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Turismo Científico, Parque Nacional Serra da Capivara PDF Imprimir E-mail
Escrito por Da Redação   
Wednesday, 29 September 2004

Em 30 anos de trabalho, Niéde Guidon, arqueóloga reconhecida pela comunidade científica internacional, fez descobertas de vestígios concretos da presença do primeiro Homem americano na região.


Aos 71 anos de idade, completa, em 2004, 30 anos de pesquisa e descobertas arqueológicas importantes (na região de São Raimundo Nonato, no Piaui), datados com até 40 mil anos, incluindo milhares de pinturas rupestres, fogueiras, urnas funerárias e ossadas de animais pré-histórico, muitos dos quais estão reunidos no museu da FUMDHAM (Fundação Museu do Homem Americano), do qual ela é diretora.

O resultado de 30 anos de trabalho é um patrimônio cultural cuja importância é igual ao das cavernas de Lascaux, na França, ou as da Austrália, visitadas anualmente por milhões de turistas de todo o mundo.

Pagando agora com recursos pessoais alguns serviços para manter a estrutura mínima do Parque Nacional da Serra da Capivara e da FUMDHAM, Niéde Guidon tem poucas esperanças de que o país valorize e saiba aproveitar a riqueza cultural e o potencial turístico do que poderia ser uma saída para a miséria da região.

...

Em coletiva de imprensa, em junho/2004, no Museu de Arqueologia, na USP, Niéde Guidon, fez nova tentativa, apresentou os planos da Fundação para atrair o turismo para a região do Parque Nacional da Serra da Capivara.

"O Parque da Serra da Capivara possui uma área de 130 mil hectares, recebeu o título da Unesco de Patrimônio Cultural da Humanidade, foi considerado por emissários da Unesco como o melhor Parque Nacional da América Latina, e agora pleiteia o título de Patrimônio Natural da Humanidade. É uma das áreas remanescentes de ligação entre a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica, ocorrida há 7.000 anos".

"Possui também 545 sítios arqueológicos, com pinturas rupestres que demonstram as primeiras presenças humanas nas três Américas. Estes sítios, atualmente, estão ameaçados devido à proliferação de cupins e formigas, insetos que eram o alimento natural dos tamanduás bandeira, extintos pela ação de caçadores, assim como o tatu canastra. Tatu canastra e as emas estão extintos. A cada semana, são caçados de 30 a 40 tatus. Houve época que este número chegava a 100. Tamanduá-bandeira temos três. Ameaçados de extinção temos os catitus, as queixadas, as araras, as cotias e os veados. Esta é a nossa realidade".

De acordo com Niéde, o turismo será a maneira de manter o Parque e seus Sítios Arqueológicos e ainda desenvolver a região, trazendo empregos para uma das geografias mais pobres do Brasil.

"O turismo é uma atividade que emprega pessoas de todo nível e a Serra da Capivara tem tudo para receber o turista brasileiro e estrangeiro".

"Vamos ser uma opção complementar de turismo para o viajante que está nas praias. Ele irá para o litoral e depois para a Serra da Capivara, tornando sua viagem muito mais interessante".

Segundo estudos encomendados pela FUMDHAM, "com toda a infra-estrutura pronta", incluindo o aeroporto, hotéis (que já estão nos planos de uma rede hoteleira italiana) e o Parque Temático Arkeópolis, o Parque Nacional da Serra da Capivara tem potencial para atrair 3 milhões de turistas ao ano. Atualmente este número não passa de 15 mil.

"No mundo todo os Parques Nacionais geram dinheiro, menos no Brasil", diz Niéde Guidon. Lascaux, na França, atrai 2 milhões de turistas por ano, que é a metade do que o Brasil inteiro recebe de pessoas no mesmo período", disse a diretora da FUMDHAM.

O Parque Nacional da Serra da Capivara é Patrimônio Cultural da Humanidade, e foi considerado por emissários da Unesco como o melhor Parque Nacional da América Latina.

A estrutura montada nos últimos 10 anos para receber turistas é invejada por administradores de Parques Nacionais do mundo inteiro.

"Enquanto em alguns Parques na África, nas Américas e na Austrália estão disponíveis pouco mais de 5 sítios arqueológicos abertos à visitação do público, na Serra da Capivara estão abertos nada menos que 121 sítios".

"Mas, um só sítio na Austrália tem 750 funcionários e tem lucro de US$ 11 milhões por ano, e não tem a beleza do Parque Nacional da Serra da Capivara".

"Precisamos de dinheiro para sobreviver. Os Correios e a Petrobras estão tentando fechar uma parceria para nos doar pouco mais de R$ 200 mil ao mês, o que seria suficiente à manutenção do Parque. Só estamos esperando essa parceira sair para salvar 30 anos de trabalho de pesquisa".

A construção do Aeroporto Internacional da Serra da Capivara, cuja conclusão o governador do Piauí, Wellington Dias, prometeu para 2005, será um grande incentivador do turismo na região.

"Hoje, as estradas para se chegar ao Parque estão intransitáveis, o que dificulta imensamente a vinda dos turistas", disse Niéde que conclui,"houve verba para o asfaltamento da estrada entre São Raimundo Nonato e Petrolina. Na região o asfalto é conhecido como 'asfalto Sonrisal' porque dissolve com água. Foi o que aconteceu com as última chuvas".

Ela listou os problemas que a Fundação precisa enfrentar no dia-a-dia: invasões das áreas do Parque, pichações das pinturas rupestres, caça aos animais são algumas delas.

"Existem pessoas que invadem as áreas do Parque e queimam pneus para que a fuligem esconda as pinturas rupestres. Eles pensam assim: 'se o pessoal vir essas figurinhas vão querer me tirar daqui'. E destróem as pinturas. Muitas vezes, essa depredação é irreversível, as imagens não podem ser recuperadas".

Há também o museu cujo acervo tem múmias, que precisam ficar sob condições especiais para que sejam mantidas.

"Elas precisam ficar em salas com ar condicionado 24 horas e desumidificador, caso contrário se desmancham. E tudo isso requer dinheiro, sem a verba do patrocínio ou do governo, todo esse patrimônio - que é do país, pertence ao povo brasileiro" estará fadado à destruição", afirmou a arqueóloga que assegura ser dever da União assegurar o patrimônio cultural (mesmo porque no caso existe um compromisso com a Unesco).

O Parque Nacional da Serra da Capivara já foi tema de muitas reportagens no Brasil e no exterior e foi palco do primeiro Festival Interartes, que deve acontecer novamente no segundo semestre.

É parte do esforço para colocar no mapa mundial do fluxo de turistas as milhares de pinturas rupestres, registro de 40 mil anos atrás do primeiro Homem a habitar as Américas.

Finalmente, a arqueóloga Niéde Guidon convida a uma viagem diferente, exuberante em paisagens inusitadas e ao encontro da arte e das mensagens cifradas. Um patrimônio mundial inestimável, localizado no coração do Brasil.

...

Rede Nacional Pró-UC: Qual a situação atual do Parque da Serra da Capivara?

Niéde Guidon: Como toda unidade de conservação que está sob a fiscalização do Ibama sofre a inexistência de mão-de-obra e infraestrutura adequadas para a preservação. O Ibama tem dois funcionários para fiscalizar 130 mil hectares, que é a extensão do parque. A Fundação Museu do Homem Americano, entidade que é por mim presidida, ajuda na medida do possível. Temos 70 funcionários para auxiliar na administração e conservação do parque, mas também temos dificuldades. Agora, por exemplo, vivemos um drama porque aumentou a população de cupim e formiga, alimento natural dos tamanduás-bandeira, que foram extintos pela ação dos caçadores. Estes dois insetos estão ameaçando os sítios arqueológicos existentes no parque.


Pinturas Rupestres, Parque Nacional Serra da Capivara,

São Raimundo Nonato-PI

...

Desanimada de tantas promessas não cumpridas por governos, como o aeroporto, já iniciado e com as obras paradas, que viabilizaria investimentos de grupos hoteleiros e a vinda de turistas brasileiros e estrangeiros trazendo divisas para o cerrado, uma das regiões mais pobres e esquecidas do Brasil, Niéde Guidon envia carta aberta a seus colegas cientistas.

Carta Aberta ao Cientista e ao Homem do Futuro

Caro colega do futuro,

Você está quase no final de um século que vi nascer. No exercício de minha profissão, encontrei indícios, vestígios, e propus hipóteses sobre como vivia o Homem do passado, como usava suas ferramentas, como preparava suas armas.

Meu caro colega, mesmo não sabendo como você é – talvez uma máquina inteligente –, escrevo-lhe como se estivesse dirigindo-me a um Homem. E escrevo-lhe com a emoção de um Homem. Um Homem desse início de século que nos abriga.

Caso encontre dificuldade em entender-me, tenho certeza de que poderá recorrer a sofisticados dicionários, a sofisticados programas para computador, que lhe permitirão descobrir o sentido exato das minhas palavras.

No início, todos os Homens viviam como caçadores-coletores. Para adquirir conhecimento e conviver com as outras espécies da natureza, para sobreviver com os parcos recursos biológicos que tinham, esses Homens necessitavam de grande coesão social.

O saber era passado dos adultos para os jovens, igualmente. Sabiam que não podiam ter proles numerosas porque, ao contrário dos outros animais, o filhote humano levava anos para aprender e ser capaz de sobreviver só.

Todos executavam todas as tarefas, todos eram iguais. Os chefes comandavam com base em sua força física, que, como todos os recursos biológicos, nasce, atinge seu apogeu e definha.

Assim, um chefe exercia seu poder durante um tempo limitado, até que um outro membro da tribo, mais jovem, mais forte, o suplantava.

Os Homens temiam a natureza, reconheciam seu poder, um poder que, para eles, emanava de entidades sobrenaturais.

E essas entidades sobrenaturais comandavam as águas, os ventos, o fogo, os astros. Seres que viviam por sua conta e cuja passagem pela vida dos Homens era eventual. Os espíritos!

Em um momento dado de nossa história, alguém imaginou como fazer para garantir um poder mais duradouro, que não dependesse unicamente dos recursos biológicos.

Como a morte é um fenômeno que assusta a todos os animais, esse alguém imaginou uma história que tratava do além, da existência de seres sobrenaturais, da boa vontade dos quais dependeria a vida e o destino pós-morte de todos os Homens. Os Deuses!

Nesse momento começaram a se diferenciar os Homens. Aqueles que somente sabiam conviver com a natureza, que dependiam de sua força para sobreviver, e aqueles que tratavam com os deuses: os sacerdotes.

Os últimos, constituíam uma casta privilegiada, com poder assegurado.

Com o poder assegurado, não tinham mais que enfrentar a vida difícil do dia-a-dia, pois recebiam dádivas daqueles que não tinham o poder de tratar com as divindades.

Mas como os Deuses eram muitos, havia a possibilidade de tratar com seus intermediários, e o poder se diluía. Como concentrá-lo, então? Como colocar mais elementos de uma família, de um clã, no exercício do poder?

Novamente um gênio inventou outra forma de poder. Os Deuses escolhiam e davam a um homem o poder para que ele fosse o chefe de todo seu grupo. E esse privilégio passava de pai a filho.

Nasceram, assim, as dinastias. O poder concentrava-se cada vez mais.

As sociedades começaram a crescer além dos limites permitidos pela natureza, pois, para que alguns pudessem viver sem fazer nada, além de falar com os Deuses e dar ordens a seus súditos, para que pudessem viver em palácios, mergulhados em rendas e comendo iguarias, deveriam existir milhões de escravos, trabalhando para ter direito ao pão, à água e à procriação, engendrando muitos futuros escravos.

Templos, túmulos monumentais e palácios, sempre exigiram multidões de escravos para serem construídos e mantidos.

Com o aparecimento da escrita, das castas, o saber ficou concentrado naqueles que dominavam. Não era mais todos ensinando a todos.

Assim, começaram a aparecer as classes cultivadas e os ignorantes. Sempre poucos letrados para muitos ignaros.

E depois? Depois, um novo passo foi dado para concentrar e tornar o poder definitivamente esmagador. Um espírito genial criou o Deus único, engendrou o monoteísmo.

Concentrou-se o poder em um homem que representava Deus, infalível, cuja palavra deveria ser seguida sem discussões. Em torno dele toda uma corte, formando uma estrutura triangular, sempre poucos no alto, muitos na base.

O judaísmo, o catolicismo, o islamismo, o protestantismo. Cada grupo inventando seu próprio Deus, único, o certo, o bom, o que devia ser adorado. Quem nele não acreditasse, deveria ser exterminado.

Poder religioso e seu derivado, o poder civil, nunca se dissociaram. Juntos escreveram páginas com o sangue de todos os que se rebelavam e poderiam representar a menor ameaça a esse estado de coisas.

Assim, durante milênios, a sociedade humana acostumou-se com as guerras, com o extermínio dos que pensavam diferente, dos que não queriam se submeter e ser escravos.

Guerras pelo domínio das terras e dos povos, das riquezas do mundo. Guerras e perseguições contra os que negavam ou duvidavam do poder divino.

Os que falavam da bondade de Deus, de sua misericórdia, eram os que torturavam, mantinham em masmorras e matavam os que ousavam duvidar de sua palavra.

Mesmo aqueles que não duvidavam, mas que representavam uma presa interessante, pela sua fortuna, por sua mulher, por suas terras, também eram perseguidos, eliminados.

E como o Poder nunca se sacia, quando mais baixo encontrava-se o Homem na escala social, mais filhos deveria produzir. Sempre com a idéia de que, para sobreviver, necessitava de muitas mãos, mãos que o ajudariam a trabalhar e, mais e mais, agradar ao Poder.

Assim, vimos Homens torturando, matando, chacinando outros Homens. Vimos a Idade Média, a Inquisição.

A invasão das Américas e o aniquilamento de milhões de seres humanos que compunham os primeiros povos, que partilhavam as terras com todas as outras espécies, que viam o verde das matas e escutavam a algaravia dos bichos.

Em um dado momento, alguém se lembrou de um tipo de governo que havia existido em um pequeno país, criador de uma civilização, onde a cultura era difundida e o povo tinha suas tradições, a democracia.

Imediatamente, esse alguém pensou nas possibilidades que ela abriria se fosse implantada em países com elites cultas e massas incultas. O povo acreditou que estava elegendo seus representantes.

E, assim, o Poder, ao invés de ter que contentar milhões, teve unicamente de enriquecer, dar empregos e acanalhar os representantes desses milhões, algumas centenas de cidadãos que passaram a integrar um novo Poder.

Assim nasceram os políticos, prometendo uma vida maravilhosa para os que nele votassem, mas pedindo que esquecessem o que haviam escrito ou prometido no instante em que se viram investidos de Poder.

Vimos agir o nazismo, o fascismo, o comunismo. Homens sendo assassinados em câmaras de gás, fuzilados, torturados. Hiroshima e Nagasaki.

Os brancos rejeitando os negros e os amarelos, os negros rejeitando os brancos e os amarelos, os amarelos rejeitando brancos e negros. Os capitalistas. As classes trabalhadoras. E cada vez mais os donos do Poder aprimoravam-se.

A transmissão do saber, que havia sido concentrada, que havia passado da Igreja para a Universidade, formando jovens capazes de pensar e protestar, tinha de ser demolida. E a Universidade foi destruída. Ao invés do saber se ofereciam diplomas.

O Poder concentrou-se na tecnologia. Os tecnocratas, sem pensar em algo mais sofisticado, menos simplista, ativeram-se apenas às operações necessárias para conseguir que uma máquina executasse uma tarefa específica, que o computador resolvesse determinado problema.

Tudo orquestrado para que a necessidade de consumo aumentasse a cada instante, e mais impostos fossem pagos. Impostos que garantiriam educação para seus filhos, saúde para a família, estradas, cidades limpas e seguras, o direito ao lazer.

E o Poder recebia os impostos e decidia o que fazer com eles, mudando seus destinos, oferecendo escola de péssimo nível, saúde que significava morte mais rápida, bandidos ameaçando a todos.

O Poder podia solicitar empréstimos, aceitar juros extorsivos, quando precisava de dinheiro para uma fantasia qualquer, como construir uma capital nova! Mas quem pagava os empréstimos, mais os juros, era o povo, cujos filhos já nasciam com uma dívida enorme.

O rosário de sandices continuou: abriram a possibilidade para que o Homem fosse diferente dos outros animais de sua família. O Homem poderia viver mais do que seus primos macacos. Que felicidade...

Para viver mais, trabalharia mais, e manteria todo o sistema necessário, com isso continuaria arrastando seus males pelo mundo.

Num mundo onde só existia espaço para a arrogância, as outras espécies passaram a existir apenas em função das necessidades do Homem. Os animais eram torturados, viviam em pânico, aterrorizados.

Por quê? O porquê de tanta atrocidade? É isso que está me perguntando, meu caro colega do futuro?

Apenas para produzir mais e para nutrir a espécie que se fez dominante. E não parou por aí, não: milhares e milhares de espécies vegetais foram destruídas, dando lugar apenas àquelas que interessavam ao Homem.

Animais e plantas foram modificados geneticamente para aumentar a produtividade. Isso, apesar de continuarem pregando que Deus havia criado o mundo, e tudo o que existia sobre a face da Terra. O Homem corrigia e melhorava o que Deus havia feito!

Para culminar, decidiram que nem mesmo os filhos poderiam substituir os pais. O amor ao Poder era tal que criaram a técnica da clonagem, e cada um foi substituído por si mesmo.

A reprodução e os riscos de ver nascer um filho que não fosse digno de seu patrimônio ficou relegada aos que não tinham meios para se auto-reproduzir.

Destruíram, meu caro colega, a beleza do mundo, o prazer da vida. As primeiras sociedades humanas, pouco numerosas, eram solidárias. A generosidade da natureza podia manter todos saudáveis.

As sociedades humanas no início desse nosso século são compostas por bilhões de pessoas. Sociedades, na sua grande maioria, doentes, solitárias. A natureza foi destruída. Todo o alimento tem de ser comprado.

A água tem de ser comprada. Os dons da natureza, hoje, têm seus donos: o Poder. O Poder, sob suas inúmeras formas.

A competição é a regra da vida, e todos os Homens, mesmo sem ter consciência, odeiam seus semelhantes, potenciais competidores. E a eles atribuem a culpa de não poderem viver melhor.

E o que aconteceu com o Homem? É isso que está querendo saber agora, meu caro colega? Infelizmente, não poderei lhe responder a essa pergunta. Parti há muito. Mas tenho algumas curiosidades a respeito do seu tempo.

Me diga: o Sol que o aquece agora é o mesmo que vejo brilhar lá fora, ou ele foi substituído por algo artificial? As geleiras dos Pólos degelaram e invadiram territórios hoje ocupados por populações costeiras?

O que restou da camada de ozônio? Ela ainda existe? E a Floresta Amazônica, o que foi feito dela? Esvaiu-se em fogo e fumaça? A caatinga sobreviveu? Ou você nunca ouviu falar sobre ela?

Você já ouviu falar em macaco-prego? Já ouviu falar em veados-galheiros, vaga-lumes, bem-te-vis? Em tamanduás? Em tatus, araras azuis e vermelhas, sapos, morcegos, onças, cobras, beija-flores, sabiás?

Já conjugou o verbo sonhar, sorrir, acreditar? E as mentes? Conseguiram eles, por fim, dominar todas as mentes?

Nesse instante, caro colega do futuro, estendo o meu olhar pelo vastidão do que ainda é um pedaço do paraíso – um pedaço do paraíso chamado Serra da Capivara –, que Poderes nada ocultos insistem em ignorar, em destruir, e entrego-lhe este texto para que continue a contar como prosseguiu a nossa história, a história de todos nós.

Uma história que, por séculos e séculos, tem sido de amargura, aflição e terror.

Niéde Guidon
 


Assessoria de comunicação para a Fundação Museu do Homem Americano - FUMDHAM - http://www.fumdham.org.br/parque.php

Assessoria de Comunicação Zenza Americas

arvore.com.br

http://www.ecoviagem.com.br

Comentarios (16)Add Comment
Martha Brando
escrito por Visitante, 2004-12-03 19:57:02
Rio quatro de dezembro de 2004
Prezada Niéde,

Trabalho com a Marcia Chame e tive o prazer de estar com ela na ultima vez (final de outubro) que esteve no Parque Nacional Serra da Capivara fazendo parte de sua equipe no Projeto “Manejo e Sustentabilidade dos Reservatórios de Água no Semi-árido do Piauí”.

Felizmente eu já ouvi falar em veados-galheiros, vaga-lumes, bem-te-vis, tamanduás, tatus, araras azuis e vermelhas, sapos, morcegos, onças, cobras, beija-flores, sabiás, e mais muitas outras espécies animais e vegetais.

Também tenho o imenso prazer, orgulho e, sem dúvida nenhuma sorte, de tê-los como parte da minha vida, da minha história e se Deus quiser, do meu ganha-pão. Porque se eu estou nesse mundo passando por tudo que você falou nesta carta, sendo vítima, e até mesmo muitas vezes cúmplice disso tudo, pelo menos trabalhar em prol da conservação, se não vai ajudar a reverter esse quadro (que infelizmente acredito que não vá mesmo), pelo menos alivia a minha parte da culpa e me faz sentir um ser mais próximo dos homens catadores-coletores e dos animais, porém mais distante de muitos dos pesquisadores que conheço...

Lendo sua carta (destinada aos cientistas) e estando próximas as festas de final de ano, resolvi tomar a liberdade de fazer algumas cópias para entregar aos meus colegas da graduação (cuja grande maioria está hoje no meio do doutorado), em nosso encontro no próximo dia 22 de dezembro quando todo ano nos reencontramos.

Há cinco anos, minha turma se reúne para comemorar mais um ano de formatura, botar as fofocas em dia e, procurar continuar nos “reconhecendo”. Talvez eu esteja sendo um pouco ríspida, mas acho que é isso mesmo, nos reconhecer, pois como esse Homem do século XXI é esquisito, né?

Eu me amarguro em pensar que todos esses meus colegas me acham doida. Não que eu me chateie com esse “título”, mas me chateio muito ao pensar que sei que a maioria desses futuros doutores (assim como a grande maioria dos que estão por aí e eu não conheço), não páram nunca para pensar em tudo o que você fala na carta. Nunca como cientistas, pois assim como a grande maioria dos cientistas, pensam e produzem muito sobre suas pesquisas, seus micro-mundos mas, não querem e talvez não saibam, relacioná-las com o resto do mundo. No final das contas acabam nem sabendo para quê estudam aquilo... E poucas vezes como Homens, como cidadãos preocupados com seus futuros, para eles: é muito complicado... Não é a área deles....

Por isso resolvi entregar-lhes sua carta (uma vez que são todos cientistas) para tentar fazê-los pensar por uns minutos sobre essas coisas, tentando acompanhar e acordar para a cronologia tão bem disposta colocada por você. Provavelmente mais uma vez, vou ouvir que sou louca, que estou revoltada e que devia parar com essa mania de trabalhar no meio do mato...

Tudo bem, eu não me importo de ser a revoltada e lunática que não percebi que estamos no século XXI onde as pessoas querem consumir, consumir, consumir e, que a natureza são as árvores plantadas nas calçadas das grandes avenidas, no vaso das casas ou então uma linda fazenda produtora de gado de corte e leite, ou um vasto campo verde com alta produção de soja.... Não me importo de verem as minhas fotos tiradas aí na caatinga e que falem:
- É triste mesmo, tá tudo morto? Porque ouço:
- É sério, isso é mesmo pegada de onça!!!??? E ainda existe!!! “Cê é doida mulhé!”,
- Macaco de vida livre, é com isso que você trabalha! Mas como assim? Não é no zoológico?

Nessas horas fico feliz porque, sim Niéde, esse mundo de fantasia, de sonho que você trata na carta como passado, ainda existe, e faz parte do meu mundo, do meu trabalho, e deve ser conservado, por mais perdido e fadado à destruição que ele já esteja.

Com a sua carta sendo lida por mais alguns futuros “super-cientistas”, quem sabe não ativamos outros poderes ocultos presentes nessas pessoas? E tentamos unir mais forças para continuar acreditando que essa história pode não terminar tão triste?

“Sonhar não custa nada...”

Um abraço,
Martha Brandão.
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Gabriella
escrito por Visitante, 2005-02-17 21:14:58
meus parabns o seu site ficou d+!!
adorei
escrito por Visitante, 2005-03-27 12:54:32
adorei o site é super legal e informativo fiz questão de escrever pois me chamouy muita atenção.

Maria Eduarda (DUDA)
Num conto
escrito por Visitante, 2005-05-03 19:28:10
Que site d+!
A minha professora de Historia disse que a Nide d+ de dedicar a vida nisso!
Finalmente!!!
escrito por Visitante, 2005-05-18 18:42:57
Nossa finalmente consegui encontrar um site das artes dos homens da pre historia!!! Ufa!!! J cansei de procurar!!!
obrigado por existir!!!
alexandre
escrito por Visitante, 2005-05-27 15:50:25
adorei muito timo.
Turismo Cientfico
escrito por ale1362, 2005-05-27 15:51:06
a Serra da Capivara hoje é um dos grandes patrimonio histórico muito bom, Todos vcs que fizeram esse documento estão de parabéns.
Grazziella Debban
escrito por Visitante, 2005-06-21 13:42:33
O trabalho, a luta, a vida de Niéde Guidon são o maior exemplo de Brasil de memória... de futuro que pode dar certo: se não for em nome de nossa história, que seja pelas divisas que o turismo no parque podem trazer para seu estado e nosso país!
grazzielladebbané@yahoo.com.br
...
escrito por Visitante, 2005-08-01 19:15:05
uffa consegui achar um site para minha pesquisar escolar
BARBARA GABRIELA GALDINO
escrito por Visitante, 2006-03-08 17:59:27
ESTAVA LOUCA A PROCURA DEALGO SOBRE NIDA GUIDON E ESTE SITEME AJUDOU BASTANTE 08 03 06
Laila moreira
escrito por Visitante, 2006-03-22 08:44:32
Gostaria de saber tudo sobre sua vida mais um pouco resumido.Preciso disso para uma pesquisa para a sexta feira entao me interecei muito por vc e quero saber mais sobre vc
Tchau!
Laila
...
escrito por Visitante, 2006-03-23 11:29:43
uma merda
Orgulho e auto-solidariedade
escrito por Márcia Vanderley, 2006-10-29 18:56:45
Senhora Niéde Guidon, não sou cientista e nem tenho formação nessa área, mas acima de tudo sou basileira e PIAUIENSE e, sinto muito pelo descaso qua as autoridades tanto piauienses quanto brasileiras no geral, ainda tratam o PARQUE DA SERRA DA CAPIVARA, pois desta forma além desprezarem a HISTÓRIA, ainda colaboram com a continuidade do EMPOBRECIMENTO E PRECONCEITO SOCIAL com que é visto nosso estado perante todo o restante da nação brasileira e, porque não dizer do mundo ? Vc que é uma estrangeira, muito merece muito mais ser tratada como BRASILEIRA (E DE PREFERENCIA PIAUIENSE), do que os muitos homens e mulheres de PODER que temos elencados em nossa lista de "grandes" HOMENS QUE FIZERAM O BRASIL; É uma pena, mas vou pedir a Deus "que TUDO PODE" em minhas orações sempre que eu lembrar, para que dê a todo este achado assim como a você, TODAS AS FERRAMENTAS NECESSÁRIAS para atingir êxito neste nobre projeto. Parabéns, você conte com minha humilde colaboração, se precisar e, caso eu possa ajudar;
uma gota de agua
escrito por joao carlos pereira, 2007-10-08 19:30:20
gostaria de ser uma gota de agua, para com outras gotas transformar em riacho e no final sermos um oceano de esperança. como poderia ajudar a transformar aqui em minha região, não precisamos deslocar de onde moramos, pois cada lugar tem seus problemas ambientais, não sou formado nesta area, trabalho na area esportiva.parabens continue com este maravilhoso trabalho.
kkkhkhkhkhkhkhkhkhkhkhkh
escrito por igor agusto, 2008-04-04 12:45:09
meu esse site eu nem gostei =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ ==// =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/ =/
SOBRE A SERRA DA CAPIVARA
escrito por cicera ramos dias, 2008-04-27 01:51:59
EU ADOREI O ASSUNTO SOBRE A SERRA DA CAPIVARA

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