É fundamental a importância de possuirmos um respeito genuíno e imparcial. Oxalá isso fosse demagogia comportamental! Algo simples e disponível ao comportamento humano como o respeito pode ser tão diretamente e indiretamente poderoso à continuidade da existência humana e ao mesmo tempo destruidor de complexos sistemas sócio-políticos, e também culturais.
O Brasil infelizmente é um exemplo de destruição, ou manutenção do caos instaurado, de uma sociedade sem respeito por si própria, sem identidade e sem perspectivas de evolução no curto e médio prazo. Eis algumas de minhas convicções. Enquanto jovem – tendo como base minha convivência de bons amigos com criação tipicamente italiana, alemã, portuguesa, espanhola e japonesa, bem tipicamente paulistana – pude captar, inconscientemente, e depois traçar um paralelo histórico-social de realidades bem distintas vividas por seus antepassados e, em parte, transmitidas através de seus descendentes.
Diferentemente de nossa vivência, muitos destes anciãos, quase exclusivamente de origem humilde, viveram em uma realidade minada por guerras, pestes, longos períodos de miséria – não a brasileira onde se encontram limpadores de pára-brisas com celulares pré-pagos – e tirania por parte dos seus governantes, levando-os a fugir desesperadamente e de forma despreparada, porém aprenderam a partir disso respeitar os limites das mazelas humanas.
Defronte a esta perspectiva o Brasil daquela época, para muitos dos quais tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, surgia como uma imensa possibilidade de vida farta, fértil e feliz – calma, isto não é coincidência, é mesmo muito parecido com o ideal americano, faltam somente a esta imagem a estatua da liberdade com a bandeira americana flamejando e seu idealismo protestante, pois infelizmente somos visceralmente católicos.
Certa vez, um deles, de origem japonesa, me disse que não havia local no mundo como o Brasil, e ele não entendia como um país onde se joga uma semente inadvertidamente no chão e crescem árvores cada vez maiores, e sem esforço algum, não consegue avançar.
O problema não está na nossa terra mas sim na falta de dificuldades oriundas do meio sobre todos nós, além de tudo estamos mimados pela fartura de nossa terra.
Eu costumava disser até então: “Faltam guerras neste país, somente assim vamos dar valor uns aos outros, vamos aprender a cuidar de nossos vizinhos pois um dia precisaremos deles também em um dia de chuva!”. “O que fizemos com os valores de nossos avós?” Como não sabia a resposta não parei por aí. Recentemente fui exposto a um novo paradigma mais avassalador e deveras compreensivo sobre o tema. Talvez um dia eu ainda discuta este tema, mas tomando como base já discutida, a herança colonialista brasileira cimenta muito do inconsciente coletivo de nosso comportamento.
Sem necessidade de comentar C.G. Jung e seus trabalhos sobre o “inconsciente coletivo”, muitos ainda têm dificuldade de encontrar traços deste comportamento em nosso cotidiano.
Nosso país tem dois venenos, continuamente destilados, pelo nosso comportamento: (1) o assistencialismo, de origem indubitavelmente católica, e (2) o nosso conceito de elite, filho de nosso passado colonial. Ambos são causas e efeitos da falta de respeito generalizada pela condição humana e sua importância no contexto social.
(1) O assistencialismo, nobre virtude pregada por nossa mãe filósofa igreja católica apostólica romana, destrói a capacidade do ser humano de encontrar seus medos e frustrações, encará-los, vencê-los, desmontar o estabelecido e construir o novo para si mesmo. Acabamos por sempre esperar a mão benevolente em nossa cabeça de um pai inexistente muitas vezes o projetando em nossos líderes e governantes. Solução: Querem ajudar os seus próximos? Respeite-os como iguais. (2) Nosso conceito de elite remete, ainda e incrivelmente ainda à elite portuguesa dos séculos XV ao XVI. Não preciso entrar em detalhes, mas basta saber, pela interpretação magnífica de Marieta Severo em “Carlota Joaquina – Princesa do Brasil”, da completa falta de valores formadores de nossos alicerces sociais. O conceito de elite foi primeiramente abordado por Platão em sua “Republica”. "O que é uma comunidade justa?", perguntava Platão pela boca de Sócrates, seu mestre. Resposta: “uma comunidade justa é aquela onde os melhores governam com sabedoria.” São os melhores que governam, não os poucos – no nosso caso, os colonizadores. E os melhores são aqueles que, prescindindo de seus interesses particulares, contribuem para o todo social depois de uma educação longa e virtuosa – perfil pouco comum em nosso caso. Uma educação que permite olhar para o país – ou a polis originalmente – como realidade coletiva, não como possibilidade de enriquecimento, ou engrandecimento, pessoal - também um comportamento pouco freqüente no brasileiro.
Acabamos por ter uma elite, portanto, oriunda de uma visão invejosa de sua anterior e à qual se submeteu e discriminatória quanto ao povo, que infelizmente se comporta da mesma forma, mas que nunca se esquece de cobrar de alguém alguma atitude para tirá-lo de seu status quo. Quantas vezes já não ouvimos conhecidos nos dizer: “Quando eu ganhar na loteria vou pegar o dinheiro e vou sumir”.
Mas por que sumir, está tão ruim assim aqui conosco, os seus? Porque você não pode curtir sua felicidade, agora rico, conosco?
O povo acaba se colocando sob a busca do bom para si mesmo e esquecendo que como elite que pretende ser precisaria buscar o bem coletivo. Ser elite no Brasil tem um entendimento de poder e posse material enquanto, no conceito clássico, de autoridade e posse intelectual.
Criamos um circulo vicioso invejoso, somente vencido se buscarmos entender os valores construtores de nossa cultura colonialista e buscamos nos espelhar em valores mais sólidos. Muitos estão disponíveis e em grande parte remetem ao ser humano como parte criadora e mantenedora do seu meio social.
O Iluminismo foi o início destes pensamentos no ocidente. Encerro citando o jornalista português João Pereira Coutinho em um artigo para a Folha de São Paulo:
“Somos humanos; logo, tratamos os outros como humanos. Partilhamos uma natureza comum e essa essencial humanidade é o primeiro dos nossos deveres. Só isto permite alimentar virtudes sociais – virtudes de civilidade social que garantem a necessária confiança para que as gerações presentes possam passar o seu testemunho às gerações vindouras”.
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Fiquei impressionado com tanta sapiência. Parece até que v. é um ser ilumidado de outro planeta, de tanta esperteza. Só como pessoas do seu nível, com determinação e boa vontade para se liberar das atividades normais e escrever palavras que levam a marca da intelectualidade brasileira, que o Brasil vai para a frente. Senão ele ficaria parado no mesmo lugar por séculos. Já imaginou se pessoas com o seu conhecimento ficassem caladas. O mundo não seria o mesmo. Estaríamos todos condenados à servidão das trevas.
Bola prá frente, meu amigo,
Denison Silvan