Tenha terminado, esgotado seu impulso ou ainda possua desdobramentos, a crise de denúncias de corrupção já desenha um quadro novo no país. Antes de tudo por mudanças de caráter político e ideológico, cujas conseqüências marcarão pelo menos os próximos anos da vida do Brasil. Por sua profundidade e extensão, a crise marca pontos de não retorno em vários aspectos da vida do país, antes de tudo para a própria esquerda.
Uma nova correlação de forças Na sua globalidade, a crise marcou uma forte virada à direita – já iniciada anteriormente, tanto no plano político, quanto principalmente ideológico, com fortes pontos marcados pela direita.
Esta havia retomado a iniciativa, mas agora passou praticamente a monopolizar a capacidade de iniciativa, dando as pautas de discussão e conduzindo o debate, com grande poder de multiplicação. Pode-se dizer que houve uma acentuada mudança na relação de forças favorável à direita, seja pelo enfraquecimento do PT, seja pela disseminação da idéia da vinculação desse partido com a corrupção e as dificuldades que esse quadro apresenta para a esquerda no seu conjunto – petista e não petista – para poder agir de forma independente da direita, se na oposição ao PT, ou de sair da defensiva, se no governo. Com a direita colocando a pauta, a esquerda na defensiva ou confundida com a direita, a mídia multiplicando todos os temas, na mais prolongada campanha de acusações que o país já conheceu, a hegemonia ideológica do liberalismo cobra seus dividendos – seja no triunfo dos valores dessa ideologia na sociedade como um todo, seja pelo que a crise revelou como o próprio PT foi fortemente penetrado por esses valores. Ideologicamente a crise representa mais um triunfo liberal.
Em primeiro lugar, porque o PT assumiu uma concepção mercantil da política, das alianças, do financiamento das campanhas e da atividade política em geral.
Em segundo lugar, porque o bloco neoliberal passou das denúncias de corrupção às tentativas de criminalização de qualquer tipo de gasto público.
Em terceiro lugar, as denúncias contra o PT e a outros parlamentares, contribuem fortemente para a desmoralização da política e, como contrapartida, a valorização da economia – um suposto básico do neoliberalismo. O governo e o PT já não serão os mesmos O governo Lula sofreu sua reforma, adiada há tempos, mas aquela mudança mais diretamente vinculada à crise foi a saída do governo do seu segundo membro mais importante até ali – depois do ministro da fazenda, Antonio Palocci -, o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
Este não tinha se constituído em contrapeso à política econômica, apesar das expectativas que havia gerado e do espaço vazio para esse papel dentro do governo.
Mas representava um ator político de peso, mais diretamente vinculado à estrutura do PT, à bancada parlamentar e a uma rede de contatos dentro do governo federal e pelos governos do partido em todo o Brasil.
Pode-se dizer que ele era o grande articulador político do PT, embora perdendo espaços dentro do governo, desde a crise de Waldomiro Diniz. Desde então, sua queda foi impressionante. Se nos primeiros dias de janeiro de 2003 José Dirceu tomava posse como ministro chefe da Casa Civil, homem politicamente forte do governo, com um belo discurso que reivindicava sua geração, um ano depois começava sua debacle, com a denúncia do caso Waldomiro Diniz e dois anos e meio depois, é submetido a processo para cassação de seu mandato, já fora do governo, como simples deputado, tendo os principais dirigentes ligados a ele substituídos na direção do PT e a tendência majoritária do partido, organizada por ele, em processo de dissolução. Sua saída e sua perda de influência abrem campo, por um lado, para a autonomização maior ainda de Lula em relação ao PT – responsabilizado por ele pela crise – e para a renovação da direção do partido.
Os dois movimentos avançam em direções opostas: o governo tende a se tornar ainda mais moderado, conforme Lula siga considerando que, mais ainda em meio às turbulências atuais, a continuidade da sua política econômica é um fator de estabilização. Por outro lado, na véspera das suas eleições diretas, o PT renovará sua direção, provavelmente com uma composição mais à esquerda – seja que algum candidato da esquerda triunfe, seja que Tarso Genro se eleja (Tarso, desistiu de disputar as eleições pela chapa, já que não houve acerto na composição do Campo Majoritário), porém com uma composição em que a as tendências de esquerda tenham um peso significativo.
Assim como pelas posições conhecidas das tendências de esquerda, o partido se distanciará da política econômica atual, gerando uma relação de tensão com o governo. Em dois movimentos em direções opostas, o governo se torna mais conservador e o partido se torna mais sensível à esquerda e aos movimentos sociais. O resultado da PEC vai definir o panorama da nova relação entre o PT e o governo Lula. Mas a principal mudança é a desconstrução pública da imagem do PT, de partido da ética, para partido vinculado à corrupção.
Esta visão organiza a aliança da direita tradicional, com toda a grande mídia, chegando até a setores de esquerda – ou que se pretendem de esquerda -, que tem em comum a tentativa de destruir definitivamente o PT como partido.
Para isso, contam com a força criada na opinião pública, das denúncias de corrupção – sejam elas comprovadas ou não, terminem em punições graves ou não, atinjam a Lula ou não. Por essa mudança da imagem e também pelo desgaste do governo Lula, pode-se prever que o PT será fortemente penalizado nas urnas, diminuindo significativamente suas bancadas e seus governos.
Se Lula triunfar, terá pretexto para ter as mãos ainda mais livres para, de forma bonapartista, dar o caráter que deseja a seu eventual segundo governo, pela falta de apoio parlamentar suficiente do PT.
Se voltar o bloco tucano-pefelista, a oposição de esquerda terá mais dificuldades para atuar. O partido, por sua vez, terá sua composição interna mudada como nunca tinha tido na sua histórica. Pela mudança da composição da direção pela PED, pela mudança da composição das suas bancadas pelas eleições de 2006 e pela relação diferente que passará a ter, a partir daqui, com a população.
Se o espírito militante dos seus membros estava afetado pela linha adotada pelo governo Lula, este golpe aprofunda ainda mais esse efeito. As pesquisas que dão, pela primeira vez, a possibilidade de vitória de um candidato tucano, colocam de fato o tema do governo Lula se limitar a um único mandato e a esquerda ter passado pelo governo sem ter saído do modelo neoliberal.
Lula tentou contornar a perda de apoio nos formadores de opinião, apelando para o apoio popular.
Mas como no Brasil a formação de opinião publica é fortemente monopolista e centralizada, ela se espraia do centro formador – com eixo na mídia privada – e vai se estendendo, por meio de círculos concêntricos, para a periferia, chegando ao resultado de perda de apoio de Lula também nas camadas mais pobres da população. Coloca também a possibilidade de que Lula não seja candidato a um segundo mandato, abrindo a possibilidade de que o PT, caso avance sua renovação interna, possa fazer uma campanha em ruptura com o modelo do governo Lula.
Seria a melhor hipótese para a esquerda, com o grave risco atual de acentuar sua dispersão e fragmentação, com a saída de parlamentares para partidos distintos.
O resgate da esquerda requer o resgate das forças anti-neoliberais que ainda são majoritárias no PT – principalmente em sua militância -, o que suporia redefinir a relação do partido com os movimentos sociais, com os intelectuais e com a própria militância de base. Os movimentos sociais, embora golpeados pelo debilitamento da esquerda, recuperaram capacidade de ação, lutando contra o impeachment, mas também contra a política econômica do governo.
A renovação da direção da CUT contribui para isso, constituindo em um pólo eventual de reagrupação para a esquerda.
Quanto às tendências de esquerda do PT, sua possível proporção maior na nova direção do PT, lhe apresentam uma situação mais propícia para atuar, embora no marco negativo da mudança da correlação de forças desfavorável para o PT e para a esquerda, com a militância desalentada e com a perda de novos quadros. A eventual aprovação de algum projeto de reforma política, favorece à esquerda, ao diminuir o peso financeiro das campanhas, dos showmícios, ao promover o financiamento público, permitindo campanhas mais programáticas, embora em um marco de desmoralização da política, que pode ver o aumento da abstenção e de candidaturas despolitizadas. A oposição revigorada A oposição, incluindo os partidos opositores de direita, os que pretendem estar no campo da esquerda, mas na oposição, assim como a grande mídia privada, conseguiram grandes vitórias.
A imagem do PT foi profunda e talvez irreversivelmente abalada, passando a estar colada à corrupção – na exata contramão da conquistada anteriormente. A direita conseguiu assestar duros golpes na imagem do PT, promover a provável cassação de vários parlamentares do partido – entre eles José Dirceu -, colocou Lula na defensiva, com acusações que se aproximam dele, conseguiu debilitar o apoio social do presidente, levando a que pela primeira vez não apareça mais como favorito e talvez tenha conseguido que se candidate outra vez – até aqui, o maior medo da direita: o apoio popular de Lula. A direita se apresenta diversificada, mas fortemente unida na oposição radicalizada ao governo Lula e ao PT. Conseguiu restabelecer aliança estratégica com os grandes órgãos da mídia privada – Folha, Globo e TV Globo, Estadão, JB, Veja, Isto É, Época – reestruturando um grande bloco de direita, de forte capacidade de formação de opinião publica, de influência sobre o sistema de poder e sobre o governo.
A diferença entre a estratégia tucana de sangrar Lula para derrotá-lo no próximo ano – com alguns de seus intelectuais acreditando que o melhor opositor para eles é um Lula enfraquecido, para evitar que um PT renovado possa recuperar militância e capacidade de disputa com eles, inclusive com um modelo econômico alternativo – e a do PFL, de tentar o impeachment, não impede uma ação conjunta na crise, agudizando-a de forma sistemática e contando com a competição entre os órgãos da imprensa privada. Esta recuperou seu papel de partido político das classes dominantes brasileiras, articulando a mediação entre o grande empresariado e seus representantes políticos. Uma burguesia – fundida entre suas frações nacionais e internacionais, financeiros e industriais, comerciais e agrárias – forte economicamente, mas débil nas suas representações partidárias, encontra na mídia sua articulação política e ideológica.
Os interesses econômicos de uma mídia endividada, a levam ainda mais a jogar suas cartas em um retorno do bloco tucano-pefelista, com quem mais diretamente casou seus interesses, ainda mais diante de um PT enfraquecido e uma esquerda atomizada. O horizonte aparece favorável ao retorno da direita ao governo, embora passando por uma disputa entre os tucanos e o pefelistas – estes buscando uma aliança com os peemedebistas -, uma disputa que os favorece, por somar votos com uma plataforma comum.
Poderiam garantir a consolidação do modelo econômico, sem uma força de esquerda forte para pressioná-los, o que pode permitir que desenvolvam programas sociais compensatórios, para dar um tom menos conservador a seu governo.
Emir Sader, é jornalista e escritor. Especialista em América Latina, é o Sociólogo marxista de maior influência e respeitabilidade no País. Filósofo, Professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História".
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