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Fala, ó Metamorfose Ambulante! PDF Imprimir E-mail
Escrito por Janer Cristaldo   
Monday, 20 September 2004

Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que “o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante”, fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição. Há um certo tipo de nordestino que não resiste a empregar proparoxítonas e quadri ou pentassílabos. Sente-se culto. Metamorfose – com sua ressonância grega – é uma palavra enorme na boca de Lula.

“Eu acho que a gente precisa todo dia levantar de manhã com a vontade de reciclar a nossa cabeça. Nós temos que reciclar a nossa cabeça, reciclar muitas vezes o nosso comportamento, reciclar as nossas decisões anteriores, ou seja, o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante”.

Claro que não foi em Kafka que o presidente encontrou a palavra. Foi na música “Metamorfose Ambulante”, deste ilustre pensador chamado Raul Seixas.

Ocorre que as sinapses do Supremo Apedeuta se reciclam rápido demais. O público sequer tem tempo de absorver um enunciado quando surge outro, diametralmente oposto.  No dia 29 de junho, abrindo a Conferência Nacional dos Direitos Humanos, havia dito:

- Pobre do país que precisa de heróis para defender a dignidade. Pobre do país que precisa de mártires para defender a liberdade ou de mortos para defender a vida.

No dia 19 de julho, em um evento em São Paulo, queixou-se:

- Em qualquer lugar do mundo que eu vou, eu tenho que levar flores ao túmulo do herói nacional. No Brasil não tem.

Afinal, precisamos ou não de heróis? Em junho, não precisávamos. Em julho, é deplorável que não os tenhamos. Em setembro, o Supremo confere as honras de herói ao brasileirinho desmilinguido que ganhou um bronze em Atenas.

Se antes o presidente reciclava sua cabeça de mês em mês, agora nos ameaça de reciclá-la todas as manhãs. É o que dá curtir roqueiros profundos como Raul Seixas. Mais um pouco e teremos citações deste outro grande filósofo, Paulo Coelho.

No dia 05 de agosto passado, Lula encaminhou ao Congresso um projeto de lei criando o Conselho Federal de Jornalismo, uma óbvia tentativa de reinstauração da censura na redação dos jornais, rejeitada por profissionais do país todo.

Dia 31 do mesmo mês, voltou a atacar a imprensa e criticou o denuncismo que "muitas vezes" prevalece sobre a notícia. De modo indireto, defendeu seu projeto de censura:

"É uma boa política não ter a preocupação na disputa eminentemente de mercado. É preciso pensar na qualidade da informação que o povo brasileiro recebe. Sobretudo num momento em que muitas vezes o denuncismo pelo denuncismo tem prevalência sobre a notícia e a informação".

Denuncismo porque agora o PT está no poder. Quando não estava, era legítimo direito de denúncia.

Duas semanas depois, no dia 14 de setembro, deitou verbo assumindo a pose de paladino da liberdade de imprensa. Destacou a importância da independência da imprensa e lembrou a censura do regime militar, assegurando que a censura não voltará ocorrer no Brasil, muito menos de forma dissimulada.

“Sem a necessária independência, os jornais estariam entregues a um amontoado de interesses menores, interesses partidários, religiosos, familiares ou econômicos que distorcem e estragam a informação”.

O Metamorfose Ambulante se metamorfoseia tão rapidamente que me confunde. Não chego nem a ter tempo de fixá-lo na mente como autor de um projeto de censura, quando já está propondo o fim da censura.

Propõe o fim da censura, mas não retira do Congresso o projeto de lei que institui a censura, enviado por ele mesmo. Ouçam o que eu digo e esqueçam o que faço.

Em matéria de reciclar decisões anteriores, Metamorfose Ambulante é imbatível. Em maio passado, em um ímpeto de tiranete do Caribe, tentou expulsar do país Larry Rohter, correspondente do New York Times.

Crime do jornalista? Escreveu o que o Brasil inteiro sempre soube, que Lula é contumaz cachaceiro. Não que o país saiba disto por terceiros. Em várias ocasiões e entrevistas, o presidente demonstrou seu apego – não a um bom vinho ou champanhe – mas à prosaica cachaça.

Curiosamente, dois meses antes da reportagem de Rohter, o jornal argentino La Capital, em entrevista feita com o cineasta Héctor Babenco, mancheteava com todas as letras: Lula está deprimido y bebiendo cada vez más.

Metamorfose Ambulante nem se manifestou. Comentários desairosos nos arralbades do continente, tudo bem. O que não pode é ter a imagem maculada na matriz.

Este mesmo senhor, não contente de hoje tentar censurar toda a imprensa com seu projeto canhestro enviado ao Congresso, o da criação de um Conselho Federal de Jornalismo (CFJ), há quatro meses pretendia – nada menos que isso – censurar a imprensa americana.

E isso porque a menção a seu apego ao álcool saiu num jornal americano. No dia em que sair na Europa, exigirá a censura do jornalismo europeu. Hoje, certamente influenciado por sussurros de seus áulicos, se apresenta como campeão da liberdade.

Não sem antes ter anunciado, num acesso de modéstia, que sua eleição foi um “um grande passo para a humanidade”. Como se a tal de humanidade tivesse algum conhecimento do que acontece no Brasil. Haja capacidade metamórfica. Pejem-se os camaleões, que só conseguem mudar de cor.

Não bastasse pretender sufocar a imprensa, Metamorfose Ambulante, ciente de que a maioria dos brasileiros participam de sua insciência, quer controlar também o último recurso de informação dos analfabetos, a comunicação audiovisual.

O consumo de jornais é mínimo no Brasil, e diminuiu para menos da metade nos últimos oito anos. A Folha de S. Paulo, que em 96 vendia 924.387 exemplares aos domingos, hoje vende apenas 379.600. O Globo, baixou de 731.383 para 352.836. O Estadão, de 655.723 para 302.543.

Censurar a imprensa escrita é o de menos, os leitores de jornais constituem uma minoria que não se reflete nas urnas e se torna cada dia cada vez menor. Urge censurar a mídia dos analfabetos, o cinema e o audiovisual.

Neste sentido, a tal de Ancinav, proposta pelo campeão da liberdade, é muito mais grave que o CFJ. Metamorfose Ambulante quer, nada mais nada menos, que o controle dos corações e mentes de todos os brasileiros.

Segundo o artigo 38 do projeto, a Ancinav, além de regular a exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais, regulará também a radiodifusão de sons e imagens e os serviços de comunicação eletrônica de massa por assinatura.

Que querem dizer com isto as eminências pardas do Metamorfose Ambulante? Por trás deste eufemismo, leia-se Internet. Mas não será fácil, Mr. Metamortose. Nem a ditadura chinesa está conseguindo.

Pobre do país cujo dirigente recicla a cabeça todas as manhãs. Hoje censura, amanhã liberdade de imprensa, depois de amanhã censura de novo. Ontem, contra a contribuição dos inativos, amanhã a favor. Ontem, fora FMI, hoje bem-vindo seja.

Hoje democracia, amanhã ditadura. Entende-se que uma pessoa mude sua visão de mundo, após um longo período de reflexão. Mudar a cada semana, só o Metamorfose Ambulante.

(*) Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor e vive em São Paulo

Comentarios (3)Add Comment
Idiota
escrito por Visitante, 2005-09-09 06:09:28
Mais uma vez os seus comentrios so idiotas e preconceituosos
Fala, Metamorfose Ambulante!
escrito por Visitante, 2005-12-25 04:59:37
:grin
Como sempre, quando se emite opinião contrária aos interesses desses que ai estão, somos taxados de preconceituosos, idiotas, etc... e eles, são o quê?
Apenas suas opiniões sãos as certas?!
O articulista lava minha alma com seus escritos sobre o Supremo Ignaro.
Como na maioria das vezes Janer foi excelente!
Tadeu - Tatuí/SP
...
escrito por Visitante, 2006-05-17 12:55:29
Fdpss

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