
História
da corrupção brasileira, que chegou com as caravelas A iniqüidade social
brasileira não se reflete apenas na desigualdade ímpar da repartição da renda.
Embora seja um aspecto menos conhecido e estudado, o abismo entre pobres e
ricos se aprofunda ainda mais quando se trata de distribuir justiça. No país,
as prisões se abarrotam com a população de baixa renda. O caso emblemático da
permanência na cadeia por um ano e sete meses de uma empregada doméstica
acusada de roubar um xampu apenas ilustra a triste verdade cantada por Noel
Rosa em um de seus sambas: "Para quem é pobre a lei é dura".
Quando o infrator é rico ou poderoso, porém, a coisa muda. Em casos de
corrupção, peculato, desvio de verbas públicas, sonegação fiscal e fraude
financeira, entre outros crimes conhecidos no jargão policial como de
colarinho branco, raramente alguém que possa pagar um bom advogado vai parar
atrás das grades. Situação muito diferente dos Estados Unidos, onde os
megaescândalos em grandes corporações geraram condenações pesadas, ou da
Itália, onde a Operação Mãos Limpas desarticulou a poderosa conexão entre
políticos e a Máfia.
"Corrupção houve em todos os tempos e lugares. A diferença é que, aqui, a
impunidade é total. Sempre foi." Quem faz essa constatação é o jornalista,
historiador e escritor Hernâni Donato, de 83 anos, autor de mais de 60 livros
- muitos dos quais sobre história do Brasil. Suas preciosas indicações
ajudaram a traçar este breve painel de 500 anos de maracutaias impunes da
elite nativa, que Problemas Brasileiros pesquisou na tentativa de entender -
para poder superar - como o Brasil se transformou no país "do carnaval, do
futebol e do caixa dois", de acordo com a definição do advogado Otto Steiner,
ex-diretor jurídico da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Arte de furtar
"A corrupção chegou ao Brasil com as caravelas", garante Donato, citando o
caso do capitão-da-costa Pero Capico, designado logo após o descobrimento pelo
rei dom Manuel para evitar o desvio de seus direitos sobre o comércio do
açúcar, do pau-brasil e de escravos. O funcionário veio pobre em 1516 e voltou
rico para Portugal dez anos depois, justificando aquilo que sobre as
autoridades coloniais diria o padre Antônio Vieira (1608-1697): "Eles chegam
pobres nas Índias ricas e voltam ricos das Índias pobres".
Ainda segundo Vieira, "alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar
o nosso bem, mas sim os nossos bens. El-rei manda-os tomar Pernambuco, e eles
se contentam com o tomar". Consultado certa vez por Lisboa se o Maranhão-Pará
deveria ser dividido em dois governos, o jesuíta foi cáustico: "Não. Um ladrão
num cargo público é mal menor do que dois".
Considerando já naquela época o Brasil enfermo pelas desigualdades, Vieira
descreve uma situação espantosamente atual: "Faltando a justiça punitiva para
expelir-se humores nocivos e a distributiva para alentar e alimentar o
sujeito, sangrando por outra parte os tributos em todas as veias, milagre é
que não tenha expirado".
Clássico para entender esse período é o livro Arte de Furtar, de autor
anônimo do século 18, falsamente atribuído ao padre Vieira, talvez pela
semelhança de estilo. Nele se descrevem os furtos realizados com "unhas
militares", "reais" ou "bentas", que permanecem impunes porque as leis "são
como teias de aranha: caçam moscas, mas não pescam tritões".
A primeira corte superior de justiça no Brasil foi a Relação da Bahia,
criada em 1609. Mas faltavam juízes profissionais porque os bacharéis de
Coimbra recusavam-se a vir para o Brasil. Um deles, Gaspar da Costa, só veio à
custa de títulos de fidalguia e 300 mil-réis em benefícios financeiros.
Ainda no século 17, Fradique de Toledo Osório, ao prestar contas ao
conde-duque de Olivares do dinheiro recebido para a guerra contra os
holandeses na restauração da Bahia, explicou do seguinte modo o sumiço de 1
milhão de cruzados: "Foram gastos em missas às almas, esmolas e outras obras
pias para que Deus nos desse a vitória, que muito mais valia".
Por todo o Brasil colonial não se pagavam os soldados e era comum vê-los
maltrapilhos, esmolando pelas ruas. Quando recebiam uma partida de botas, logo
as negociavam. Quem comprava eram os próprios fornecedores, que tornavam a
vendê-las ao exército. O ciclo se repetia várias vezes.
Santo do pau oco
A maior e mais completa história de impunidade dos tempos coloniais é a de
Manuel Nunes Viana, contada por Afonso d’Escragnolle Taunay, no livro História
das Bandeiras Paulistas. Português de nascimento, Viana chega pobre à Bahia no
início do século 18 e organiza a invasão das Minas do Ouro pelos emboabas,
provocando a guerra do mesmo nome contra os bandeirantes paulistas.
Num espaço de 20 anos, torna-se milionário, especulando com gêneros para o
abastecimento dos garimpos. Comete os seguintes crimes capitulados nas
Ordenações Filipinas: sonegação de impostos e organização da evasão em massa
do quinto real; chacina praticada no episódio conhecido como Capão da Traição;
auxílio a enfermos para se fazer herdeiro destes; assassinato em vários graus,
até da própria filha, e ocultação de cadáveres em lago dentro de sua
propriedade.
Essa "capivara" (como se diria na atual gíria policial) culmina com o crime
de lesa-majestade, por se fazer aclamar governador das Minas sem a chancela
real. Seria de supor que, com essa folha corrida, Nunes Viana fosse punido:
poucos anos antes, em São Luís do Maranhão, dois revoltosos haviam sido
sumariamente enforcados.
Chega a ser preso, porém, julgado pelas autoridades em Lisboa, termina não
apenas absolvido, como também elogiado e recompensado com títulos honoríficos
e pensão vitalícia. Obtém esse resultado ao subornar o infante dom Francisco,
irmão do rei dom João V, que tinha grande ascendência sobre o monarca e fama
de malvado: gostava de se postar na beira do Tejo para atirar com uma
espingarda nos marinheiros e pescadores dos barcos que passavam.
Hernâni Donato conta que a descoberta de ouro em Minas, Cuiabá e Goiás
provocou uma corrida de aventureiros para o Brasil. Com medo de que Portugal
ficasse despovoado, o rei proibiu a imigração dos "bons", permitindo que para
cá viessem, no dizer de Taunay, "uma récua de vagabundos, ladrões e inimigos
do trabalho, entre eles bastantes clérigos de má fama". Estes protagonizariam
os casos do "santinho do pau oco", para contrabando de ouro em pó no interior
das estátuas, o que levou à expulsão em massa de frades das Minas em 1711.
Um quinto do ouro pertencia ao rei, os famosos "quintos reais", e para
garanti-los o monarca enviou para Cuiabá em 1727 o capitão governador de São
Paulo, Rodrigo César de Menezes. Este despachou por canoa o equivalente a 50
quilos de ouro com destino ao Rio de Janeiro e dali para Lisboa, onde dom João
V em pessoa foi recebê-los. Os caixotes chegaram bem pesados e fechados, com
os selos reais intactos, mas quando foram abertos o ouro havia se transformado
em chumbo de caça. Houve escândalo, inquérito e um processo que se arrastou
"com propositada lentidão por quem tem o seu cargo", de acordo com Luiz Vahia
Monteiro, governador da capitania do Rio de Janeiro e cronista da época. Entre
os suspeitos, as mais altas autoridades e governantes. Ninguém foi punido.
Quando dom João VI refugiou-se no Brasil e o elevou à condição de reino
unido a Portugal, a impunidade, em vez de diminuir, aumentou, em que pese não
haver mais um oceano entre o furto e o julgamento final dos acusados. Caso
célebre desse tempo foi o do tesoureiro-mor do rei, Francisco Bento Maria
Targini, barão e depois visconde de São Lourenço. Consta que comprou mantas de
um fornecedor inglês para o exército, cortou-as ao meio e as revendeu ao
governo pelo dobro, num superfaturamento de fazer inveja a muitas obras
públicas atuais. Seus feitos foram cantados em prosa e verso, como nesta
quadrinha: "Quem furta pouco é ladrão/ Quem furta muito é barão/ Quem mais
furta e esconde/ passa de barão a visconde".
Para inglês ver
Já no Brasil independente ocorre o caso do ouvidor Cândido Ladislau
Japiassu, autoridade judiciária máxima da província de São Paulo, acusado de
inúmeras irregularidades no exercício do cargo e também de ser o mandante do
assassinato do jornalista italiano Líbero Badaró, morto a tiros em 20 de
novembro de 1830, na frente de sua casa, na rua que hoje leva seu nome, no
centro da cidade. Badaró criticava no semanário "O Observador Constitucional",
além do ouvidor, o bispo diocesano e presidente da província de São Paulo, dom
Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, e também o imperador Pedro I. O único
condenado pela morte de Badaró foi o lavrador alemão Henrique Stock, que
morreu na prisão perpétua jurando ser inocente. Após se refugiar na casa do
comandante militar com medo da ira popular, o ouvidor escapou para a corte no
Rio de Janeiro, onde foi julgado por seus pares num tribunal superior e
absolvido.
Entre 1830 e 1850 o Brasil foi signatário de tratados inspirados pela
Inglaterra que vedavam o tráfico de escravos. Mas o respeito a essas normas se
fazia apenas nos portos oficiais, gerando a famosa expressão "para inglês
ver". Em portos clandestinos foram desembarcados meio milhão de africanos
durante a era dos "negreiros no poder", como descreve em seu livro A Corrupção
no Brasil o jornalista Pedro Cavalcanti, para quem esse período permanece
inigualável em matéria de ilegalidades cometidas pela elite no comando do
país.
Os dois maiores traficantes negreiros do Rio de Janeiro foram Bernardino de
Sá e Manuel Pinto da Fonseca. O primeiro, apesar de ter seu nome numa lista de
traficantes e falsários estabelecida pela polícia, tornou-se barão de Vila
Nova do Minho em Portugal, título reconhecido oficialmente no Brasil por Pedro
II. O segundo jogava cartas com o chefe de polícia e era cavaleiro da Ordem da
Rosa.
Entre 1836 e 1849 as fortalezas de São João e Santa Cruz, nos dois lados da
baía da Guanabara, foram transformadas por seus comandantes em depósito de
escravos, com a conivência do ministro da Guerra. A marinha também fechou os
olhos ao tráfico, postura que só mudou em 1850, quando barcos de guerra
ingleses invadiram portos brasileiros para apresar navios negreiros. Em
Paranaguá, em 1840, o próprio chefe de polícia era o principal mercador de
escravos.
O fim do tráfico, na década de 1850, liberou 16 mil contos de réis num meio
circulante de 36 mil, dando início ao que Joaquim Nabuco chamou, em sua obra
Um Estadista do Império, de "união incestuosa entre finanças públicas e
iniciativa privada".
A utilização generalizada do crédito em substituição ao capital quebra em
1864 a casa bancária Souto. Na esteira vão à falência mais de cem grandes
estabelecimentos comerciais. Nessa época Irineu Evangelista de Sousa, o barão
de Mauá, apesar de ser o mais destacado empresário do Império, não hesitou em
se valer de sua cadeira na Câmara dos Deputados para um ato explícito de
"advocacia administrativa" (a precursora do lobby) em causa própria: pediu uma
garantia de juros de 7% em favor da estrada de ferro de Petrópolis, de sua
propriedade.
Segundo Raymundo Faoro, em sua obra Os Donos do Poder, as concessões para
as estradas de ferro, navegação de cabotagem e fluvial, do cabo telegráfico
submarino e para a iluminação a gás do Rio de Janeiro eram obtidas assim:
"Formigavam nos ministérios, corredores da Câmara e do Senado, magotes de
aventureiros, intermediários e empresários nominais, em busca das cobiçadas
concessões, dos fornecimentos, das garantias de juros, das subvenções para o
lucro rápido e sem trabalho das transferências".
A "caixinha" de Ademar
Proclamada a República, o ministro da Fazenda de Deodoro da Fonseca,
ninguém menos do que o impoluto Rui Barbosa, desencadeou a especulação
financeira do Encilhamento, que estimulava a formação de sociedades anônimas,
autorizadas a emitir notas bancárias. A exigência de lastro em libras
esterlinas ou apólices da dívida pública não era obedecida, e milhares de
pessoas perderam suas economias em bancos que as punham em circulação e depois
estouravam como bolhas.
Outra marca da República Velha foram as eleições "a bico de pena". Quando o
deputado baiano Augusto de Freitas mostrou-se preocupado diante da
proliferação de atas falsas, o então presidente da República, Campos Sales, o
tranqüilizou: "Seu de Freitas, a coisa é essa mesma - depois as autênticas,
feitas assim clandestinamente, são melhormente transcritas, com boa
caligrafia, podendo-se lê-las com facilidade".
Havia também a "degola", em que comissões de notáveis, a pretexto de
expurgar as eleições de fraudes, faziam o contrário, invalidando candidatos
eleitos legitimamente. As "degolas" eram coordenadas em nível federal por José
Gomes Pinheiro Machado, político gaúcho que, cercado certa vez por uma
multidão enfurecida, ordenou ao cocheiro: "Vamos. Não tão depressa que pareça
fuga, nem tão devagar que pareça provocação". Acabou assassinado no hotel em
que morava no Rio de Janeiro. Exemplo de "degola" praticada no governo
Rodrigues Alves: o deputado Antônio Bittencourt, com 7.334 votos, foi
substituído pelo barão de Ladário, que tivera 270 votos, mas ostentava "um
passado muito mais ilustre".
Na segunda metade do século 20, os casos de corrupção mais famosos antes do
golpe militar de 1964 foram os do governador paulista Ademar de Barros, e sua
famosa "caixinha", e de Moisés Lupion, governador do Paraná, que vendeu oito
praças públicas em Paranaguá e embolsou a verba destinada a uma colônia de
leprosos.
Ademar foi condenado a dois anos de cadeia e multa pelo caso de 20
caminhões e 11 automóveis comprados pelo governo do estado de São Paulo, mas
desviados para suas empresas (os caminhões), para si próprio (um Oldsmobile,
modelo Deluxe Club Sedan) e para parentes. Fugiu para o Paraguai e de lá para
a Bolívia, onde pediu asilo político. Só retornou quando o Supremo Tribunal
Federal (STF) cancelou a sentença condenatória da Justiça de São Paulo.
Em 1969 a organização guerrilheira VAR-Palmares, integrada pela hoje
ministra Dilma Rousseff, roubou da casa da amante de Ademar, Ana Capriglione
(que de acordo com o folclore político era chamada de "doutor Rui"), um cofre
no qual o político guardava US$ 2,4 milhões para gastos pessoais.
Ademar assumiu o slogan "rouba, mas faz" e a "caixinha", em uma marchinha
de propaganda eleitoral que dizia: "Quem não conhece?/ Quem nunca ouviu falar/
Na famosa caixinha do Ademar?/ Que deu livros, deu remédios, deu estradas/
Caixinha abençoada".
Trapalhadas militares
Os golpistas que empolgaram o poder em 1964 tinham um discurso contra a
corrupção, o que não impediu, de acordo com Pedro Cavalcanti, que se
envolvessem em "trapalhadas", conforme classifica em seu já citado trabalho
sobre a corrupção no Brasil, publicado originalmente sob a forma de uma série
de reportagens pelo jornal "O Estado de S. Paulo".
Uma delas foi o caso Capemi, a Caixa de Pecúlio dos Militares. Seu
presidente na época, general Ademar Messias de Aragão, se deixou levar pelo
canto de sereia de civis espertalhões que o induziram a enterrar US$ 250
milhões na Amazônia, para extrair madeira na área que seria inundada pela
represa de Tucuruí. A Capemi nunca entregou a madeira, quebrou, e o caso,
depois de passar por várias instâncias da Justiça, acabou em pizza.
Outro episódio foi o que começou com a corretora Laureano, que de acordo
com um relatório de 1979 do Banco Central vendia títulos inexistentes e
alienava papéis custodiados. Para salvá-la, o governo recorreu aos préstimos
do empresário Assis Paim Cunha, proprietário do grupo financeiro e comercial
Coroa-Brastel (então um dos maiores do país). Interessado em agradar o
governo, mas sem dinheiro em caixa, Paim emitiu letras de câmbio sem lastro e
cheques sem fundos, armando uma bomba que chegou a US$ 650 milhões e explodiu
em junho de 1983. Em sentença de primeira instância, Paim foi absolvido em
1989 por um juiz carioca, que jogou a culpa no Banco Central.
Essas "tenebrosas transações", como as classificou Chico Buarque na música
Vai Passar, logo seriam obscurecidas na redemocratização do país pelos
escândalos Collor, Anões do Orçamento, Banestado, com sua caudalosa evasão de
divisas, e o mais recente, do Mensalão e derivados. Nas diferentes Comissões
Parlamentares de Inquérito (CPIs) formadas para apurar esses casos, corruptos
foram apontados, alguns políticos perderam seus mandatos, mas nenhum foi
preso. Corruptores, esses jamais apareceram.
Meu prezado, pelo meu nome não posso me furtar que sou parente sim (sobrinho) do General Ademar Messias de Aragão, que ao assumir a presidência da Capemi, lá já me encontrou pois eu era funcionário, "enfatizo" eu já era funcionário antes dele assumir a presidência da Capemi nos idos da década de 80, quando do falecimento do então Presidente Cel Rolemberg. Ledo engano seu em pensar que o Gen Aragão foi induzido a alguma coisa.....os fatos são muito diferentes do que sua "vã filosofia pode imaginar". Ele herdou um grupo empresarial (do qual foi seu fundador junto com o Cel Rolemberg) com 6 empresas constituidas e apenas 3 funcionando, e o grupo chegou durante a sua gestão a 27 empresas. O caso Tucuruí, foi uma bem planejada ação, para outros propósitos, e planeja por militares com ajuda de alguns civis, então seus cúmplices. Infelizmente o caso é para se escrever um livro....sugiro ao autor que pesquise mais para poder falar sobre este assunto...senão...em boca fechada não entra mosca....