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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 03 October 2005
robertobienal3jk.jpgO Paraíba e a roda

Quase sempre é no espaço abaixo, no “por e-mail”, que a coluna interage com seus leitores – mas hoje um dos remetentes pula para o corpo da coluna. Carlos Henrique Machado de Freitas, o músico e pesquisador responsável pelo CD duplo “O vale dos tambores”, salta do leito do Paraíba para as margens que levam, por um lado, a São Paulo, por outro, ao Rio.

“O formato do que se entende hoje como samba tem, de maneira indiscutível, a capital como berço e realmente devolve esse formato ao Vale e se espalha pelo Brasil inteiro. Só não tenho os elementos para compreender como tudo isso se processou na capital, mas posso de alguma forma lhe passar algumas informações de como isso ecoou pelas bandas de cá. Desde garoto tive uma relação muito estreita com essas comunidades e seus blocos e escolas de samba. Comandei muitas baterias e era um aficcionado por isso e logicamente meu ídolo naquele período era o Mestre André. Naquela época, as agremiações de samba daqui se espelhavam nas grandes escolas do Rio. As baterias eram excelentes, pequenas, com média de noventa componentes, mas com uma cadência fantástica. As roupas, adereços e alegorias eram pobres. Uma curiosidade: quando comecei a tocar cavaquinho, ainda garoto, percebi que nessas cidades próximas a Volta Redonda, não se tocava cavaquinho nas rodas de samba, tudo era na base do couro. Na verdade, o que de fato tinha importância eram os tambores, repiniques, treme-terras, contra-surdos, etc. Lembro-me que quando apareci com o cavaquinho em uma dessas comunidades, causei um certo espanto, até narro em um trecho no libreto, na música ‘Arrepia Tatunda’. Não tinha a menor idéia de como afinava o cavaco e muito menos que se usava palheta para tocar, mas quando o Martinho esteve em Volta Redonda, trouxe com ele meu grande ídolo do cavaquinho de samba até hoje, Mané do Cavaco. Quando acabou o show, fui procurá-lo e ele me explicou a afinação e me mostrou que era tocado com palheta e me deu uma de casco de tartaruga. Era tão fã da batida do cavaco do Mané que cheguei até a andar para cima e para baixo com um bonezinho igual ao dele.

“Mais tarde, em contato com os chorões, pude observar que o samba-canção era acompanhado com a mesma formação do choro, mas isso era coisa de salão, não de terreiro ou comunidade. Outra coisa interessante, que de certa forma me remeteu a esse trabalho, foi que, naquele período, no aquecimento que acontecia antes do ensaio, rolava um samba com uma cadência mais lenta e mais contínua, suave e gostosa. Hoje, compreendo que era herança do samba rural, uma batida bem diferente daquela que eu, durante o ensaio, buscava, mais acelerada, mais aguda, com mais pontas, tentando imitar principalmente a bateria de Mestre André. Todos os que comandavam baterias nesta região, buscavam  mesmo objetivo, fazer de sua bateria, a de Padre Miguel.

“Agora tem um detalhe que eu não cheguei a me aprofundar: observa-se que até hoje ainda tem rodas com viola, tambores e sanfonas no meio do mato nesta região, meio calango, meio samba rural, meio jongo. Observo também que à medida que vai se aproximando de São Paulo, os tambores vão sendo calados devido à forte imigração italiana, muito ligada ao catolicismo e não medindo esforços para acabar com manifestações de tambores ligadas às religiões africanas. Soube de muitas histórias de igrejas de São Benedito que foram demolidas, submetendo aquelas irmandades ligadas a São Benedito a uma subserviência em relação às irmandades comandadas pelos brancos. A caminho de São Paulo os tambores começam a rarear depois de Guaratinguetá, que tem um jongo extremamente forte, e só aparecem na zona oeste paulista, mesmo assim nos pontos do pessoal do batuque de umbigada, percebendo-se que as letras dos pontos de jongo sofrem até hoje um enorme preconceito.

“No sentido do Rio, as violas é que vão sendo caladas, acho que pelo fato delas representarem o instrumento do matuto. O Rio quis manter distância da imagem de atraso que a viola representava, ela chega até a Baixada, em alguns poucos pontos, com as folias de reis. Até hoje a coitada da viola paga o pato da derrocada do café. O interessante é que Minas Gerais consegue manter isso um pouco mais intacto, esse timbre da viola, sanfona e tambor. Volta Redonda está num lugar bem estratégico, até por isso foi instalada a siderurgia aqui, por estar no centro dessas três tendências. E o fato de receber muita gente de vários lugares, principalmente dos arredores, serve de termômetro da importância que o samba carioca, seja ele das escolas, ou mesmo das rodas de partido alto teve aqui desde a época da instalação da usina. Há uma grande afinidade do Mauro Diniz e o pessoal de Oswaldo Cruz com o pessoal do samba daqui.

“Em outra oportunidade, posso relatar a intensidade com que chegou aqui o samba que rolava no Cacique de Ramos.”

Para animar o papo, que já tem de um lado “O vale dos tambores”, falta ter, do outro, o “No princípio, era a roda”. Ou, de como o Estácio conseguiu chegar a Guaratinguetá.

Semana animada

Começa amanhã o Festival Rob Digital, na Modern Sound, sempre às terças, 19 horas. Na abertura, o lançamento do novo e belo CD de Dorina, já comentado por esta “Cultura & Mídia”. Nas semanas subseqüentes, será a vez de Marcel Powell (dia 11), Gilson Peranzetta (dia 18) e Moraes Moreira (dia 25).

Enquanto isso, Dori Caymmi está de volta ao Brasil para o lançamento de seu mais recente trabalho. Também amanhã, no Instituto Moreira Salles, na Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea, a partir das 21 horas. Ingressos a 20 reais. No programa, entre outras, composições próprias em parceria com Paulo César Pinheiro ("O porto", "Saudade do Rio" e "Flor das estradas") e Jorge Amado ("Alegre menina"), além de obras de Caetano Veloso ("Sampa"), Ari Barroso ("Aquarela do Brasil"), Chico Buarque ("Januária"), Tom Jobim e Vinicius de Moraes ("Eu sei que vou te amar" e "Eu não existo sem você").

Esse novo CD chama-se “Contemporâneos” e o próprio Dori explica-o bem: "a seleção obedeceu ao coração, dentro da possibilidade de criar coisas diferentes com as músicas do pessoal da minha geração. É um disco esteticamente coerente com a minha geração, feito para acalmar e mostrar que as coisas estão em seus lugares. E que eu continuo vivo".

Enquanto Dori vem, Macalé vai. Inquieto e inquietante, o autor de “Vapor barato” mostra nos dia 7, 8 e 9 (de sexta a domingo), no SESC-Vila Mariana, em São Paulo, o CD em que relê as parcerias com Waly Salomão. Participação especial de Luiz Melodia. Um discaço, aliás – especialmente para os iniciados em Macalé.

Dori Caymmi, de volta ao Brasil, faz show no IMS



Por email:

“Só quem conhece muito pouco a trajetória acadêmica e o engajamento político da mestra Chauí, fala um despropósito dessa natureza. Talvez seja melhor o nobre doutor se reter na música. A filosofia realmente não é para todos.”

* O leitor preferiu não se identificar, mas bateu pesado – esquecendo-se de todas as críticas feitas, alhures, à desinformação da nossa spinozista. Para replicá-lo, basta lembrar que, no dia em que seu e-mail chegou, saíram do PT Plínio Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Chico Alencar, Ivan Valente e Orlando Fantazzini. Justificativa: o PT deixou de cumprir o papel de agente transformador da realidade brasileira.

“Dilcéa, minha primeira mulher, já falecida, foi colega de turma da Marilena Chauí. Pouca coisa, mas suficiente para eu olhar a moça com simpatia. De repente, não mais do que de repente (que leva sempre algumas décadas) a moça, mais do que em Alfa, entrou em Alfafa. Se até Hitler teve seu filósofo conveniente, porque não, o Grande Lula, que está realmente - esta é que a verdade - acabando com a fome no Brasil e no mundo!? E se mais não faz é porque ainda não conseguiu colocar o Sr. Delúbio como super-ministro. O que é uma questão de tempo. Esses que, cegos, insistem em falar mal do Lula e do PT, um dia perceberão que até o mais miserável dos assalariados terá um dia o seu Land Rover. E a FOME em Zero, com todos comendo as mais deliciosas pizzas, regadas a bom vinho e puros cubanos. Vamos entregar o Amazonas, a nossa preciosa água, e assistir calados a vingança do Paraguai. Veemência, agora, é monopólio do PT, ninguém melhor do que eles. Foram veementes na oposição aos ladrões, são mais veementes ainda, agora,  como ladrões. A "manobra da caixa dois", se colar, desmoraliza de vez o Brasil. Semana que vem estarei decolando, com mulher e filha,  para lançar meu ‘cordel’. Veja aí em anexo. Tentarei ficar em Lisboa até sábado, para participar de um  extraordinário ‘Fado Vadio’ (espécie de samba de botequim, versão lusitana), na sexta-feira. Se você vier, já pensou,  uma roda de samba no Les Deux Magots? Se possível com o não menos mestre Nei Lopes "puxando" um  Trinidad (disparado o melhor charuto cubano) e bebendo um  Château Petrus.   Estarei seguindo esse bom exemplo, mesmo sabendo que vai ficar parecendo reunião da cúpula (cópula?) do PT.” (André Luiz Lacé, mestre capoeira, Rio de Janeiro, RJ).

robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso  

Comentarios (1)Add Comment
pink(rayssa)
escrito por Visitante, 2005-12-25 15:36:15
n que me botar em um roteiro de algum filme ou novela e serio,fico maneiro,thau!!!

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