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Escrito por Da Redação   
Thursday, 30 September 2004

Os fatores que fazem o Brasil perder vantagens comparativas na hora de atrair recursos externos


Alguns aspectos da realidade nacional: macroeconomia, violência, corrupção e lentidão do Judiciário - Em reunião com o board mundial da fabricante de dispositivos médicos Becton Dickinson, o presidente da subsidiária brasileira, Geraldo Barbosa, foi questionado sobre a realidade nacional.

A exemplo do grupo americano, outras companhias também têm um cardápio de preocupações na hora de decidir por aportar recursos ao Brasil.

A lista varia de empresa para empresa, e quase sempre põe o dedo em feridas que não são novas, mas que insistem em não cicatrizar. Funcionam como zonas de sombras, que retiram do investidor a visão de viabilidade do negócio.

Fazê-lo enxergar o retorno é o grande desafio do País, antes que outro o faça. E será uma pena perder o momento. Há muito não se via conjuntura tão favorável a uma retomada sólida da economia.

Empresas ouvidas apontaram um conjunto de fatores que inibem ou dificultam o convencimento da matriz estrangeira quando o assunto é investir no Brasil.

Entre os pontos mais citados estão deficiências de logística, complexidade e ferocidade fiscal e tributária, burocracia e ausência de crescimento sustentado. Em menor escala aparecem aspectos como inflexibilidade das leis trabalhistas, crescimento da informalidade, distorções tributárias e ausência de uma indústria local de componentes forte.

Nenhuma multinacional ignora a importância do Brasil como porta de entrada para a América Latina, tampouco o potencial do mercado brasileiro – principais pontos favoráveis ao Brasil.

No entanto, vantagens competitivas que até há algum tempo diferenciavam o País, como mão-de-obra qualificada e relativamente barata e infra-estrutura para prestação de serviços, são cada vez mais partilhadas por outras nações.

Distorções e carências

“A estrutura de custos brasileira ainda é competitiva, mas a cada ano perdemos parte dessa competitividade”, afirma o presidente da EDS, Chu Tung.

Não só o País piora como outros melhoram. Tung cita o exemplo da estrutura de impostos sobre a exportação de serviços: enquanto o Brasil amplia ano a ano a carga tributária, a Índia, por exemplo, não tributa esse tipo de transação.

O vice-presidente da Siemens, Aluizio Byrro, enumera ainda algumas incoerências, como o fato de que as alíquotas de importação de peças são, em alguns casos, mais elevadas do que o percentual que incide sobre o equipamento completo.

“Não existe incentivo à produção local”, constata. A distorção complica a vida de empresas como a sua, que iniciam a fabricação de um determinado produto no Brasil com índices de nacionalização próximos de 50%.

A taxa vai aumentando gradativamente, à medida que o item conquista mercado. “O índice de 70% de nacionalização seria ideal para sermos competitivos, principalmente num país com tantas dificuldades de logística”, diz Byrro.

Quando o assunto é logística, a insatisfação é quase unânime e passa pelos mais variados aspectos, do transporte ao armazenamento e desembaraço de importações e exportações.

O presidente da fabricante de autopeças Dana, Hugo Ferreira, conta que a dificuldade em contratar contêineres e fretes vem limitando as vendas externas.

A periodicidade com que navios e aviões deixam o Brasil também impacta os negócios.

“Se eu não entrego no prazo, outro fornecedor vai fazê-lo”, diz o diretor de assuntos corporativos da Dell, Fernando Loureiro. Ele usa como exemplo um contrato de fornecimento para a África do Sul.

O Brasil, que fica mais próximo, conseguiu provar que o custo de sua logística é menor que o da Irlanda. O problema é que saem apenas dois vôos semanais do Brasil em direção à África do Sul, enquanto da Irlanda partem cinco. “Se, por algum motivo, eu perder um embarque, a entrega será feita com quase uma semana de atraso”, diz Loureiro.

Para reduzir os riscos de atraso, incluindo os decorrentes das sucessivas greves que param a alfândega brasileira, as empresas se obrigam a manter estoques de segurança, o que eleva os custos.

Guia do investidor

“A política tributária é uma barreira, pois é difícil explicar a cadeia de impostos brasileira para a matriz”, conta o diretor-geral da AMD para o Cone Sul, José Antonio Scodiero.

Ele destaca ainda a dificuldade que o Brasil impõe à entrada de equipamentos para a produção, que chegam a ser taxados como insumo.

Segundo Scodiero, a ausência de uma política clara de atração de investimentos deixa o Brasil em desvantagem em relação à Índia e à União Européia, por exemplo.

Ele sugere que seja produzido um “mapa de investimento”, espécie de guia para o investidor, com todos os caminhos a serem seguidos para a perfeita regularização do negócio.

Ensinar o caminho das pedras seria um grande passo para um país onde impera a burocracia, outro entre os principais aspectos inibidores de investimento. “Gastam-se entre dois e três dias para conseguir a aprovação de um embarque”, reclama Loureiro, da Dell.

“A liberação de exportações e importações exige um excesso de papéis e chancelas”, faz coro o presidente da fabricante de ferramentas Starrett, Antony McLaughlin.

Sobe-e-desce

Outro aspecto levantado pelos executivos é a ausência de um crescimento sustentado, que faz com que o Brasil viva ciclos de expansão seguidos de estagnação. Isso inibe investimentos, pois reduz o retorno e dificulta projeções.

“Ciclos econômicos ocorrem em todo o mundo. O problema do Brasil é que eles são muito curtos, com altos e baixos num mesmo ano”, diz Ferreira, da Dana.

Retorno do investimento, confiança e crescimento sustentado são condições para que a Delphi, fabricante de sistemas automotivos, invista num país.

“Não há empecilho para investimentos no Brasil, mas, como o capital é limitado, o País precisa entrar na disputa com outros países”, diz o presidente da companhia para a América do Sul, Gábor Deák.

É inquestionável que no topo das premissas de investimentos estão o retorno e a viabilidade do negócio. Para muitas companhias esses pontos são favoráveis ao Brasil. Para outras nem tanto. Cabe ao País trabalhar para aumentar seu favoritismo no jogo de cadeiras do capital internacional.

Burocracia puxa para trás

Estudo divulgado recentemente pelo Banco Mundial (Bird) coloca o Brasil entre os piores lugares do mundo para se abrir uma empresa e mantê-la em operação. Na média, são necessários 152 dias para a abertura de uma firma no Brasil, o que o colocou na 141a posição entre os 145 países pesquisados, perdendo apenas para Haiti, Laos, Congo e Moçambique.

Em nações da Europa, principalmente na Escandinávia, gasta-se menos de dez dias. A burocracia funciona como uma âncora, impedindo o País de acelerar rumo ao crescimento. A estimativa do Bird é de que uma melhora nas condições brasileiras, de forma que o País se aproxime do nível de burocracia do Chile, seria capaz de reforçar o crescimento em 2,2 pontos percentuais.

Ciclos muito curtos

A ausência de crescimento sustentado, ou da certeza de que ele virá, inibe o investimento. Enquadram-se nessa categoria projetos de longa duração e de grande envergadura financeira, a exemplo de uma nova fábrica, uma termelétrica ou uma refinaria.

O diretor executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes de Almeida, classifica o investimento produtivo em três categorias: de curto, médio e longo prazos. No primeiro enquadram-se capital de giro ou compra de matéria-prima, por exemplo.

“São gastos de mais fácil ajuste e menor implicação no caso de erro”, diz. Na segunda modalidade estão aportes maiores, como modernizações ou adequações da planta, que já pressupõem uma avaliação sobre o futuro pois envolvem valores mais altos. Por fim estão os investimentos de longo prazo, que são feitos só quando a perspectiva para vários anos é muito boa.

“Além do cenário econômico, é preciso afugentar os riscos de regulação”, afirma. A avaliação do Iedi é de que o Brasil estaria hoje na segunda categoria de investimentos, com sinais ainda fracos para a terceira categoria.

A sugestão de Almeida é de que o governo dê estímulos aos desembolsos com medidas que barateiem o custo do investimento. A desoneração, segundo ele, poderia ser até mesmo por prazo determinado, como um ou dois anos.

Impostos: ruins, e vão piorar

Com mais de 80 tributos em vigor, o Brasil tem uma carga tributária das mais elevadas do mundo e altamente inibidora de investimentos. Basta dizer que o Fisco consome quase 40% de tudo que o País produz.

“Além de desestimular o investimento, a complexidade e o tamanho da carga tributária só estimulam a sonegação e a informalidade”, afirma Roberto Pasqualin, coordenador do Grupo de Trabalho sobre a Reforma Tributária da Amcham-SP. Tão grave quanto o número de tributos, na avaliação de Pasqualin, é a quantidade de tributos sobre uma mesma riqueza ou bem.

“É uma situação que deixa o Brasil em clara desvantagem na comparação com seus concorrentes no cenário internacional de investimentos, como Índia, China e Rússia”, afirma.

E a reforma tributária em curso no Congresso Nacional, “ao invés de favorecer o investimento responsável, favorece a evasão fiscal, a corrupção e o aumento da informalidade em geral”, critica.

Caminhos obstruídos

Mantidas as previsões de produção agrícola, de cimento, de minério de ferro e de aço para o ano que vem, o País corre o risco de sofrer o chamado apagão logístico, dada a incapacidade de transporte e armazenamento de tal volume.

“Não há capacidade de escoamento devido ao baixo nível de investimento nos últimos anos”, diz o consultor e presidente do Comitê de Logística da Amcham-SP, Oscar Spessoto.

Segundo ele, o investimento brasileiro em infra-estrutura correspondeu a 0,1% do PIB em 2003, enquanto a recomendação internacional é de que os aportes girem entre 3% e 6% do PIB. Sem expansão, os gargalos apareceram aos primeiros sinais de crescimento econômico.

A isso, soma-se o aumento das exportações, que tornaram ainda mais evidentes as deficiências de toda a infra-estrutura multimodal, que inclui portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e cabotagem.

 

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