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Escrito por Janer Cristaldo   
Saturday, 15 July 2006

Adeus, Lênin Já não basta termos de ver na televisão uma deputada dançando para saudar a vitória da corrupção e vermos o Estado petista assestando toda sua máquina contra um pobre caseiro, temos ainda de engolir as mentiras de stalinistas instalados em distribuidoras de filmes.

Em fevereiro de 2004, comentei Adeus, Lênin, este belo filme de Wolfgang Becker,  raridade nestes dias de salas inundadas por bestsellers para consumo de pobres de espírito.

O drama gira em torno de uma cidadã da antiga Berlim Oriental, que caiu em coma um pouco antes da queda do Muro. Só sai do coma alguns meses depois, quando Berlim é uma cidade só. Para evitar que a mãe tenha algum infarto com a nova realidade, seu filho remonta o apartamento com os trastes da era socialista, que nesta altura já haviam sido jogados a um depósito.

Toma o cuidado de fechar janelas e eliminar rádio e televisão. Dada a insistência da mãe em ter um aparelho de TV, o rapaz passa a produzir noticiários com um amigo cineasta, no melhor estilo da finada Alemanha Oriental. Ele produz uma RDA que não mais existe, para consumo da mãe em convalescença.

Um rápido detalhe, talvez despercebido aos olhos de muitos, mexeu comigo na ocasião: entre os trastes da era antiga, que o filho recupera de um depósito de objetos inúteis para manter a mãe na ilusão de que nada havia mudado, está um pôster do Che Guevara.

Neste nosso país incrível, justo naqueles dias em que eu escrevia a crônica - isto é, treze anos após a queda do Muro - estava sendo ultimado Diários da Motocicleta, de Walter Salles, idílico panegírico ao assassino que tem no currículo, entre outros feitos, ter tornado Cuba um dos países mais pobres do continente, que só não é o mais o pobre porque ainda existe o Haiti.

Vi e revi o filme mais duas ou três vezes. Num destes sábados, dia 18 passado, encontrei-o na programação do Telecine. Vou deliciar-me de novo, pensei, com este irônico relato da derrocada da barbárie. Quando acabou o filme, senti uma lacuna em meu prazer. Não havia visto o momento em que o pôster do Che é retirado do lixo. Imaginei que talvez tivesse ido à cozinha ou ao banheiro e perdido a cena.

Decidi então rever meu passado recente. Eu havia visto o filho retirando da parede a foto de Honecker, quando o campeão de tiro na nuca renuncia. Havia visto o rapaz repondo na estante um livro de Anna Seghers. Até ali não havia levantado do sofá. A cena do pôster teria de estar antes da chegada da mãe ao apartamento. Não estava. O episódio fora cortado.

Denunciei o fato em meu blog e recebi mensagens de pessoas que também não haviam visto a cena. Leitores incrédulos preferiram rever o filme, que seria reprisado na madrugada de terça-feira, dia 21. Sentei-me de novo ante a telinha e confirmei: a cena de fato fora cortada.

Quando a mãe volta, em rápidos fotogramas vê-se o pôster reposto na parede de cabeceira da cama. Che ressurge do lixo, mas a cena em que foi retirado do lixo nos foi subtraída. É como se sempre estivesse estado naquela parede e jamais tivesse sido jogado ao lixo. A direção do Telecine - escrevi então - deve ter julgado a imagem por demais chocante para o público brasileiro.

Leitores que também curtiam o filme me alertaram: haviam-no visto em DVD e nada da cena do pôster no lixo. Para conferir, peguei um DVD na locadora. De fato, o filme estava censurado no próprio DVD. Quem julgou a imagem por demais chocante para o público brasileiro foi a distribuidora. Mas pode o Telecine distribuir um filme mutilado, só para agradar as viúvas do socialismo? A meu ver, tem a obrigação de reprisar, para o público brasileiro, o filme sem cortes.

Em pleno ano da graça de 2006, dezessete anos após a queda do Muro, quinze anos após a dissolução da União Soviética, temos ainda stalinistas de plantão preservando a imagem de um bandoleiro internacional a serviço do comunismo. Da mesma forma que Stalin mutilava fotos, para impor aos povos sua falsificação da História, mais de meio século depois da morte de Stalin temos neste Brasil censores mutilando filmes para salvar a imagem de Guevara.

Se o filho da militante produzia uma RDA inexistente para manter sua mãe na ilusão de um mundo socialista, os distribuidores de Adeus, Lênin produzem um filme distinto do filme original, para manter o mito idílico de um apparatchik de gatilho fácil e sem escrúpulos.

Não por acaso, na Bolívia, Guevara é cultuado como San Ernesto de la Higuera. La Higuera é a aldeia onde Che foi preso. Um monumento ao assassino e um memorial na antiga escola são as principais atrações turísticas da área. Depois do filme de Walter Salles, a aldeia passou a fazer parte da "Ruta del Che". Eficaz intermediário entre Deus e os seres humanos, o novo santo já tem operado milagres.

Associada a causas nobres, a imagem do Che pode circular. Na terça-feira passada, 21 de março, está presente na primeira página da Folha de São Paulo, numa foto de alunos de uma escola municipal em Itaquera, São Paulo. Discreto, como convém aos santos, Che está no canto inferior direito da foto, na capa de um caderno escolar. A reportagem sequer fala do guerrilheiro. Apenas denuncia o fato de que a escola está situada acima do forno da padaria de um supermercado. O Che, você engole sem perceber.

Dois dias depois, na quinta-feira, no mesmo jornal, em página interna, uma homenagem mais evidente. Em uma foto de indígenas equatorianos protestando contra as negociações para um tratado de comércio com os EUA, lá está de novo o Che, glorioso, sobressaindo da foto, como que liderando o protesto. Como se o homem que levou um país à miséria econômica tivesse qualquer autoridade para liderar protestos contra tratados comerciais.

Já não basta termos de ver na televisão uma deputada dançando para saudar a vitória da corrupção, já não basta vermos o Estado petista assestando toda sua máquina contra um pobre caseiro, temos ainda de consumir gato por lebre e engolir as mentiras piedosas de stalinistas instalados em distribuidoras de filmes.

Nestes dias, quem quiser ver o filme na íntegra, terá de viajar a Paris, Berlim ou Roma. Enfim, a países onde Che já teve o destino que sempre mereceu, a famosa lata de lixo da História. Como fazíamos na época da ditadura militar. Quem podia, viajava à Europa para ver bom cinema. Quem não podia ir à Europa, ia a Montevidéu ou Buenos Aires. Neste sentido, os cidadãos de Santana do Livramento eram privilegiados, bastava atravessar a Calle Internacional e assistir ao filme em Rivera.

Não por acaso, um filme como La Palombella Rossa, de Nanni Moretti, jamais passou no Brasil. Estava muito perto da queda do Muro, as chagas das viúvas ainda continuavam abertas. East Side Story, produção alemã de 1997, dirigida por Dana Ranga, cineasta romena que vive em Berlim, saudado pela imprensa americana como um dos melhores da década, passou quase clandestinamente em uma sala no Rio, outra em São Paulo.

A crítica, nem um pio. Hoje, a censura é mais sutil. O filme passa. Mas que nenhuma blasfêmia seja feita aos sagrados ícones do hagiológio das esquerdas.
 
Janer CristaldoJaner Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor. Vive em São Paulo. Site do autor: http://cristaldo.blogspot.com. E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (3)Add Comment
...
escrito por eu, 2006-12-10 08:37:54
tem certeza que vc é gente? vc vai pro inferno desse jeito
...
escrito por Vinícius, 2007-02-09 02:24:56
Nossa...é triste ver como existem pessoas tão parciais na nossa imprensa.É por isso que o povo é tão alienado, a informação já chega manipulada.Direitóides reacionários adoram fazer isso.É bom que uma leva bem melhor de profissionais está vindo por aí, sem ideologias distorcidas da época da ditadura.
Ainda bem que existem os socialistas ainda!Gente que pensa, que é contra esse modelo cruel chamado neoliberalismo.Sabe, pessoas que lutam pela igualdade social, que se preocupam em construir um país melhor.Mas pra quem tem até Telecine em casa, pra que se preocupar não é mesmo???É melhor escrever um texto tendencioso e medíocre já que não to fazendo nada...bom, era isso....um conselho???Limite-se a escrever sobre o que você realmente conhece!smilies/wink.gif
ARTICULISTA AJUDA A QUEBRAR O MURO DA HIPÓCRITA ESQUERDA BRASILEIRA
escrito por Ronaldo S. Oliveira, 2008-07-02 12:26:41
Lúcido Janer Cristaldo:
parabéns pelo seu esclarecedor artigo! Um exemplo para a desatenta crítica cinematográfica. Eu, que em todas as eleições lunáticas, digo, lulistas, participei ativamente envolvendo todos os meus vizinhos ( como a mãe militante de "Adeus, Lenin", antes da queda do muro}, agradeço por alertar-me
sobre o surrupio criminoso da cena do pôster do Chê jogado no lixo... Hoje me envergonho de ter participado - tal como um "obreiro" da Universal do Reino de Deus - em um desfile noturno (pró- Lula) empunhado uma vela acesa pela principal avenida da minha pobre cidade de Alvorada, Rio Grande do Sul..Apesar de não filiado ao PT, durante anos ostentei a bandeira "IMACULADA & ÉTICA" no meu muro e cartazes nos postes do meu bairro. TENHO FOTOS provando a equivocada fidelidade. Quando assisti a inominável CORRUPÇÃO PETISTA e a defesa de Lula, nada sutil, a Renan Calheiros, Severino, Zé Dirceu e outros quadrilheiros...
Bem, aí o meu muro desabou! Detalhe:ingenuamente imaginava os petistas, especialmente os jovens, ligados aos livros, ao cinema inteligente, à crítica plural. Claro que há exceções. Mas a maioria é irrefletida massa de manobra, seguindo palavras de ordem. Sugeri ao vereador Professor Serginho-do-PT,
parlamentar de vários mandatos, que assistisse "ADEUS,LENIN". Resposta do "parlamentar", por e-mail: "Sugestões desta natureza, recebe-se apenas de pessoas íntimas." Esquece o vereador que as urnas o tornaram íntimo de todos os eleitores, mesmo os que não votaram nele. ADEUS, LENIN SERIA MUITO ÚTIL PARA A ESQUERDA. E, PARTICULARMENTE, PARA OS FISIOLOGISTAS DO PTD.
SAUDAÇÕES DEMOCRÁTICAS! Ronaldo S. Oliveira, jornalista. ( Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso )

smilies/cry.gif

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