Rival-BR: exemplo e futuro
Sagração da qualidade e da independência – tem sido isso o Prêmio Rival-BR e a festa da sua quarta edição, na última terça, não foi diferente, ainda mais que feita em torno de um nome de atuação múltipla e sempre alternativa no que diz respeito às coisas da cultura brasileira: Hermínio Bello de Carvalho.
Um dado interessantíssimo, a suscitar interesses sócio-antropológicos, reside no fato de muitos dos vencedores, dos espectadores e dos responsáveis pelo belíssimo show já terem direito de freqüentarem nos espaços públicos a “fila dos idosos”. Pois o Rival-BR foi uma magnífica demonstração às novas gerações de como é possível chegar à terceira idade mantendo coerência artística e política, lucidez e criatividade. Aqueles velhinhos que passaram pela Rua Álvaro Alvim nesse último dia 4 podem despertar inveja, nunca piedade; respeito e carinho, nunca comiseração nem dependência.
Como Hermínio vem de longe e era sobre ele o espetáculo dirigido por Túlio Feliciano, claro que voejamos todos em torno de Pixinguinha, Cartola, Jacob do Bandolim, Elizeth, Aracy de Almeida, Aracy Côrtes e Clementina de Jesus e outras saudades. Não foi esse, contudo, o tom da noite comandada por Ângela Leal e a filha Leandra.
Ao contrário, havia otimismo no ar e o próprio poeta, ao apontar a importância da Escola Portátil de Música, vislumbrava o futuro, um futuro que vem ajudando a construir ao lado de artistas com o desprendimento e o idealismo de Luciana Rabello, Maurício Carrilho, Celsinho do Pandeiro, Jayme Vignoli (acresça-se a eles a compreensão dos professores Rick Ventura, Luiz Otávio Braga e Roberto Gnattali, abrindo à Escola as portas da UNIRIO, na Praia Vermelha).
Lindo ver o investimento que fazem nesse futuro artistas com mais de meio século de excelentes serviços prestados à cultura brasileira, talentos como os de Dona Inove Lara (com que musicalidade ela pôs melodia num poema de Mário de Andrade!), Zezé Gonzaga (uma afinação que vai da GE a Valzinho), Elton Medeiros (um lorde, elegantíssimo aos 75 anos) e Alayde Costa, que recebeu o prêmio de melhor cantora, suplantando Alcione e Nilze Carvalho, e chorou ao receber o troféu das mãos de outra grande intérprete, Áurea Martins: “em mais de cinqüenta anos de carreira, esse é o primeiro prêmio que eu ganho”.
No elenco de intérpretes das obras de Hermínio, que também já setentou, estava ainda Zélia Duncan, dente de leite nessa turma – mas quanto lhe terá valido estar ali, emprestando a voz cada vez mais grave à comemoração, e convivendo com o que de melhor a música brasileira é capaz de produzir?
Na retaguarda, o grupo liderado por Paulão 7 Cordas era bastante íntimo do que de melhor se toca por aí, em qualquer idade: Paulino e Celsinho na percussão, Márcio de Almeida no cavaco, Maurício (bandolim), Paulo Aragão no violão, Eduardo Neves nos sopros e Fernando Merlino ao piano.
Outros “mais velhos” igualmente honoráveis espalhavam-se pela platéia, ativíssimos como o octogenário Nelson Sargento e o septuagenário Walter Alfaiate, que curtiram cada nota como se tivessem vinte anos. Concorrentes, como o vitorioso Zé Menezes, lenda viva dos estúdios nacionais, que recebeu um beijo do perdedor Helio Delmiro, ao descer do palco. Ou apenas assistentes, como o jornalista e escritor Sergio Cabral, dividindo a mesa com Nei Lopes, e logo à frente de Rildo Hora, três baobás de resistência também já entrados nos sessenta.
O CD duplo “O vale dos tambores”, de Carlos Henrique Machado Freitas, recebeu o Prêmio Atitude Rival-BR; “2005”, do grupo Pau Brasil, recebeu o troféu instrumental: e o CD com Michel Legrand e Luiz Eça ficou com a melhor produção, justo prêmio ao trabalho de Mário Adnet. Mais que todos, estes deixam o colunista com a consciência leve pelo risco das indicações que vai fazendo ao longo do ano.
Longe das grandes gravadoras, dos grandes circuitos – e, mais importante, longe das cadeiras de balanço, dos pijamas, esses brasileiros, com quanta qualidade de vida (e vida de qualidade, o que é mais relevante) parecem nos dizer com seus exemplos que, de fato, tudo a vale a pena se a alma não é pequena. Botequins, música e psicanálise
Os livros olham do criado-mudo. Querem atenção. E há melhor coisa que eles, amigos que trazem tanto e pedem tão pouco? Conversemos um pouco com eles:
“Manual de sobrevivência nos botequins mais vagabundos” (Moacyr Luz, Editora Senac) – nesse, o colunista declara-se incompetente. O capítulo dedicado aos guardanapos é comigo. Nos outros, amigos de muitas mesas, infinitos bares. Moacyr arrancou o livro das próprias vivências, dividindo-as com os amigos. Mais carioca, impossível. “Vitrola psicanalítica – canções que tocam na análise” (Leonardo Luiz, Via Lettera) – A música no divã, não como paciente, mas ferramenta. Leonardo entende que a música pode ajudar na psicanálise e transformou essa idéia em dissertação de mestrado na PUC-SP. O que ele acredita: “análogas ao sonho, as imagens, assim como as canções eventualmente mencionadas, ganham outro sentido na linguagem verbal, de tal modo que as canções são ouvidas (na vitrola analítica) pelo analista, em função das associações que se seguem, permitindo sua inserção no espaço analítico”. O que pensariam a respeito os terapeutas Paulo Blank e Gilberto Lago, também chegados ao universo das sete notas?
“Rumo equivocado – o feminismo e alguns destinos” (Elisabeth Badinter, Civilização Brasileira) – O livro faz parte da coleção “Sujeito e História”, coordenada pelo psicanalista Joel Birman. Sua discussão central: a confusão sócio-comportamental que domina as relações homem/mulher a partir dos anos 90 ou depois de um “feminismo pós-beauvoirismo” que ela julga contraditório. Duas conclusões polêmicas de Eelisabeth: 1) “as relações entre homens e mulheres não progrediram muito nestes últimos anos. É possível até que, com a ajuda do individualismo, tenham-se deteriorado”. 2) “para a maioria das mulheres, só pode haver melhoria em sua situação através de uma conquista de igualdade que não ponha em perigo as relações com os homens, (....) quando um sexo sofre o outro sofre também”.
“Cabala – o mistério dos casais” – Paulo Blank (Reluma-Dumará) – a aventura teórica de Paulo Blank mistura sua ancestralidade judaica com sua formação de psicanalista e o doutorado em Comunicação e Cultura. As relações homem/mulher, vistas das vastidões desses ângulos, atravessam diversos portais, segundo Paulo – e cada um é típico de uma etapa dessas relações. Num desses portais, está o equilíbrio entre “praticar o pedir” e a tentação de “dobrar o outro”. Esse equilíbrio é a chave do portal seguinte, o da qualidade da relação, capaz de enxergar no casal “a beleza da obra” resistente aos “desejos soltos como leões”. Li esse trecho tendo ao fundo o depoimento de Ismael Silva para o programa “Ensaio”, da TV cultura, transformado em CD pelo SESC. E o grande Ismael: “as tentações invadem até a casa da gente”. Novos boêmios
Atenção, última chamada. Tomem seus lugares: o projeto “Novos boêmios” entra em sua etapa final. A idéia é ótima: uma homenagem aos mais velhos feita pelos que estão na área. Por exemplo: nesta quarta, 12, o Quinteto Pixinguinha e Jorginho do Pandeiro estão no Sacrilégio, em dois sets, a partir das 21 horas. Ingressos a 12 reais. Quinta, no Dama da noite, tem Nivaldo Ornellas, com participação de Marcos Resende. Na próxima terça, 18, o Quinteto Pixinguinha ocupa o Estrela da Lapa. Dois sets, a partir das 21 horas, ingressos a 15 reais. O melhor de tudo: é a Lapa musical – e sem preconceito. Venturini na UERJ
Flávio Venturini estará nesta quinta no Teatro Odylo Costa Filho, a UERJ, a partir das 19 horas, com o show “Por que não tínhamos bicicleta”. Ingressos a 25 (antecipados) e 30 reais.
Roberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email:
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