Apesar das poucas horas que nos separam das eleições, ou por isso mesmo, importa lembrar as diferenças cada vez mais
profundas entre os dois Brasis em que vivemos.
Um, o Brasil formal, dos candidatos buscando votos em
campanhas às vezes monumentais, protegidos pela lei e prometendo
mundos e fundos. Outro, porém, o Brasil real, cujas imagens freqüentemente
chocam, mas que, mesmo sem elas, exprime uma situação impossível
de continuar sem que sobrevenha a maior das explosões, reduzindo
o Brasil formal a escombros.
Famintos e os meios marginais
As telinhas e os jornais mostraram um bando de animais assaltando
e agredindo gente pacífica na praia do Leblon, no Rio.
Horrorizaram-se quantos assistiram àquele espetáculo de
bestialidade explícita. Teria mudado alguma coisa se um
cinegrafista amador não tivesse flagrado a truculência?
Infelizmente, não. O que aconteceu, dessa vez documentado,
constitui rotina em todas as grandes cidades. Só as grandes?
Nem pensar. Generaliza-se a reação dos miseráveis. Apesar da
propaganda oficial, o desemprego continua em ascensão. A indigência
e a fome, também. Resta aos famintos e indigentes, como aos
desesperançados que hoje somam 60 milhões, apelar para os meios
marginais ao seu alcance: a violência, o assalto, a agressão e
o crime.
Poder público e sociedade têm o dever de enfrentar a realidade,
muito menos pela repressão do que pela necessidade de promover a
justiça social. O pouco de que o Brasil formal dispõe pode ser
repartido pelo Brasil real. É isso que os governos fingem não
entender, como é isso que as elites e a classe média teimam em
achar que não lhes diz respeito. Diz. Aí estão as eleições
municipais, como antes aconteceram as eleições gerais, para
demonstrar que adiantam muito pouco. Ou não adiantarão nada, na
hora em que tudo ruir.
Candura
Lembra o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Edison
Vidigal, a origem da palavra "candidato". Vem da antiga
Roma, onde aqueles que disputavam cargos eletivos eram obrigados
a desfilar pelas ruas trajando vestes brancas, forma de
demonstrar a pureza de suas vidas e de seus propósitos. Cabia
aos cidadãos aceitar a apresentação ou jogar lama nos camisolões
daqueles que sabiam estar enganando a multidão. Na teoria,
candidato tinha que ser cândido, ainda que, na prática, muitos
burlassem o princípio.
Vidigal parte dessa imagem para defender uma rígida regulamentação
do direito de cada um disputar votos populares. Para ele, não
basta a rejeição de registro aos candidatos com sentenças
condenatórias transitadas em julgado ou com óbvia vida
pregressa. Deveriam ser proibidos de candidatar-se quantos se
encontrassem sob suspeição.
Para o presidente da segunda maior corte nacional de Justiça, a
Constituição exige moralidade, princípio que para o exercício
de cargos públicos sobrepõe-se ao da presunção da inocência.
Devem ser aplaudidos os juízes que negam registro aos carentes
da candura imprescindível.
Só que, se essas regras drásticas vierem a ser estabelecidas,
haverá não apenas falta de candidatos a postos eletivos. Faltarão
vereadores, prefeitos, deputados, senadores e governadores. O
poder público não funcionará...
Truculência explícita
Escorregaram os banqueiros, perdendo excelente oportunidade de
ficar calados. Fizeram publicar matéria paga nos principais
jornais, numa demonstração de truculência explícita raras
vezes vista. Diante das preocupações gerais de como saldar as
contas de fim de mês, em função da greve dos bancários, os
banqueiros deram de ombros e reafirmaram que cobrarão juros de
mora dos milhões de brasileiros que, mesmo com saldo bancário,
estão impedidos de entrar nas agências para saldar suas dívidas.
Nem Kafka imaginaria uma situação igual, porque alguém
impedido pelos cobradores de sacar dinheiro não pode ser cobrado
por eles. As contas estão sobrestadas, diz a lógica, assim como
as multas, pelo não pagamento.
Como a arrogância dos bancos só encontra limites maiores nos
lucros por eles auferidos, espera-se do poder público alguma reação.
Do governo, será impossível aguardar diretrizes mandando seus
patrões calarem a boca. Do Judiciário, quem sabe, talvez surja
alguma liminar reconhecendo e proibindo a violência.
Tribuna da Imprensa
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