Ecos de Buenos Aires
Passei praticamente a semana passada na capital argentina, por conta do VI Congresso da IASPM-AL, cujo tema central era “Música Popular: exclusão, inclusão e subjetividade na América Latina”. Fiz uma palestra sobre o meu “No princípio, era a roda” e presidi uma mesa com trabalhos interessantes de Rodrigo Eduardo de Oliveira, sobre o choro em Brasília; Thiago Ferreira de Aquino, sobre o grupo Caixa Preta e o jongo da Serrinha; e, Luiz Fernando Coelho, sobre as gravações dos Oito Batutas em Buenos Aires na década de 20. Adiante, observações esparsas e imprecisas de um turista atravessando pela quarta vez as lonjuras da Av. Nueve de Julio.
* O canal 72 a cabo, SoloTango, continua a ser uma bela opção para quem deseja de fato sentir-se em solo portenho. Desta vez, em dias diferentes, pude acompanhar etapas de um campeonato mundial de dançarinos de tango. E quem confunde nudez com erotismo precisa ver um casal daqueles em ação. Uma mulher de vestido, com uma pequena fenda lateral, e um homem de terno podem ser muito mais sensuais do que a maioria dos casais quando está nu. * No mesmo canal, duas dicas preciosas: o CD do Pablo Mainetti Quinteto, que consegui comprar e mostra um tango moderno, piazzollesco, de alto nível de criatividade e tensão; e o CD “Tangos inesperados”, de Lucio Arce, em que se destaca a hilária “La fiesta de Camacho”. Esse, só achei na Internet, mas não chegou ainda. * Mesmo na Espanha, é difícil achar uma paella que se compare a que é servida no restaurante Plaza Mayor, na Calle Venezuela. É de agradecer a todos los dioses. * Com relação aos vinhos, delicatessens e supermercados vendem por uma média de 20 pesos (cerca de 16 reais) produtos de “reserva”, “gran reserva” e “barrica de roble” das marcas que são comercializadas aqui. Para quem gosta, é festa. * Reflexo da crise econômica, táxis e ônibus estão caindo aos pedaços. Um dos taxistas explicou: não há qualquer subsídio. “Se você, que é estrangeiro e chegou ontem, quiser comprar um carro, paga o mesmo preço que eu, que estou há 25 anos na praça”. Nos vidros dos traseiros dos ônibus, uma campanha cobra tabela diferenciada, mas o governo permanece indiferente. A frota particular também mostra que, se carros circulam, dinheiro não. * Impressiona, na Bombonera, como o Boca Juniors consegue marketear a sua mística. Há uma loja, aberta ao público que vende tudo. Uma camisa do time vale 105 pesos. Com o autógrafo de Maradona, 1.300. Ônibus despejam diariamente centenas de turistas na loja. Se o sujeito quiser “entrar a la cancha”, mais 6 pesos. O Flamengo tem muito a aprender com o pessoal de lá. * Que Maradona é Deus, sabe-se. Mas que seja assunto recorrente de todos os níveis e classes é coisa que só percebi agora. A discussão se deve-se perdoá-lo ou celebrá-lo pelo gol de mão, em 86, mobiliza políticos, intelectuais, artistas. Páginas e páginas de jornais, filósofos dando sua opinião, escrevendo artigos. Não me lembro, em qualquer época, de coisa parecida aqui com Pelé. * Pelo visto, não é só no Brasil que os bancos vêm obtendo lucros estratosféricos. Na penúltima vez em que estive na Argentina, há uns três anos, havia uma agência do Itaú, na Calle Reconquista. Desta vez, a paisagem é bem semelhante à carioca. Tem Itaú pra tudo que é lado. O novo Instituto do Carnaval
O médico e pesquisador Hiram Araújo há décadas persegue a idéia de que é possível juntar carnaval e academia. Agora, essa idéia se materializa no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, que pretende lançar, já em outubro próximo, cursos de graduação em Gestão de Eventos Carnavalescos, com duração de dois anos. Do Instituto do Carnaval, que definirá a grade do curso, fazem parte nomes como Rosa Magalhães, Max Lopes, Haroldo Costa, Maria Augusta, Júlio Machado, Lygia Santos, Helena Theodoro, Alcione Barreto e Luiz Fernando Vieira. Acervo multimídia da Vitale
São 1.188 músicas em formato MIDI, com busca facilitada de autores, obras, gêneros, épocas e até das palavras contidas nas letras (isso vai me quebrar um galho enorme, nas pesquisas para o “Comentário Geral”). Chama-se “Catálogo Musical Irmãos Vitale” e demonstra fartamente o quanto a editora tem a ver com a história da música brasileira . Já incluí na minha relação de favoritos. Maiores informações: (21) 2220-8645. Marcos Souza no cinema
Chama-se “Chapada Diamantina” o novo CD do pianista Marcos Souza, com a trilha sonora do filme “Brilhante”, de Conceição Senna. É coisa fina e o lançamento é hoje, a partir das 20 horas, na Livraria da Travessa, em Ipanema. Por e-mail:
“Fico feliz por haver sido poupado em seu comentário sobre o filme ‘Coisa mais linda’ na última coluna. Sinal de que não disse bobagem. Seu leitor habitual das segundas feiras e admirador antigo. (Artur da Távola, ex-presidente do PSDB, Rio de Janeiro, RJ)
“Sem ter qualquer autoridade para tal, mas resguardado apenas por uma certa ousadia e memória privilegiada, gostaria de meter o bedelho, como se dizia, em sua afirmação sobre a importância de Elis Regina para a Bossa Nova. Lembro-me bem, que a nossa cantora maior, e esse título ninguém lhe roubará, chegou até mesmo um pouco tarde à Bossa Nova. Basta ver seus dois primeiros elepês gravados. Eu, pessoalmente, e tenho certeza que alguns outros privilegiados que conviveram, mesmo que por pouco tempo com ela, ouvimos muitas opiniões da nossa inigualável Pimentinha, sobre a Bossa Nova, à qual mais tarde ela veio a dar uma interpretação absolutamente genial, contribuindo, isto sim, para uma releitura da própria Bossa Nova. Para isso, seu casamento com Ronaldo Boscoli foi fundamental, a meu ver. Ele sim, um bossanovista desde os primeiros tempos, como aliás está no filme do Paulo Thiago. É lógico que muita gente boa ficou de fora dentre as que foram importantes no início do movimento e sua apreciação sobre a tímida presença de Baden me parece justa. Mas, se num livro a história que escrevemos é que nos dá quase sempre o número de páginas, tal não acontece infelizmente com o cinema e o audiovisual. Para que seja feita justiça ao que a Bossa Nova representou para a nossa música e para todos nós que aprendemos a amá-la, seria interessante uma série de TV como a que foi feita com o jazz nos Estados Unidos. Forte abraço do amigo, admirador e leitor assíduo.” (Luiz Fernando Goulart, cineasta, Rio de Janeiro, RJ)
“Ótimo, seu comentário sobre "Coisa Mais Linda", embora não ache que a minha filha apareça demais (mãe é mãe!). Por falar nisso, vou te mandar o CD dela que foi lançado no Japão e está para ser lançado aqui pela EMI, em breve.” (Kate Lyra, cantora, Rio de Janeiro, RJ)
“Tudo bem, Elis Regina foi , disparada ( sem trocadilho), uma da maiores cantoras de nossa música popular e junto com Jair Rodrigues comandou ‘O Fino da Bossa’, na TV Record . Mas colocá-la junto ao movimento da bossa nova, esboçado na década de 50 no Rio de Janeiro e já perfeitamente articulado na primeira metade dos anos 60, me soa um pouco estranho. Elis foi produto dos Festivais da Canção surgidos após o golpe militar de 1964. Antes desta data, músicas como "O barquinho" e "Samba de uma nota só" já faziam parte do meu universo pianístico, em 1962. Lembro que a Elis veio depois disso, no rastro de Chico Buarque e Edu Lobo. Mas no resto você tem razão. Parabéns pela coluna, excelente como sempre.” (Antonio Guerreiro de Faria, professor de Música da UNIRIO, Rio de Janeiro, RJ)
* Um movimento artístico não é sua geração primordial. Fosse assim, falaríamos do jazz sem Miles Davis, Charlie Parker e Billie Holiday. Falaríamos do choro omitindo Jacob e Waldir Azevedo. Movimento, como a palavra sugere, não é coisa congelada, engessada. O que caracteriza um movimento é exatamente a sua continuidade, gerar filhotes. Elis chegou a gravar para o musical ‘Pobre menina rica’, em 1964, sendo posteriormente limada do disco por Tom Jobim, Mas, três meses depois, em outubro do mesmo ano, incendiou o Teatro Paramount, em São Paulo, cantando ‘Terra de ninguém’, com Marcos Valle, no show ‘O remédio é bossa’. O bom filme de Paulo Thiago seria melhor se vencesse os limites da patota e se mostrasse mais generoso e agradecido com quem veio antes (Bonfá, Walter Wanderley, Djalma Ferreira, Lúcio Alves, Agostinho dos Santos) e depois (Elis, Baden, Zimbo Trio) e com quem segurou a bandeira de tocar e espalhar a bossa pelo mundo (Sergio Mendes, Edison Machado, Maurício Einhorn, Eumir Deodato, Dom Salvador). Entre outros tantos.
Roberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email:
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