Pará: das raízes indígenas as praias de água salobre, presentes na rotina local - exóticas paisagens tropicais, bem-vindo ao portal da Amazônia
Sentado na poltrona do avião é impossível não sentir frio na barriga com o visual lá debaixo.
É a Amazônia, um imenso mundo verde cortado apenas por rios barrentos que correm no interior da floresta. Lentamente, a selva fica para trás e dá lugar a Belém, com prédios tão altos quanto as gigantescas castanheiras, do famoso brazilian nut (castanha-do-Pará), que chegam a 60 metros de altura.
Devido à localização estratégica do Pará (é possível acessar a Amazônia pelo mar), vale começar a aventura pelo chamado Portal da Amazônia. Lá o mito de que a região amazônica abriga apenas florestas e rios se desfaz na beleza de dezenas de praias banhadas pelo Atlântico. Melhor ainda, o Pará possui clima quente e úmido o ano inteiro e reúne alguns dos cenários mais paradisíacos do planeta.
Com quase um milhão e meio de habitantes, Belém é a maior cidade do norte do Brasil e tem um delicioso cheiro de fruta. Culpa da mangas que não param de cair das árvores. Na "cidade das mangueiras", ninguém resiste à tentação de comer a fruta que acabou de catar do chão.
Mas não é só fruta o que "cai do céu". Todos os dias, um pé d'agua fortíssimo lava a cidade e mata a sede da floresta. A primeira vez que vi aquele aguaceiro, achei que as ruas fossem alagar. Nada disso. A chuva dura cerca de 40 minutos e funciona como relógio meteorológico para os compromissos do povo local. Minutos depois, a rotina da cidade volta ao normal, com direito a céu limpo e estrelado.
Mulher bonita não paga "Bora levar, bora levar. Mulher bonita não paga, mas também não leva! Pra ficar gostoso, pra ficar legal. E só erva não faz mal". Nesse clima começa a recepção dos feirantes na feira do Ver-o-Peso, colada à baía do Guajará. Na zona portuária, as barracas brancas do Ver-o-Peso se mesclam aos pitorescos barcos de pesca ancorados.
A feira reúne o que existe de mais excêntrico no Pará e na Amazônia: artesanato, frutas de todas as cores e formas, diversas espécies de peixe, plantas medicinais e até poções mágicas vendidas pelas simpáticas "bruxas do Ver-o-Peso", que usam segredos da floresta para curar males e espantar mandingas.
A poucos metros dali está a Estação das Docas, antigos armazéns com arquitetura inglesa que foram transformados em um centro cultural. As atrações vão de galeria de arte a fábrica de cerveja. Sentar em um dos aconchegantes restaurantes é o primeiro passo para o deleite da típica comida paraense.
A brisa da baía embalada pelo som ao vivo de músicos locais enchem as docas de romantismo. Para completar o dia, vale parar numa das sorveterias locais e pedir um dos exóticos sabores: buriti , bacuri , saputí, acaí, piquiá, araçá, cupuaçu e uxi . São alguns dos “sabores da floresta” batizados pelos índios.
No Marajó tem carimbó Após uma boa noite de sono, acorde cedo e siga rumo ao Marajó, o maior arquipélago fluvial-marítimo do mundo. A primeira balsa sai às sete da manhã da vila de Icoaracy, nas proximidades de Belém. Durante as quatro horas de travessia, a embarcação se enche com uma melodia vibrante: é o "brega marajoara" que, junto com ritmos como o carimbó, remetem às tradições de um povo que manteve fortes heranças indígenas e que tem a alegria e a dança presentes no sangue.
Marajó fica entre o Oceano Atlântico e os rios Amazonas e Tocantins, o que permite uma combinação de praias banhadas por águas doce e salgada. Em seus 50 mil km2 de extensão cabe um país do tamanho da Bélgica.
A ilha é um santuário ecológico, onde as paisagens se alternam de acordo com as cheias dos rios. Durante a estação das chuvas, as águas transbordam. Por isso, é melhor marcar a sua viagem para o segundo semestre do ano.
Dos 13 municípios do Marajó, os mais visitados são Salvaterra e Soure, portas de entrada da ilha e separados apenas pelo rio Paracauari. Ao se pisar na praia em Salvaterra, é dificil acreditar que as ondas são de um rio, até porque a visão da outra margem se perde no horizonte.
As ondas fluviais do Marajó servem até para o surf, durante a "pororoca", fenômeno provocado pelo encontro violento entre as águas do Atlântico e do Amazonas.
A grande aventura desse lado do Paracauari é conhecer os furos de Salvaterra, estreitíssimos canais navegáveis por pequenos barcos no meio da mata virgem. O mais conhecido é o furo do Miguelão.
Segundo a lenda de pescador marajoara, o canal foi feito à mão, cavado por um companheiro prestes a ser atacado pelo monstro chamado Cobra Grande. O clima de mistério do passeio é quebrado pelo barulho dos macacos guaribas e de vários outros animais da selva.
Vida de caboclo Do canal para a outra margem do Paracauari (dez minutos pelo rio) está a capital simbólica da Ilha do Marajó. Soure rendeu fama ao arquipélago por causa do seu mais ilustre habitante: o búfalo. Os animais não movem apenas a economia local, mas são usados também como meio de transporte pelos moradores. O búfalo serve até como montaria para a Polícia Militar do Estado.
Criados nas inúmeras fazendas de Soure, não é difícil encontrá-los nos quintais das casas. Apesar do tamanho, o búfalo é dócil e domesticável. E você não pode ir embora sem dar uma voltinha em um!
A dica para os aventureiros é seguir as trilhas que levam a lugares intocados pelo homem. Após cruzar uma das fazendas - geralmente abertas para a visitação - você logo chega à Praia da Barra Velha.
Recentemente descoberta, parece que o tempo parou e a mãe natureza encarregou-se de mesclar as paisagens selvagens às áreas de mangues, com suas árvores de raízes aéreas, verdadeiras esculturas naturais.
Vários roteiros são organizados dentro das fazendas: passeios de lancha pelos igarapés e observação de sítios arqueológicos e animais ameaçados de extinção, como a paca, cutia e o jacaré.
Na fazenda Bom Jesus, a veterinária e engenheira agrônoma Eva Abufaiad transformou sua propriedade em zona de proteção ambiental, em parceria com o Ibama.
No passeio, dá para conhecer como o caboclo cria o búfalo e acompanhar a extração do açaí - fruto cheio de energia que, assim como o arroz e feijão, compõe a alimentação diária do paraense.
Outra fazenda famosa é a São Gerônimo, que serviu de palco para o programa No Limite, da Rede Globo. O cenário das competições foi conservado e transformou-se em atração turística.
Para fechar a visita à "ilha da floresta", o cenário perfeito são as áreas alagadas onde habitam os guarás, pássaros de cor vermelha intensa e rara beleza.
Como se tudo fosse coreografado, às seis horas, centenas de guarás batem as asas juntos e fazem um forte barulho no meio do silêncio de admiração dos turistas. Sincronizadamente, os pássaros voam para dentro da floresta, de onde só saem ao clarear do dia seguinte.
Diante de espetáculos como esse, não é a toa que a ilha e o estado do Pará enchem de orgulho o seu povo, que comemora a cada verso folclórico o amor por essa terra e dizem: "quem vai ao Pará, parou. Tomou açaí, ficou".
Alimentos
Tacacá: Em Belém, é costume parar numa das banquinhas de esquina e terminar o dia com uma cuia de tacacá, um caldo que mistura tucupi*, goma da farinha de tapioca (para cortar o efeito ácido), camarão e folha de jambu - planta que deixa os lábios latejantes e adormecem a língua.
Pato no Tucupi: É fácil se atrapalhar no nome, mas o sabor do prato é inconfundível. Dentro de uma panela de barro mergulha-se jambu e pedaços de pato no caldo de tucupi*. Quem quiser arriscar tem que pedir de acompanhamento apenas farinha molhada com mais tucupi!
Maniçoba: Uma feijoada à paraense, composta basicamente da planta da macaxeira (mandioca mansa) e pedaços de porco e de boi. Se pra comer é num piscar de olhos, para ficar pronta tem que cozinhar por oito dias ininterruptos.
*Tucupi Sumo extraído da mandioca brava e extremamente ácido
5 Boas Razões para ir
- É verão o ano todo (a temperatura média é 26ºC!)
- Os turistas podem escolher entre o lado do rio ou das praias, mar
- A melhor Cerpa*do Brasil (*Cerpa é uma cerveja tradicional Paraense)
- O Eco-tourismo permite que você observe espécies amazônicas raras
- Os habitantes tem orgulho da comunidade indígena
Onde ficar
Belém Hotel Hilton Belém - $$$$ Av. Presidente Vargas, 882-centro 00 55 91 217-7000
Ver-o-Peso Hotel - $ Boulevard Castilhos Franca, 208 00 55 91 241-2022
Pousada dos Guarás - $$$ Praia Grande 00 55 91 3765-1221
Hotel Beira Mar - $ esquina da Rua Frei Romão 00 55 91 3765-1400
Fazenda São Gerônimo - $$ Rodovia Soure-Pesqueiro, Km 7 (Distrito de Tucumanduba ) 00 55 91 3741-2016
Pousada Residencia Alemã - $ Rua 8a, 1975 00 55 91 3741-1234
Jungle Drums http://www.jungledrums.org
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