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Dirceu Treina para Presidente PDF Imprimir E-mail
Escrito por Villas-Bôas Corrêa   
Friday, 01 October 2004

Pelo caminho cruzado de razões opostas, vice e assessor quanto mais calado, discreto e invisível, melhor.


O vice não tem função, choca a expectativa da chamada para substituir o titular, por curtos ou longos períodos ou para o sonho da efetivação até o fim do mandato. Então, o mundo abre o sorriso da ventura, a vaidade sobe à cabeça até o cume da montanha de Mombaça.

O destino do vice segue atrelado ao do titular. No caso do assessor há diferenças de níveis. A hierarquia começa pelo chefe da Casa Civil da Presidência da República e rola de morro abaixo até o fundo da mina, ainda assim com encantos que gratificam os felizardos que se destacam da massa dos anônimos.

O presidente Lula não pode se queixar de estar mal servido pelo vice José de Alencar, noves fora sua teimosia em resmungar contra os juros nas alturas que travam a retomada do desenvolvimento econômico e intimidam o mercado.

No caso do poderoso ministro José Dirceu as coisas se complicam. Ele compõe com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a dupla de maior prestígio e notoriedade no gigantesco elenco ministerial. Com as diferenças de temperamento que singularizam a conduta de cada um.

O ministro Palocci fala quase tanto quanto seu colega José Dirceu. Ao seu jeito manso, em médio tom, em todas as oportunidades e para todos os auditórios que o convidem para expor os êxitos da política econômica e desfazer os embaraços de alguns índices que mancham o azul celestial da bem-aventurada temporada, depois de meses de sufoco.

Como há estatísticas e pesquisas para todos os paladares, os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD), relativos a 2003, divulgados pelo IBGE, que confirmam a queda, pelo sétimo ano consecutivo, da renda do brasileiro, com desanimadores 7,4% no primeiro ano do mandato de Lula.

E o aumento de 8,5 milhões de desempregados soam o alarme, logo abafado pela badalação dos mais 857.418 empregos com carteira assinada. Portanto, o ministro Antonio Palocci, com a conversa macia e envolvente, tem desculpa para tudo e encontra saída para os apertos sazonais.

É inteiramente diverso o caso do ministro José Dirceu, que foge à tradição das eminências pardas da nossa crônica republicana. A norma não é a saliência falante, o destaque espalhafatoso da provocação de polêmicas, o evidente prazer em aparecer na mídia, a militância na campanha política que ornamentam a figura controvertida do substituto do presidente Lula, uma espécie de clone para suprir as omissões do eleito.

Exemplos recentes retratam o abismo da discrição própria da delicadeza do cargo com açodamento do modelo lulista. O mineiro Rondon Pacheco deixou, no governo do presidente Costa e Silva, o traço de uma sombra de dedicação integral à rotina burocrática do exame de processos e exame de assuntos a serem levados ao despacho presidencial.

No rodízio dos generais-presidentes, o ministro Leitão de Abreu passou pelos governos Médici e Figueiredo, dissimulando a sua influência notória com a mudez e o recato de monge tibetano. O ministro Golbery do Couto e Silva atuou nos bastidores na montagem da abertura nos governos Geisel e do inesquecível João Figueiredo, até a farsa do inquérito do Riocentro, mas só falava em surdina, atrás da cortina do sigilo da fonte.

Chefe da Casa Civil como o ministro José Dirceu só é possível no original modelo do governo do presidente Lula. Desafeto da insipidez da burocracia, detesta despachos isolados com ministros, assessores e diretores, substituídos pelas reuniões nas quais exercita a sua facilidade no improviso. Fala muito, ouve pouco. Viaja todas as semanas. Viaja e discursa no exercício da sua liderança do bloco da pobreza dos paises subdesenvolvidos e em desenvolvimento.

No vazio, o ministro José Dirceu afaga o ego e cultiva, no canteiro da esperança, as flores da ambição de subir o último degrau da escada. Afinal, um dia, Lula deixará vaga a cadeira no gabinete do Planalto. E o PT anda numa pobreza de quadros de dar dó e de açular pretensões ostensivas.

Quem é o segundo só pode só pode aspirar a ser o primeiro. E único.

 

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