No mundo circense toda boa ilusão é um espetáculo que diverte desconstruindo a realidade, deformando-a, dobrando-a sobre si mesma. Diante de um bom engodo nasce o sorriso da criança e a incredulidade do adulto. Assim, toda ilusão é desejável no universo mágico que se prende aos limites do picadeiro.
Fora dali é o espaço da realidade, da concretude da vida, onde as ilusões nem sempre trazem consigo o gargalhar da platéia. Fora da lona do circo, a ilusão se transforma em farsa e a incredulidade inocente em um sentimento embotado de desaprumo diante dos fatos que ignoramos. Do espanto pode emergir o desprezo. No espaço da política, estamos sempre sujeitos a testemunhar esta transformação de humores, não porque lhe seja algo peculiar, mas porque é um espaço onde as expectativas são sempre colocadas à prova. No devir das apurações de ilícitos, sobre os quais temos notícias de Brasília, o desmonte da ilusão tem se dado pelos próprios gestos dos farsantes em detrimento das mais otimistas expectativas. A verdade tem sido cada vez mais clara e aponta para o que realmente construímos em nosso país através das longas décadas do século vinte. Que me perdoem os pessimistas, mas, até então, talvez não tenha havido momento mais propício para agradecermos aos mentirosos, aos facínoras, aos irresponsáveis e a toda corja de bandidos que ainda desfilam com pompa e circunstância, por nos mostrar, com o descabido de suas farsas, que já é hora de acordarmos do doce sonho acalentado em nosso berço esplêndido. Não foi preciso nenhum duro golpe militar, ou qualquer outra articulação meticulosa de grupos ocultos, para deixar patente que o receituário da democracia brasileira ainda está longe de minar o efeito da ingerência da coisa pública, do descaso social ou dos mais tímidos sonhos de representatividade popular. A verdade, que vêm à tona através dos discursos e depoimentos dos ilusionistas do caixa dois, é que a mesma que denuncia o fato de que sonhamos com a república apesar de ainda dormimos em camas feudais; de que temos apenas a precária paisagem dos alicerces, mas insistimos em crer que o edifício da democracia já está construído. Se não nos iludimos, porque nos espantamos diante da ausência da imoralidade nas relações políticas entre nossos representantes civis, tendo em vista a precariedade e os desequilíbrios do sistema eleitoral brasileiro? Porque ainda achamos natural confundir política com politicagem? Se não nos iludimos, porque ainda é tolerável o populismo barato, que se apóia na desinformação dos excluídos? Se não nos iludimos, porque ainda nos deixamos levar pela idéia de que a ideologia partidária é a pedra angular dos discursos sérios, quando jamais houve no Brasil qualquer evidência duradoura de partidos que, democraticamente, tivessem conduzido os rumos do país? Vale lembrar que mesmo antes do pleito de 2002, quando ainda havia alguma expectativa neste sentido, a esquerda mobilizou-se claramente para “amolecer” a dureza ideológica dos grupos minoritários a fim de facilitar alianças e antecipar os quesitos necessários à governabilidade. Porque ainda suspiramos diante das previsões estatísticas pré-eleitorais como se não fossem meramente regionais ou divulgadas desinteressadamente pelas agências de notícias no rádio e na TV? Será que é difícil encontrar entre nós alguém que mude seu voto por causa disso? Certo, temos urnas eletrônicas. Mas, e daí? Ainda temos muitas bananas.
Caiuby Freitas, é cientista político. E-mail:
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