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A guerra sempre causa tristeza. Mas esta de Israel contra o Líbano nos deixa acabrunhados e pensativos. Se o novo milênio devia significar o início de uma nova caminhada, onde vamos chegar?
A atrocidade dos ataques, sem nenhuma preocupação com a morte de civis, sobretudo de crianças inocentes, revela a face perversa desta nova lógica de guerra que vai se impondo no mundo, exibida aos olhos de todos, sem que ninguém consiga deter.
Toda guerra resulta de um equívoco: abandonar o diálogo e a persuasão, para impor a força das armas.
Mas as guerras de hoje resultam de um equívoco mais perigoso: prescindir das nações, ignorando suas fronteiras, para deixar plena liberdade de atingir os alvos propostos.
Já não se declara guerra contra entre nações. Não porque as nações são preservadas da guerra. Mas porque elas já não importam mais!
Sob o pretexto de combater o terrorismo - a nova justificativa das guerras - passa-se por cima dos direitos humanos, destrói-se a infraestrutura e a atropela-se a paz de toda uma nação.
Se olhamos atentamente, este equívoco já vem sendo praticado há mais tempo, pela globalização da economia mundial.
Internamente a cada país, estamos assistindo ao desmonte do Estado, para deixar livre campo à iniciativa econômica das empresas multinacionais, sob a justificativa inexorável do lucro a ser obtido a todo custo, na alegada suposição de que assim vai acontecer a modernização e o progresso para todos os países, livres do peso da burocracia estatal, ineficaz e corrupta.
Na verdade, assim fazendo se acentua a dependência externa e a submissão a interesses hegemônicos.
Esta mesma postura está levando ao desmonte das nações, que já não são mais referências eficazes para direcionar a economia. Não estranha que as Nações Unidas estejam em crise. O problema de fundo é que as próprias nações, singularmente, estão sendo solapadas pela dinâmica da economia mundial.
A falácia do "livre comércio", na verdade, se reduz à liberdade dos mais fortes para imporem suas condições e fazerem valer sua supremacia.
A própria economia vai perdendo sua finalidade. A palavra "economia", etimologicamente, deriva da palavra "oikos", que significa "casa", e "nomos" que significa "lei", "ordem". De tal modo que por economia deveria se entender, em princípio, "colocar ordem na própria casa", garantir que o ambiente onde nos abrigamos seja favorável à vida, seja viável para a sobrevivência.
Assim, a economia nunca deveria perder de vista a referência prática, local, de serviço à vida, que a justifica.
Esta digressão em torno da "economia" não é para desviar as atenções da guerra. Ao contrário. A guerra mostra as conseqüências cruéis do desvio de objetivos, mesmo quando este desvio parece inócuo.
O apoio cego dos Estados Unidos a Israel revela o grau de obsessão deste desvio de objetivos, e a urgência de repensar o relacionamento mundial. As instituições estão em crise. E’ urgente reencontrar sua finalidade, para reestruturar o seu funcionamento. É a ingente tarefa que aguarda o início do novo milênio.
Dom Luiz Demétrio Valentini, é bispo Diocesano de Jales/SP. Natural de São Valentim, Rio Grande do Sul. Foi membro da Comissão Episcopal de Pastoral da Conferência Nacional de Bispos Brasileiros (CNBB), responsável pelo Setor Pastoral Social. Foi Presidente da Cáritas Brasileira, e membro do Depto. de Pastoral Social do CELAM (1991-99). É membro da Comissão Permanente do Sínodo Especial da América, onde foi eleito membro permanente (1997). Você pode se comunica com ele pelo email:
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