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Escrito por Oscar Araripe   
Friday, 23 December 2005
Nova pagina 1

 

“... é inacreditável que ainda hoje o Brasil não saiba cultuar o seu maior herói...”.

Ou melhor: é fundamental que ele viva. No entanto, 260 anos depois de seu nascimento, nosso imenso mártir continua assassinado de muitas maneiras e em muitos lugares, a começar por Ritápolis, município hoje da Fazenda do Pombal, berço da nacionalidade brasileira.

Estranho, triste lugar, ainda que belíssimo pela própria natureza. Uma estrada sem sinalização, de terra, esburacada, uma pontezinha de madeira (mas com placa ostensiva de sua inauguração política), uma outra, de cimento, enorme, e estamos diante de um portão de ferro, fechado (era sábado), onde uma campainha chama um guarda sonolento que, quase por favor nos deixa entrar, mas logo avisa que ali “ não tem nada”. Vejo, à direita, as ruínas da senzala, depois, as da grande casa do mártir. Placas e mais placas, de políticos em sua maioria, agressivamente propagadas naquelas santas ruínas, e só... ah! Esqueço: sobre elas várias horríveis casinhas modernosas do Ibama. E então, a primeira pergunta: o que teria a ver o Ibama com Tiradentes?

Afinal, por que tanto descaso? Será que D. Maria, a Louca, ainda manda no Brasil? Por acaso o Fanfarrão Minésio nos governa ? Estaria Silvério dos Reis à frente da pasta da Cultura? Ou será que uma trama diabólica, ensandecida e despudorada, ainda prima por querer negar o vulto do Animoso Alferes e, por conseqüência, de nossa liberdade?

É inacreditável que ainda hoje o Brasil não saiba cultuar o seu maior herói. Por que não reedificar a casa em que nasceu? As madeiras ainda se acham, os vidros e os ferros são os mesmos de hoje ou nada difíceis de serem fabricados, as telhas existem por aí ainda aos montes, enfim, por que não se reconstruir a fazenda? A começar por reunificá-la, já que hoje o Pombal está esquartejado em três fazendas, estando duas, Magnólia e Ouro Fino, em mãos de particulares! Por que não se desquartejá-las? A Magnólia, inclusive, abriga as ruínas da capela onde Joaquim José foi batizado. E então? Por onde anda nossa nacionalidade? Onde? Nossa religiosidade...

O Pombal deveria possuir um animoso pombal. Deveria abrigar um centro de estudos tiradentinos. Deveria possuir livros. Lembranças para os visitantes; vídeos sobre o grande brasileiro. O Pombal deveria...enfim; este mais parece o país do deveria.

Pobre Tiradentes – seu torrão natal continua salgado, seu nome usado e mal usado, sua relevância reduzida à placas oportunistas.

É como dizia o poeta: “vai-se uma pomba e mais outra”... E do pombal, quem cuida? – pergunto eu, perguntamos nós. E até quando ?

Oscar Araripe é pintor e escritor e ex-jornalista do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil. Site: www.oscarararipe.com.br Email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

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