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Escrito por Guaraci Gonçalves (Mangueira) e Silvia Noronha   
Friday, 01 October 2004

A Mangueira (Zona Norte do Rio) ainda guarda parte da
memória escravagista brasileira


Do Morro da Mangueira (foto abaixo), antigo espécie de quintal da Família Imperial, se vê da Tijuca até a Quinta da Boa Vista. O morro, teve sua área histórica praticamente destruída, mas, ainda guarda vestígios de uma das três antigas senzalas que no século 19 abrigaram os escravos do Imperador.

No local, existem hoje cerca de 50 casas. Apenas três mantêm as paredes externas originais e uma única preservou uma divisória interna. Nas demais a alvenaria substituiu inteiramente o sopapo.

As transformações na área começaram logo depois da Abolição da escravatura, em 1888. Cada senzala, que ocupava cerca de 100m2, foi dividida em ‘lotes’ entre várias famílias. A partir daí a descaracterização histórica foi se agravando.

Em busca de privacidade, as famílias ergueram paredes internas com tijolos feitos do mesmo barro que já revestia a parte externa das casas. Mas o pé direito, de quatro metros, dificultava o trabalho. E as divisões internas acabaram medindo apenas 3m de altura, no máximo.

“Parecia um barracão cheio de galerias”, lembra Celso da Silva Peres, de 40 anos, líder comunitário e um dos poucos a conhecer a história do lugar. Para impedir que houvesse invasões entre os ‘lotes’, as famílias colocavam ripas de madeira que iam do topo da parede até o teto.

Destruído pelo Favela-Bairro

A doméstica Marina Lúcia dos Santos, de 62 anos, que há 40 mora em uma dessas casas, nem sabia que ali havia sido senzala. Ela conta que a parede interna de sua casa só foi mantida por falta de recursos.

“Se eu tivesse condições de construir uma casa melhor aqui eu construiria. A preservação daria lugar ao meu conforto”, admite. Marina, porém, valoriza a memória do morro: “Quando é coisa antiga é melhor preservar para que os mais jovens saibam o que houve”.

Quem parece não dar o menor valor à memória histórica da Mangueira é o poder público. Recentemente, por exemplo, segundo Celso, o Favela-Bairro destruiu, durante suas obras, os tanques onde as mucamas do Palácio Imperial lavavam roupa. E um antigo baú, onde eram guardadas argolas e correntes usadas para prender os escravos, simplesmente desapareceu.

As duas únicas áreas preservadas foram uma curta estrada de tijolos e um antigo muro de pedra, que servia de contenção para os possíveis deslizamentos de terra.

Pique de imperador

Celso, como líder comunitário, tenta preservar todo esse patrimônio através de fotos e depoimentos de moradores que conhecem a história, relatada de geração em geração. Até os 18 anos, ele próprio morou no que restou de uma dessas construções e batalha firme para difundir a importância cultural da comunidade.

Celso: histórias de fantasmas perto do muro de pedra, resquício da época da escravidão

“A Mangueira era o quintal da Família Imperial, onde D. Pedro II também brincava de pique. Ele ainda gostava de vir aqui no alto do morro, de onde tinha uma vista privilegiada de quase toda a cidade. A visão era de 360 graus.

Era possível ver a Quinta, o Centro da cidade e bairros da Zona Norte, como a Tijuca”, revela. O morro era uma extensão do Palácio de São Cristóvão, residência da Família Imperial, na Quinta da Boa Vista.

Segundo o líder comunitário as senzalas ficavam no caminho para o alto do morro. No ponto mais elevado ficavam os tanques de lavar roupas.

A partir do depoimento de sua avó, uma filha de ex-escravos que morreu aos 86 anos, Celso ficou sabendo também qual era a técnica utilizada na construção das senzalas. Primeiro, era levantada uma trama de madeira, posteriormente recoberta por uma mistura de barro vermelho – abundante no local –, água e uma espécie de capim para dar firmeza. Por último colocava-se o teto.

Essa mistura de barro, água e capim era grudada na trama de madeira com as mãos, o que fez com que a técnica ficasse conhecida como sopapo. Apesar de rudimentar, o método se mostrou bastante eficiente.

Pedaço de madeira é relíquia

Algumas casas ainda mantêm paredes de sopapo das antigas senzalas

Celso sonha conseguir verba para resgatar a história da comunidade. “Sem investimento tudo se torna ruína e ninguém quer morar em ruínas”, explica.

As outras duas senzalas tiveram um fim ainda mais triste. De uma nada resta. Da outra, que ficava no Largo do Careca, sobrou um único pedaço de madeira, guardado como relíquia pela agente comunitária Euridice Peixoto, de 40 anos. “Guardei para fazer uma doação a algum museu. Aquilo é um pedaço da história, não podia deixar tudo se perder”, frisa.

Ela morou a vida inteira na antiga senzala. Só se mudou recentemente, depois que sua casa foi parcialmente destruída pelo fogo. Durante as obras de reconstrução, Euridice encontrou a madeira e outros vestígios do passado.

“O assoalho era todo feito de pedras, iguais às do muro de contenção. E o mais legal é que nós achamos por trás de uma parede uma porta de madeira bem antiga. Eu acho que essa porta era para a comunicação interna da senzala”, sugere.

Gemidos de fantasmas

Além da importância cultural, esses pontos do Morro da Mangueira já produziram muitas histórias de fantasmas. Celso conta que no lugar onde havia a bica do Caldeira, uma das primeiras fontes de abastecimento de água da comunidade, sempre se ouvia alguém gritando: “Olha a água, olha a água!”.

Quando chegavam perto, não havia ninguém. Outras vezes uma mulher negra, vestida de baiana, era vista lavando roupas e cantando.

O muro de contenção de pedras, que fica um pouco acima de onde ficava a bica, também teria seus fantasmas. Os mais antigos da comunidade relatam que durante a Quaresma sempre passava uma procissão de pessoas gemendo e arrastando correntes.

Apesar de a bica não existir mais e de hoje morar muita gente perto da contenção, Celso continua a passar por ali olhando para todos os lados. “Quando eu e meus primos íamos para o samba, não subíamos à noite. Ficávamos lá embaixo até o dia amanhecer só para não passar por aqui de madrugada”, explica ele, precavido.

“Eu não acredito em nada do que as pessoas dizem. Nunca vi nem ouvi nada disso, graças a Deus”, declara Marina, tão temerosa que prefere mudar de assunto.

Já Euridice tem uma postura diferente. “Nunca senti medo dessas coisas. O medo está dentro de você. Vou temer o quê? Espíritos? Eles não fazem mal a ninguém”, acredita.

A agente comunitária conta que, desde pequena, ela e sua mãe sempre viram vultos de pessoas sorrindo ou chorando e ainda ouviam gemidos de dor dentro de casa.

“Já senti até uma mão pesada no meu ombro. Tem gente que não acredita, mas eles são espíritos que sofreram e ainda continuam por lá”, afirma Euridice.

 

vivafavela

Comentarios (3)Add Comment
...
escrito por Visitante, 2005-12-15 16:01:12
smilies/sad.gif
Carol
escrito por Visitante, 2006-06-04 18:03:04
:p O site foi mtu util na minha peskisa!!!
vlw!!
escravidao
escrito por daniela, 2006-10-10 20:59:21
eu acho um horro

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