|
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e a sua equipe abriram o
"Dicionário da Língua Portuguesa" com citações de
Pablo Neruda, Gilberto Amado e Samuel Johnson.
Gilberto declara a sua dependência do dicionário:
"Escrevo com o dicionário. Sem dicionário não posso
escrever - como escritor". No "Dicionário Houaiss da língua
portuguesa", Antônio Houaiss e os seus colaboradores também
invocaram pensamentos de todos os tempos sobre os léxicos.
Lá estão Garcia D'Orta, Horácio, Ludwig Wittgenstein e Vergílio
Ferreira. Wittgenstein: "Os limites da minha linguagem
denotam os limites do meu mundo". E tantas outras citações
poder-se-iam ter repetido, de autores que falaram do dicionário
com respeito hierático, admiração, deslumbramento.
Veja-se esta, colhida no "Dicionário Universal de Citações",
de Paulo Rónai, na qual José Lins do Rego diz que o dicionário
"tem de ser paternal, simples, dando-nos o valor e o
significado das coisas, sem pretensões, capaz da mais franca
intimidade, generoso, probo, fácil".
Merecidas loas a esse instrumento de formação da linguagem e
de preservação dela, indispensável, não só aos literatos,
como, igualmente, a todas as pessoas que, de qualquer modo,
precisam comunicar fatos, idéias, sentimentos. Com os dicionários,
põem-se as palavras lá no alto, claras e brilhantes como
estrelas, como aconselha Vieira.
Ora é a simples grafia correta da palavra, especialmente
daquelas que não se nos fixa o bestunto - e aqui está um termo
a ser procurado. Em silêncio, com discrição, o dicionário
explicará o significado dele e dos vocábulos vizinhos, onde
baterem os olhos.
Abrirá o seu mar infindo à navegação do consulente,
desbravador dos mistérios da língua, descobridor das suas
pulcritudes. Feínha embora, está lá essa palavra porque os
dicionaristas a dicionarizaram, entronizando-a na língua, numa
presença imarcescível - e não será melhor verificar a grafia
correta desse adjetivo, no qual o s traiçoeiro bem pode vir
depois do r?
Viva! Fui ver, acertei e ainda o descobri, num heróico de Cláudio
Manuel da Costa: "A imarcescível hera, o verde louro"
(herói foi ele; heróico o seu decassílabo). Ora a explicação
da palavra, com as suas diferentes acepções, segredos, alcance
e os sinônimos, perfeitos e imperfeitos. Tudo se encontra nos
dicionários, ou quase tudo.
Palavras novas já lá estão; palavras velhas ainda estão lá
- e juro que me saíram espontâneos esses dois versos de nove sílabas
(por que não nonassílabos?) que, segundo a gramática, nem são
gregorianos nem jâmbicos, pois não acentuados na 3ª, 6ª e 9ª
sílabas, porém modernos, pois tônicos na 4ª e 9ª.
Medrar, no sentido de recuar amedrontado; peitar, na acepção
de enfrentar. Roga-se a mais medonha das pragas ao dicionarista
que, um dia, incorporar anglicismos da linguagem de uns papalvos
do mercado, como estartar (de start), numa língua onde se
encontram começar, iniciar, principiar; bidar (do inglês bid),
no significado de licitar; bilar - Santo Deus! - equivalente a
mandar a conta.
Deve-se pôr cuidado na seleção dos neologismos. Espera-se
que os dicionários não coonestem as porcarias da linguagem dos
e-mails. Fiquem neles os arcaísmos, documento da constante evolução
do idioma oficial do Brasil, que é a língua portuguesa,
conforme o art. 13 da Constituição.
Nas suas petições incomparáveis, Dario de Almeida Magalhães
empregava substantivos como moxinifada, que usei, de brincadeira,
num bilhete a Alberto Dines e o levou asinha ao léxico (parênteses
para recomendar o livro recém-lançado de Dines, na realidade
livro diferente das duas edições anteriores.
Crítico severo, Alberto Venancio Filho diz que, no gênero,
Morte no paraíso a tragédia de Stefan Zweig
é uma das melhores biografias escritas no Brasil). Há quanto
tempo não se escrevem bragas, no sentido de calças,
sobrevivente em braguilha; louçania, taful? De novo as petições
do Dr. Dario com expressões como "deu às de
vila-diogo", ou "cantou a palinódia".
Vez por outra, os dicionários cochilam, ou não cobrem toda a
extensão do vocábulo. Ouvi falar que certo dicionário espanhol
apresentava "ajabebe" como "el mismo que
jabebe", e "jabebe" como "el mismo que
ajabebe".
Nehemias Gueiros contava que o seu pai, pastor no Recife,
presenteava os fiéis com dicionários baratos, ao alcance do seu
bolso. Um dia, ouviu de um deles: "Pastor Jerônimo, eu não
vou mais estudar no seu dicionário, não. É um tal de lugúbre,
vide funébre; funébre, vide lugúbre.
Assim não dá. Peroá, o mais comum dos peixes dos verões
da minha infância, em Marataíses, a praia dos veranistas de
Cachoeiro de Itapemirim (os locais detestavam o gentílico
maratimba), aparece, no "Laudelino Freire", apenas como
"peixe fluvial". Não é, ao menos nas minhas bandas,
onde é marítimo e fica mais próximo da descrição de cangulo,
oferecida pelo "Aurélio", peixe-porco no litoral
fluminense.
Amaro Martins de Almeida lembrava o comerciante de Campos, que
mandou um empregado comprar um dicionário e logo o devolveu,
pela falta do índice. Pois saibam quantos estas linhas virem que
tem índice remissivo o "Dicionário de Sinônimos" de
Antenor Nascentes. Confira-se a 3ª edição, Nova Fronteira,
1981, página 369 e seguintes.
Os dicionários não constituem apenas uma utilidade, mas também
fonte de prazer estético, para os lexicófilos. Inefável o
gosto do manuseio deles, especialmente os clássicos, para
aprender, conferir, relembrar, comparar, como se, aberto um cofre
de moedas, se examinasse e selecionasse uma após a outra.
Há exagero na afirmação de Antenor Nascentes, para quem
"A língua portuguesa tem dois dicionários: o de Morais e o
de Caldas Aulete. Sem dúvida, o "Caldas Aulete"
converteu-se em padrão da arte de dicionarizar, tanto quanto, em
língua espanhola, o "Corominas", ou o majestoso
"Dicionário da Real Academia Espanhola".
Onde ficam, porém, Cândido de Figueredo, da predileção de
Rui Barbosa, ou o completo Laudelino Freire, dois léxicos
primorosos, do lado de lá e de cá do Atlântico? Na atualidade,
o Houaiss, excelente embora, ainda não conquistou as
galas de dicionário do dia, como é o Aurélio, cuja
fama premia a dedicação do dicionarista que lhe dá o nome.
No tocante aos bilíngües, não se podem esquecer, para socorro
de quem fala português, dicionários célebres, como o
Parlagreco, para italiano, e o velho Domingos de Azevedo, para o
francês. O Langenscheidt ajuda quem fala inglês a decifrar o
alemão. Quanto aos de latim, nunca se podem dispensar o Torrinha,
favorito dos alunos de latim, quando latim se estudava, tanto
quanto, para estudos maiores, o "Diccionário Manual
Griego-Latino-Español", dos padres escolápios.
Não se deve esquecer o "Saraiva", plasmado no
Quicherat, ambos ensinando a etimologia dos vocábulos
latinos. Nesse campo, parece insuperável o Dictionnaire Étymologique
de la Langue Latine, de Ernout e Meillet, que desvenda a
formação dos vocábulos latinos. Outro dicionário francês, de
Henri Goelzer, supre a necessidade de um léxico que dê o sinônimo
latino das palavras de uma língua viva, no caso o francês.
Encantam os dicionários temáticos, como este pitoresco
"Dictionnaire de symboles", dedicado a mitos, sonhos,
costumes, gestos, formas, figuras, cores, números, pacientemente
recolhidos por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.
Ele é meu acompanhante neste fim de semana de mar grosso e
cerração densa, e sugeriu o assunto da coluna de hoje.
Durante algum tempo, resisti à tentação de especular o preço
da mais completa edição do OED - Oxford English Dictionary,
sedutoramente exposta na vitrine da Oxford University Press, na
avenida Madison, em Nova York. Imaginava custar alguns milhares
de dólares. Finalmente, sucumbi e telefonei à editora. Tive a
surpresa do preço acessível.
Por menos de mil dólares, frete aéreo incluído, os 20
volumes pousam na minha estante. Aliás, há uma longa linha de
dicionários Oxford, de todos os formatos e assuntos,
incluídos nela o preciso Dicionário Etimológico e o
"Modern Slang", dedicado às gírias.
Da mesma grei, os dicionários Webster, a começar
pelo "Webster's Third New International Dictionary". E,
em língua francesa, destacam-se, além do clássico Littré,
os Robert, grandes e pequenos, e domina o Larousse,
tradicionalíssimo, desdobrado em diferentes espécies.
Certa vez, para presentear o meu pai com um dicionário de gírias,
quis comprar, numa livraria de Paris, o "Larousse des
Argots". Tropeçou a minha língua. Pedi um
"Dictionnaire des Escargots". Supondo compreender-me, a
vendedora me trouxe sorridente um volume do "Larousse
gastronomique".
nomínimo
|
J᧴se Reis de Oliveira