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Nossos Prêmios Nobel Morrem Analfabetos e Sem Noções de Matemática PDF Imprimir E-mail
Escrito por Cristovam Buarque   
Sunday, 16 July 2006

Pelada: democracia equalitária A igualdade plena só é possível se imposta por regimes autoritários. Igualdade plena não rima com plena liberdade. A democracia não busca nem constrói a igualdade. Ela liberta o mérito como instrumento de ascensão social: o talento no lugar da herança.

Não é um sistema de igualdade, mas de mérito. Mas a meritocracia não é necessariamente democrática, se for excludente e não oferecer oportunidades.

Só é democrática a sociedade que assegura a igualdade de oportunidades a todos os seus cidadãos, enriquecendo a sociedade ao incentivar o talento de cada indivíduo.

O autoritarismo concentrador empobrece a sociedade, ao impedir o talento dos excluídos e não exigir talento dos protegidos. O autoritarismo igualitário impõe a igualdade independentemente do talento; ao desestimular o potencial de cada indivíduo, enfraquece o conjunto da sociedade.

O papel da democracia é garantir a igualdade de oportunidades e o respeito às diferenças que surgem do uso individualizado do talento e da persistência.

O talento do atleta que se dedica por anos ao desenvolvimento de seu físico e sua técnica; do profissional liberal que persiste por anos em seus estudos e em sua profissão; dos artistas que insistem nos repetitivos ensaios de seus dons.

A universidade brasileira é um caso claro de meritocracia excludente, que seleciona as pessoas conforme sua renda. Seu aluno é escolhido pelo mérito que lhe assegura passar no vestibular, com talento e persistência nos estudos, mas também graças ao privilégio da distribuição desigual de oportunidades, que evita a concorrência com o talento de milhões de excluídos, sem direito a uma escola básica de qualidade.

Se todos os jovens brasileiros tivessem estudado em boas escolas, com as mesmas oportunidades, muitos dos que passaram no vestibular teriam sido desclassificados, perdendo a proteção de escolas especiais desde a infância. É como se houvesse dois caminhos definidos pela renda: um deles leva à universidade, outro não.

Aqueles que têm o privilégio de acessar o caminho da universidade, no final têm que saltar o muro do vestibular, e disputar com companheiros de estrada, usando o próprio talento.

Mas os que são empurrados para o outro caminho ficam impedidos de desenvolver seus talentos e de disputar o vestibular, e vão cair na vala comum dos deseducados.

A democracia das oportunidades desiguais é injusta e estúpida. Injusta porque usa seus recursos para atender diferentemente aos seus membros; estúpida porque desperdiça o seu potencial, excluindo e desestimulando talentos. A riqueza intelectual da universidade fica prejudicada pela exclusão de talentos não desenvolvidos e pela acomodação diante da falta de concorrência entre todos.

Diferentemente da universidade, que faz parte da democracia das oportunidades desiguais, o futebol é uma atividade de oportunidades iguais. Desde cedo, toda e qualquer criança das cidades brasileiras, desde que alimentada, tem chances iguais de brincar com a bola em campos improvisados. É o mérito, talento e persistência que leva alguns ao topo.

O futebol é o setor das oportunidades iguais, por isso é eficiente (o Brasil tem tantos craques e nenhum Prêmio Nobel), e justo (o Brasil tem tantos craques de origem pobre e tão poucos pobres entre os cientistas).

Não brincando com livros, computadores, sem escolas nem professores valorizados, formados e dedicados, a imensa maioria de nossas crianças fica sem oportunidades, sem possibilidade de desenvolver seu potencial.

Nossos Prêmios Nobel morreram sem saber ler, sem aprender matemática. E sem participar do democrático campeonato de talento e das oportunidades iguais. A democracia se diferencia da loteria porque esta só pode beneficiar a poucos, nunca a todos, e depende da sorte, não do mérito.

A democracia é o regime das oportunidades iguais. E a escola é o ninho onde se constrói a democracia, oferecendo oportunidades iguais a todos.

Cristovam BuarqueCristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. E candidato à presidência da república pelo PDT. Site: http://www.cristovam.com.br E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso .

Comentarios (6)Add Comment
Coincidência interessante!
escrito por Érica Gouveia, 2006-10-08 00:16:39
Estava pesquisando sobre O PRÊMIO NOBEL do Brasil, e deparei-me com esse artigo do Cristovam Buarque, o qual é muito interessante.Aprendi muito esse texto.
É um artigo facinante
escrito por Miguel de Campos, 2006-10-13 05:40:37
Este artigo do Senador Cristovam Buarque é interessantissimo,pois nele o autor nos aponta a triste realidade brasileira. Cristovam abre nossos olhos para a triste situação que a grande maioria de nossos jovens enfrenta. Cada dia que passa eu aprendo a respeitar mais este brasileiro magnifico que é o Senador Cristovam Buarque.
O Nosso Premio Nobel.
escrito por Flavio de Oliveira, 2006-11-10 16:06:00
Flavio de Oliveira.
...
escrito por Flavio de Oliveira, 2006-11-10 16:07:50
Caro Sr. Venho lhe dizer que quero no Texto este E-mail.

Flavio de Oliveira.





premio nobel
escrito por aurora lazcano, 2008-01-05 12:54:26
Adoro literatura, não sou formada, mas quis saber da realidade brasileira. Estou à prestes a viajar a meu país Chile; é pense, vão querer saber os prêmios que tem a literatura Brasiléia?
concordancia
escrito por pedro g nichele, 2008-07-17 17:23:31
simplesmente incisiva a manifestação do eminente sr cristovão buarque sobre este polemico assunto: educação igualitária. Felicito-o por expor seu pensamento com tanta eloquencia. Mas fazendo parte do sistema e tendo acesso a meios realmentes capazes de modificar ou alavancar o sistema de ensino no pais, limita-se apenas a tecer comentarios relevantes. O povão ignorante está cansado de pão e circo. Alguém precisa fazer alguma coisa urgente.

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