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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 19 September 2005
robertobienal3jk.jpgA música do “Vale dos Tambores”
Num livro ainda hoje indispensável, Edgar Morin escreveu há mais de quarenta anos que “a cultura de massa é cosmopolita por vocação”. Para ter certeza de quanto é atual o velho conceito do mestre, basta ouvir o resultado do magnífico projeto do bandolinista Carlos Henrique Machado Freitas intitulado “Vale dos Tambores”. Tivesse brotado na metrópole, de alguma cabeça coroada da nossa mídia subserviente, aí estaria mui justamente ungido como a obra de arte e o trabalho de resgate cultural que de fato é.

Como foi gerado no Vale do Paraíba e, pior que isso, concentra-se justamente nas manifestações musicais da região, e num período quase que registrado apenas pela memória oral, mereceu tão somente o olhar atento de Hugo Sukman, de “O Globo”, e muito mais por que era o Hugo do que por que era “O Globo”. Mas, que coisa comovente. Tanto como criação como quanto pesquisa.

São dois CDs, sofisticadamente embalados numa lata como a dos antigos biscoitos champagne. Na mesma lata, um libreto em preto e branco, cujo texto explicita a pesquisa realizada, dando conta de dobrados, jongos, choros, catiras, cirandas, calangos e folias de reis da região unida por um rio tão maltratado. Na terceira capa do libreto, uma frase de Monteiro Lobato: “um diamante se transforma em brilhante depois de lapidado. O Vale do Paraíba só pede lapidação”.

Fechando o pacote, Carlos Henrique Machado produziu ainda, em forma de songbook, o álbum “Choro brasileiro”, com as partituras de 48 criações suas, passando por por todos os gêneros citados e de que são exemplos “Lundu de Clementina”, “Procissão de Santa Cecília”, “Meu pandeiro no choro”, “Uma polca para Andiana”, “Jongueiro”, “Lamento negro” e “Tambor de crioula”.

Mas, não pense o leitor que os discos são meras ilustrações musicais do projeto, que é grandioso. Nada disso: são composições de alto nível de concepção e execução, embora também não apareçam entre os acompanhantes nenhum dos craques costumeiros. Essas composições se imporiam sozinhas, mesmo que não estivessem apoiadas em nenhum projeto ou pesquisa dando-lhes aval.

Mas possivelmente não chegariam aos ouvidos metropolitanos se não conseguissem chancela da Lei de Incentivo à Cultura e patrocínio da Eletrobrás – o que confirma o quanto as nossas manifestações artísticas e culturais ainda dependem de algum mecenato estatal.

Porque com o “mercado” que nós temos e a cobertura que lhe dá a mídia, o máximo que se entende por cultura popular na cidade grande são as odes lacrimosas e superficiais ao pai de Zezé di Camargo e Luciano.

A capa de "Vale dos Tambores", vendo-se embaixo, ao centro, seu criador Carlos Henrique Machado Freitas

Música no mercado externo
Custou, mas finalmente o governo brasileiro dá sinais de que a música precisa fazer parte da nossa pauta de exportações. A Apex – Agência de Promoção de Exportações e Investimento e o MinC assinaram convênio com três associações que representam gravadoras independentes e a intenção é exportar inicialmente US$ 2.647 milhões em CDs, DVDs, licenciamento de fonogramas, distribuição digital, download e toques para celular.

Governo e setor privado dividirão os custos e o objetivo é aumentar em 50% as exportações num prazo de três anos. O convênio funcionará em duas pontas: levando shows brasileiros para apresentações no exterior e trazendo produtores e imprensa para eventos no Brasil. Além disso, prevê workshops, cursos, manuais e o lançamento do portal “Música do Brasil”. As três associações são a ABGI - Associação Brasileira de Música Independente, ABMI - Associação Brasileira de Música independente e a BM&A – Brasil Música & Arte.
O desafio, agora, é tirar o convênio do papel.
 
Papel higiênico americano
Faculdade de Comunicação. Professor (e juro que não ocorreu com nenhuma turma minha, com cacófato e tudo) vai dando a sua aulinha, falando de globalização, de como são perversas as leis do neo-liberalismo e de como essa neo-colonização é de mão única. De repente, uma moça bonitinha levanta o dedo: “ah, professor, a gente teve que admitir que nos Estados Unidos é tudo melhor mesmo. Até o papel higiênico de lá é melhor”.

Aí, um outro aluno, Joãozinho certamente, intervém: “o papel higiênico deles pode ser melhor, mas bunda, a melhor é a nossa”.
 
Ficherklaus, sete consoantes
Morre mais um pedaço do centro histórico do Rio: Restaurante Ficherklaus, o Ficha, na Rua Teófilo Ottoni. Cozinha honesta, jirauzinho discreto. Nos bons tempos da Embrafilme, alguns cineastas costumavam marcar o ponto por lá. Glauber inclusive. Hugo Carvana também. Quem implicava com a casa era o compositor Luiz Carlos da Vila: “cardápio de restaurante alemão tem consoante demais”.
 
Telecatch rubronegro
Em vez do Tigre Paraguaio não era melhor chamar logo o Ted Boy Marino?
 
Por e-mail:
“Embora chegando meio atrasado na conversa, em primeiro lugar gostaria de dizer que concordo plenamente com suas colocações, principalmente quando diz que ‘um movimento artístico não é sua geração primordial. Fosse assim, falaríamos do jazz sem Miles Davis, Charlie Parker e Billie Holiday. Falaríamos do choro omitindo Jacob e Waldir Azevedo. O que caracteriza um movimento é exatamente a sua continuidade, gerar filhotes’. Mas sem querer desculpar uns e outros: num bate papo informal com Roberto Menescal, Wanda Sá e Paulo Thiago, no último 30 de agosto, no evento ‘Sempre Um Papo’, realizado no Conjunto Cultural da Caixa, onde conversaram com o público sobre o filme em questão, a argumentação que ouvi do Paulo Thiago foi a de que o filme procura se restringir ao período que vai de 1957 a 1963. Portanto, ficou faltando muita coisa mesmo. Mas se pensarmos que em pesquisa a delimitação cronológica é um aspecto positivo, agora só ficam faltando os outros capítulos, como bem disse o cineasta Luiz Fernando Goulart sobre  ‘a série de TV como a que foi feita com o jazz nos Estados Unidos’. Se a série a que o Luiz Fernando se refere é a que é apresentada pelo trompetista Winton Marsallis, acertou em cheio: é demais! Coisa mais linda mesmo!” (Rick Ventura, professor da Escola de Música da UNIRIO, Rio de Janeiro, RJ)

robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso  

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