Há momentos em que a melhor coisa que pode existir na política é um governo previsível. O depoimento do Ministro Antônio Palocci felizmente não fugiu a esta idéia e deixou claro que continua sendo o alicerce remanescente da credibilidade que resta ao governo.
O tom do depoimento foi exatamente o que o mercado precisava ouvir: uma declaração sem rodeios e sem surpresas; similar ao das declarações do ministro na ocasião em que começaram a ser ventiladas as primeiras denúncias sobre seu suposto envolvimento com fraudes na Prefeitura de Ribeirão Preto. Culpado ou inocente, a desestabilização de Palocci seria um risco desnecessário mesmo para a bancada oposicionista, de olho no processo sucessório. Foi um tiro pela culatra que ajudou a fortalecer a posição do ministro que, por sinal, não perdeu a oportunidade de colocar suas certezas sobre a política econômica, não obstante a opinião contrária de alguns críticos que o acusam de conservadorismo excessivo. No fim, um teste bem sucedido da eficiência da blindagem ministerial. Demonstração rara no PT. Felizmente para nós, que já nos desacostumamos com o troca-troca de ministros comum nos períodos de profunda instabilidade econômica, a capacidade de equilibrismo de Palocci corroborou para evidenciar pelo menos três pontos importantes. Primeiro: a política econômica continuará seguindo seu caminho, para o bem ou para o mal, razoavelmente independente das turbulências no plano político-partidário, o que sem dúvida indica um certo grau de maturidade efetivamente alcançado. Segundo: ficou definitivamente claro que inexiste qualquer vestígio de coerência ou de articulação sadia do Planalto para gerência de crises. Não bastasse o alter-ego de José Dirceu na Casa Civil persistir na agressão contra a própria carne, mais uma vez Lula demonstrou uma passividade inconseqüente para dirimir conflitos internos ao não fazer qualquer menção a Palocci durante Terceira Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, na qual discursou sobre política econômica. Foi no mesmo dia em que Palocci prestava seu depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Atitude muito diferente daquela adotada para defender companheiros históricos, conhecidas cartas fora do baralho, ainda que isso não lhe rendesse qualquer vantagem ou incremento de capital político. Terceiro: a insistência do Planalto em negligenciar a defesa enfática de setores que ainda asseguram alguma credibilidade ao governo, corrobora apenas para a manutenção da imagem depreciada da gestão petista que, já de longe, se caracteriza, peculiarmente, como obcecada em ser a oposição de si mesma.
Caiuby Freitas, é cientista político. E-mail:
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