Hoje pela manhã li uma frase de Shakespeare que me fez pensar muito sobre o propósito de minha existência. Ela diz: "O mal que um homem faz vive além dele, o bem, com freqüência, é enterrado com os seus ossos".
Isto vai totalmente de encontro ao imaginado pelos seguidores das crenças religiosas kármicas? Creio que não. Definitivamente não!
Tanto o bem quanto o mal perpetuam na humanidade, segundo eles, principalmente em ciclos. Mas porque então há esta percepção de Shakespeare expressa pela boca de Marco Antônio em sua oração fúnebre a Júlio César?
Estamos agora e deste o início da era moderna em um momento onde não se observa ou não se percebe a perpetuidade das coisas boas em nossas vidas?
Certa vez, em um momento de total descrença espiritual e nenhuma perspectiva à minha pós-vida, imaginei que a melhor forma de justificar minha existência para mim mesmo seria por realizações de bondade e dedicação genuína a algo, material ou não. Soa como ladainha de workshop esotérico, mas não interpretei desta forma enquanto refletia.
Sob a ótica de nossa sociedade contemporânea, diante de minhas possibilidades, posso e devo sempre obter ao máximo a satisfação imediata dentro de cada momento de minha vida, sendo ele bom ou ruim. A filosofia do carpe diem é tão antiga e não-esotérica quanto sua língua original expõe.
Entretanto, tanto esta filosofia quanto outras do oriente, entendidas como esotéricas, têm servido como subterfúgio para mascarados comportamentos egoístas, valorizando sempre o bom para si próximo descartando o ruim, dando-nos a impressão de que o dito mal acaba sempre sobrepujando o também dito, porém indefinido, bem.
Creio que temos sido muito hipócritas com nós mesmos. Recitamos dogmas e filosofias mal compreendidas com objetivos moralistas e doutrinatórios.
Evidentemente, o ser humano, principalmente o egocêntrico, sempre pensará e agirá de forma estratégica. Utilizará assim todas as ferramentas à mão, sacrificando sem pêsames sua consciência, e distorcendo alguns, senão todos, os modos de pensar para o bem.
Quem assistiu atentamente o delicioso “Café Filosófico” na TV Cultura ontem à noite pôde entender as diferenças entre os mal-compreendidos bem e mal frente aos bom e ruim.
Em resumo, por problemas graves em nosso processo educacional básico – e digo "processo" evitando culpar pais, parentes e educadores diretamente –, de certa forma deixamos, como sociedade, de valorizar o bem como forma de colhermos benefícios para a vida no longo prazo e passamos a valorizar o bom no curto – ou curtíssimo – prazo.
Este bom acaba sendo imediato e individual contrariamente à proposta original do bem duradouro e coletivo.
Visto desta forma, o perpétuo acaba se locupletando de maldade e o efêmero se tornando a única expressão de bondade, mas não de benevolência onde se exige intenções genuínas e dedicação coletiva. Onde atuar então? Como melhorar nosso karma coletivo?
Não há programa social, mesmo sendo financiado por todas instituições financeiras e filantrópicas do mundo, ou movimento religioso com poderes de mudar esta situação.
Nossa atitude social deve ao menos limitar a expansão destes comportamentos narcíseos, constantemente vistos no ilimitado e estimulante mundo das crianças e adolescentes da desnorteada classe média, e no universo dos pomposos e arrogantes adultos onde o sucesso, é a expressão máxima da “mais nobre” das virtudes humanas nos dias de hoje, a ambição.
Fernando Z. Bocabello, São Paulo. E-mail:
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