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“... é inacreditável que ainda
hoje o Brasil não saiba cultuar o seu maior herói...”.
Ou melhor: é fundamental que
ele viva. No entanto, 260 anos depois de seu nascimento, nosso imenso mártir
continua assassinado de muitas maneiras e em muitos lugares, a começar por
Ritápolis, município hoje da Fazenda do Pombal, berço da nacionalidade
brasileira.
Estranho, triste lugar, ainda
que belíssimo pela própria natureza. Uma estrada sem sinalização, de terra,
esburacada, uma pontezinha de madeira (mas com placa ostensiva de sua
inauguração política), uma outra, de cimento, enorme, e estamos diante de um
portão de ferro, fechado (era sábado), onde uma campainha chama um guarda
sonolento que, quase por favor nos deixa entrar, mas logo avisa que ali “ não
tem nada”. Vejo, à direita, as ruínas da senzala, depois, as da grande casa do
mártir. Placas e mais placas, de políticos em sua maioria, agressivamente
propagadas naquelas santas ruínas, e só... ah! Esqueço: sobre elas várias
horríveis casinhas modernosas do Ibama. E então, a primeira pergunta: o que
teria a ver o Ibama com Tiradentes?
Afinal, por que tanto descaso?
Será que D. Maria, a Louca, ainda manda no Brasil? Por acaso o Fanfarrão
Minésio nos governa ? Estaria Silvério dos Reis à frente da pasta da Cultura?
Ou será que uma trama diabólica, ensandecida e despudorada, ainda prima por
querer negar o vulto do Animoso Alferes e, por conseqüência, de nossa
liberdade?
É inacreditável que ainda hoje
o Brasil não saiba cultuar o seu maior herói. Por que não reedificar a casa em
que nasceu? As madeiras ainda se acham, os vidros e os ferros são os mesmos de
hoje ou nada difíceis de serem fabricados, as telhas existem por aí ainda aos
montes, enfim, por que não se reconstruir a fazenda? A começar por
reunificá-la, já que hoje o Pombal está esquartejado em três fazendas, estando
duas, Magnólia e Ouro Fino, em mãos de particulares! Por que não se
desquartejá-las? A Magnólia, inclusive, abriga as ruínas da capela onde
Joaquim José foi batizado. E então? Por onde anda nossa nacionalidade? Onde?
Nossa religiosidade...
O Pombal deveria possuir um
animoso pombal. Deveria abrigar um centro de estudos tiradentinos. Deveria
possuir livros. Lembranças para os visitantes; vídeos sobre o grande
brasileiro. O Pombal deveria...enfim; este mais parece o país do deveria.
Pobre Tiradentes – seu torrão
natal continua salgado, seu nome usado e mal usado, sua relevância reduzida à
placas oportunistas.
É como dizia o poeta: “vai-se
uma pomba e mais outra”... E do pombal, quem cuida? – pergunto eu, perguntamos
nós. E até quando ?
Oscar Araripe é pintor e escritor e ex-jornalista do Correio da Manhã e do
Jornal do Brasil. Site:
www.oscarararipe.com.br Email:
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