Ou não adiantarão nada, na hora em que tudo ruir.

Candura

Lembra o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Edison Vidigal, a origem da palavra "candidato". Vem da antiga Roma, onde aqueles que disputavam cargos eletivos eram obrigados a desfilar pelas ruas trajando vestes brancas, forma de demonstrar a pureza de suas vidas e de seus propósitos. Cabia aos cidadãos aceitar a apresentação ou jogar lama nos camisolões daqueles que sabiam estar enganando a multidão. Na teoria, candidato tinha que ser cândido, ainda que, na prática, muitos burlassem o princípio.

Vidigal parte dessa imagem para defender uma rígida regulamentação do direito de cada um disputar votos populares. Para ele, não basta a rejeição de registro aos candidatos com sentenças condenatórias transitadas em julgado ou com óbvia vida pregressa. Deveriam ser proibidos de candidatar-se quantos se encontrassem sob suspeição.

Para o presidente da segunda maior corte nacional de Justiça, a Constituição exige moralidade, princípio que para o exercício de cargos públicos sobrepõe-se ao da presunção da inocência. Devem ser aplaudidos os juízes que negam registro aos carentes da candura imprescindível.

Só que, se essas regras drásticas vierem a ser estabelecidas, haverá não apenas falta de candidatos a postos eletivos. Faltarão vereadores, prefeitos, deputados, senadores e governadores. O poder público não funcionará...

Truculência explícita

Escorregaram os banqueiros, perdendo excelente oportunidade de ficar calados. Fizeram publicar matéria paga nos principais jornais, numa demonstração de truculência explícita raras vezes vista. Diante das preocupações gerais de como saldar as contas de fim de mês, em função da greve dos bancários, os banqueiros deram de ombros e reafirmaram que cobrarão juros de mora dos milhões de brasileiros que, mesmo com saldo bancário, estão impedidos de entrar nas agências para saldar suas dívidas.

Nem Kafka imaginaria uma situação igual, porque alguém impedido pelos cobradores de sacar dinheiro não pode ser cobrado por eles. As contas estão sobrestadas, diz a lógica, assim como as multas, pelo não pagamento.

Como a arrogância dos bancos só encontra limites maiores nos lucros por eles auferidos, espera-se do poder público alguma reação. Do governo, será impossível aguardar diretrizes mandando seus patrões calarem a boca. Do Judiciário, quem sabe, talvez surja alguma liminar reconhecendo e proibindo a violência.


Tribuna da Imprensa

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