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A Mangueira (Zona Norte do Rio) ainda guarda parte da
memória escravagista brasileira
Do Morro da Mangueira (foto abaixo), antigo espécie de quintal da Família Imperial, se vê da Tijuca até a Quinta da Boa Vista. O morro, teve sua área histórica praticamente destruída, mas, ainda guarda vestígios de uma das três antigas senzalas que no século 19 abrigaram os escravos do Imperador.

No local, existem hoje cerca de 50 casas. Apenas três mantêm
as paredes externas originais e uma única preservou uma
divisória interna. Nas demais a alvenaria substituiu
inteiramente o sopapo.
As transformações na área começaram logo depois da Abolição
da escravatura, em 1888. Cada senzala, que ocupava cerca de
100m2, foi dividida em lotes entre várias famílias.
A partir daí a descaracterização histórica foi se agravando.
Em busca de privacidade, as famílias ergueram paredes
internas com tijolos feitos do mesmo barro que já revestia a
parte externa das casas. Mas o pé direito, de quatro metros,
dificultava o trabalho. E as divisões internas acabaram medindo
apenas 3m de altura, no máximo.
Parecia um barracão cheio de galerias, lembra Celso
da Silva Peres, de 40 anos, líder comunitário e um dos poucos a
conhecer a história do lugar. Para impedir que houvesse
invasões entre os lotes, as famílias colocavam
ripas de madeira que iam do topo da parede até o teto.
Destruído pelo Favela-Bairro
A doméstica Marina Lúcia dos Santos, de 62 anos, que há 40
mora em uma dessas casas, nem sabia que ali havia sido senzala.
Ela conta que a parede interna de sua casa só foi mantida por
falta de recursos.
Se eu tivesse condições de construir uma casa melhor aqui
eu construiria. A preservação daria lugar ao meu
conforto, admite. Marina, porém, valoriza a memória do
morro: Quando é coisa antiga é melhor preservar para que
os mais jovens saibam o que houve.
Quem parece não dar o menor valor à memória histórica da
Mangueira é o poder público. Recentemente, por exemplo, segundo
Celso, o Favela-Bairro destruiu, durante suas obras, os tanques
onde as mucamas do Palácio Imperial lavavam roupa. E um antigo
baú, onde eram guardadas argolas e correntes usadas para prender
os escravos, simplesmente desapareceu.
As duas únicas áreas preservadas foram uma curta estrada de
tijolos e um antigo muro de pedra, que servia de contenção para
os possíveis deslizamentos de terra.
Pique de imperador
Celso, como líder comunitário, tenta preservar todo esse
patrimônio através de fotos e depoimentos de moradores que
conhecem a história, relatada de geração em geração. Até os
18 anos, ele próprio morou no que restou de uma dessas
construções e batalha firme para difundir a importância
cultural da comunidade.

Celso: histórias de fantasmas
perto do muro de pedra, resquício da época da escravidão
A Mangueira era o quintal da Família Imperial, onde D.
Pedro II também brincava de pique. Ele ainda gostava de vir aqui
no alto do morro, de onde tinha uma vista privilegiada de quase
toda a cidade. A visão era de 360 graus.
Era possível ver a Quinta, o Centro da cidade e bairros da
Zona Norte, como a Tijuca, revela. O morro era uma extensão
do Palácio de São Cristóvão, residência da Família
Imperial, na Quinta da Boa Vista.
Segundo o líder comunitário as senzalas ficavam no caminho para
o alto do morro. No ponto mais elevado ficavam os tanques de
lavar roupas.
A partir do depoimento de sua avó, uma filha de ex-escravos que
morreu aos 86 anos, Celso ficou sabendo também qual era a técnica
utilizada na construção das senzalas. Primeiro, era levantada
uma trama de madeira, posteriormente recoberta por uma mistura de
barro vermelho abundante no local , água e uma espécie
de capim para dar firmeza. Por último colocava-se o teto.
Essa mistura de barro, água e capim era grudada na trama de
madeira com as mãos, o que fez com que a técnica ficasse
conhecida como sopapo. Apesar de rudimentar, o método se mostrou
bastante eficiente.
Pedaço de madeira é relíquia

Algumas casas ainda mantêm
paredes de sopapo das antigas senzalas
Celso sonha conseguir verba para resgatar a história da
comunidade. Sem investimento tudo se torna ruína e ninguém
quer morar em ruínas, explica.
As outras duas senzalas tiveram um fim ainda mais triste. De uma
nada resta. Da outra, que ficava no Largo do Careca, sobrou um único
pedaço de madeira, guardado como relíquia pela agente comunitária
Euridice Peixoto, de 40 anos. Guardei para fazer uma doação
a algum museu. Aquilo é um pedaço da história, não podia
deixar tudo se perder, frisa.
Ela morou a vida inteira na antiga senzala. Só se mudou
recentemente, depois que sua casa foi parcialmente destruída
pelo fogo. Durante as obras de reconstrução, Euridice encontrou
a madeira e outros vestígios do passado.
O assoalho era todo feito de pedras, iguais às do muro de
contenção. E o mais legal é que nós achamos por trás de uma
parede uma porta de madeira bem antiga. Eu acho que essa porta
era para a comunicação interna da senzala, sugere.
Gemidos de fantasmas
Além da importância cultural, esses pontos do
Morro da Mangueira já produziram muitas histórias de fantasmas.
Celso conta que no lugar onde havia a bica do Caldeira, uma das
primeiras fontes de abastecimento de água da comunidade, sempre
se ouvia alguém gritando: Olha a água, olha a água!.
Quando chegavam perto, não havia ninguém. Outras vezes uma
mulher negra, vestida de baiana, era vista lavando roupas e
cantando.
O muro de contenção de pedras, que fica um pouco acima de onde
ficava a bica, também teria seus fantasmas. Os mais antigos da
comunidade relatam que durante a Quaresma sempre passava uma
procissão de pessoas gemendo e arrastando correntes.
Apesar de a bica não existir mais e de hoje morar muita gente
perto da contenção, Celso continua a passar por ali olhando
para todos os lados. Quando eu e meus primos íamos para o
samba, não subíamos à noite. Ficávamos lá embaixo até o dia
amanhecer só para não passar por aqui de madrugada,
explica ele, precavido.
Eu não acredito em nada do que as pessoas dizem. Nunca vi
nem ouvi nada disso, graças a Deus, declara Marina, tão
temerosa que prefere mudar de assunto.
Já Euridice tem uma postura diferente. Nunca senti medo
dessas coisas. O medo está dentro de você. Vou temer o quê?
Espíritos? Eles não fazem mal a ninguém, acredita.
A agente comunitária conta que, desde pequena, ela e sua mãe
sempre viram vultos de pessoas sorrindo ou chorando e ainda
ouviam gemidos de dor dentro de casa.
Já senti até uma mão pesada no meu ombro. Tem gente
que não acredita, mas eles são espíritos que sofreram e ainda
continuam por lá, afirma Euridice.
vivafavela
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