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Sem Imaginação, Vem a Indignação PDF Imprimir E-mail
Escrito por Carlos Chagas   
Thursday, 01 September 2005
Continua o presidente Lula carente de conselheiros capazes de tirá-lo do fundo do buraco. Agora, divulga-se sua decisão, tomada na elaboração do orçamento, de não iniciar projeto novo em 2006. A ordem é economizar, manter os projetos em andamento, mas não gastar um centavo em coisa nova. Estão destinados R$ 14 bilhões para as obras já começadas.

Não será por aí que Lula poderá recuperar sua imagem.

Falta imaginação ao renovado núcleo duro que assessora Sua Excelência. Porque, por exemplo, se pagaremos R$ 200 bilhões de juros das dívidas externa e pública este ano, prevendo-se R$ 220 bilhões a lógica indicaria uma imediata renegociação desses juros.

Nada mirabolante, mas se algo em torno de 10% desses totais pudesse ficar entre nós, mais do que duplicaria o montante para investir. Afinal, os recursos são nossos, vêm do suor de trabalhadores e do esforço de empresários nacionais.

Projetos existem em condições de inocular esperança na população frustrada, criando empregos e gerando riqueza. Prevalece, no entanto, a mesma concepção que nos empobrece. Num governo escoimado de denúncias de corrupção ainda seria possível aceitar o sacrifício. Mas na situação atual, o mínimo a esperar é que a frustração vire indignação, a ser expressa nas urnas.

Ingressos esgotados

Desgraças nunca vêm isoladas. Corre o governo o risco de ter acordado muito tarde diante do jogo do Brasil contra o Chile, domingo, em Brasília, na disputa pela classificação na Copa do Mundo.

O que o governo tem com a seleção de futebol, além, é claro, da torcida de todos pela vitória de nossos craques? Desde a semana passada os ingressos estão esgotados, apesar de caríssimos. Todos os 40 mil foram vendidos, tamanho o entusiasmo dos brasilienses em ver Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e outros.

Há preocupação no Palácio do Planalto, pois Lula estará lá. E como sua popularidade não é nenhuma Brastemp, seria péssimo se fosse recebido com vaias. Para neutralizá-las, precisariam organizar uma claque capaz de aplaudir o presidente com mais vigor do que os que irão apupá-lo.

Mas com os ingressos esgotados, não vai dar para incluir no estádio Mané Garrincha alguns milhares de petistas e militantes ainda confiantes no governo.

Muito menos posicioná-los num determinado local estratégico, diante da tribuna de honra. Claro que slogans favoráveis a Lula serão entoados, mas, sem organização, ficará o presidente exposto à reação espontânea da galera, formada em maioria por funcionários públicos e cidadãos da classe média. O povão não paga R$ 300 reais.

Enfim, o teste vem aí. Tem gente torcendo os dedos em figa, na Esplanada.

Sociólogo impossível

Eça de Queiroz, quando sem assunto para suas colunas em jornais de Portugal e do Brasil, costumava verberar acremente o Bei de Túnis, que nunca tinha visto. Acusava aquele governante de tudo o que de mal acontecia.

Mesmo não morando na Tunísia, não passa uma semana sem que o sociólogo deixe de dar motivos para estas pálidas crônicas, tão distantes em brilho daquelas escritas pelo mestre.

Nem se torna preciso perguntar se Fernando Henrique é candidato à presidência, porque é. Sua pérola mais recente, no "Clarin", de Buenos Aires, tenta demonstrar que seu partido precisa preservar o PT e Lula.

O PSDB não pode, segundo o ex-presidente, contribuir para a desmoralização das esquerdas, porque no lugar delas emergiria o populismo. Nada mais revelador do egoísmo do sociólogo. O País que se dane, até o final do mandato de Lula.

FHC teme que brotem da desesperança nacional candidaturas como as de Anthony Garotinho ou Roberto Requião, a quem indiretamente acusa de demagogos. Talvez fosse bom incluir o Enéias.

A superexposição do ex-presidente na mídia revela apenas sua fixação de surgir como o melhor dos tucanos para ascender ao Planalto. Vem minando as possibilidades de José Serra, deixa Geraldo Alckmin para depois e trata de convencer Aécio Neves a se reeleger em Minas.

Pretende ocupar o centro do palco encenando a farsa de estar empenhado na preservação das instituições, quer dizer, do defunto governo do PT.

Para quê? Para tornar-se ele mesmo o candidato, na hora certa. "Meu pai só se apresenta se o Brasil estiver mergulhado no caos", diz seu filho.

Pois o caos está próximo e mais ficará com as ameaças do desaparecimento das esquerdas e o enfraquecimento inevitável de Lula...

Carlos Chagas, Jornalista

 

tribunadaimprensa

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