Fala, Brasil! - Cláudio de Moura Castro, Economista Polêmico
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Cláudio de Moura Castro, Economista Polêmico PDF Imprimir E-mail
Escrito por Alethea Muniz, (Foto) Acacio Pinheiro   
Sunday, 28 August 2005
Suas opiniões são polêmicas, sobretudo em relação à atual política nacional. Favorável à entrada do capital estrangeiro no sistema educacional brasileiro e defensor das universidades com fins lucrativos.

PERFIL

Nascido no Rio de Janeiro em 1938, graduado em economia pela Universidade de Minas Gerais (UFMG), com especialização pela Fundação Getúlio Vargas, mestrado pela Universidade de Yale e doutorado pela Universidade de Vanderblit, Moura Castro foi diretor-geral da Capes ((Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), entre 1979 e 1982, economista sênior do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), lecionou na UnB, na PUC/RJ e nas universidades de Chicago, Genebra e Dijon. 

 
Acacio Pinheiro/Cespe

O economista Cláudio de Moura Castro afirma que não existem três países no mundo em que a pesquisa científica tenha crescido tanto quanto no Brasil. A declaração vem acompanhada por números: o país exporta 1% do comércio internacional e exporta 1,5% da ciência internacional. Embora os dados sejam animadores, diz que é necessário outro passo: “Precisamos perder milhares de cérebros, porque essas pessoas vão fazer a diáspora com quem está aqui”.

Atualmente, Moura Castro é presidente do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras, autor de 35 livros e de mais de 300 artigos científicos.

Ele esteve em Brasília na última terça-feira, 23 de agosto, para lançar o livro "Crônicas de uma Educação Vacilante" (Editora Rocco), seleção de textos publicados na revista Veja nos últimos dez anos. A seguir, principais trechos da entrevista que concedeu.

Podemos ser otimistas em relação ao ensino de nível superior no Brasil?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO  – Razoavelmente otimistas. Por exemplo, quando me lembro dos meus colegas de economia e quando vejo as turmas que entraram depois, posso dizer que os pesquisadores de hoje são muito melhores. O que há é o seguinte: os bons estão cada vez melhores, mas entrou na universidade uma multidão de gente mal preparada. Está entrando gente virtualmente analfabeta, ou para usar o termo técnico, analfabeto funcional. Isso também acontece nos Estados Unidos, onde você tem uma proporção de 10% ou 15% de pessoas que entram no ensino superior e também são analfabetos. Diante da inação do Estado para consertar o ensino fundamental, isso é um mal menor, porque você conserta no nível que não era para consertar. Para falar em termos extremos, o menino entra analfabeto e sai sabendo ler e escrever.

Existe um descaso com o ensino fundamental?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Totalmente. A década de 1990 foi a única na história do Brasil em que prestamos atenção e demos prioridade ao ensino fundamental e médio. E agora, nos anos 2000, nenhum ministro parou e disse “a grande prioridade deste governo é o ensino fundamental”. Na minha cabeça, deve ser a única prioridade. O resto é perfumaria. Se você faz isso, o ensino superior se conserta sozinho.

Acacio Pinheiro/Cespe

O Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) contribui na redução da distância entre o ensino médio e o superior?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – O PAS tira o fator traumático do vestibular, começa a fazer o aluno estudar um pouco antes. Não é uma política de inclusão, é uma solução educativa em vez de ser social, por isso, o Programa nem ajuda nem atrapalha quem fica de fora. É um modelo que esparrama pelo tempo, então despolariza aquele trauma, dirige melhor o esforço do aluno. É uma solução para alunos que, ao se auto definirem com boas chances de entrar na UnB, já estão descolados do resto.

Como o senhor avalia o projeto de Reforma Universitária concluído pelo MEC?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Que reforma?

Não podemos falar em reforma? O projeto elaborado pelo Ministério da Educação não avança o debate?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – O projeto não tem uma concepção da universidade que a gente gostaria de ter daqui a uns anos. Todos os países que fizeram esse exercício, entre eles Chile, Singapura e Coréia, convergiram no mesmo: queremos umas poucas universidades com padrão internacional. São países que querem dar o salto na educação superior. Se você procura isso na nossa reforma, não encontrará nem diagnóstico do passado nem visão do futuro.

Qual é a debilidade do projeto?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Esse projeto só faz mostrar a xenofobia do Ministério, porque essa lei não serve para nada. O que acontece? Eles fizeram uma lei que diz que as instituições com objetivo de lucro só podem ter 30% do capital, mas esqueceram de ver se existem instituições com objetivo de lucro fora do Brasil com o perfil de vir para cá.

O que muda em uma universidade com objetivo de lucro?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Você não precisa dar satisfação a ninguém. O que significa? São vantagens de simplificação administrativa, quer dizer, eu pago imposto e não preciso inventar historinha para ninguém. O Pitágoras é assim.

O senhor acredita que a reforma será aprovada pelo Congresso Nacional?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Há uns meses, alguém diria que o Congresso estaria passando por isso? O fator fundamental é que a reforma do lado público custa mais de R$ 4 bilhões, porque é o preço de tirar os inativos da folha. Ora, com muito sacrifício, O MEC conseguiu uma promessa de receber R$ 3 bilhões da Fundep, agora depois disso vai ganhar mais R$ 4 bilhões para tirar os inativos? O governo terá coragem de tirar os inativos? Isso é uma bola de neve incontrolável. Se abrir o precedente de tirar os inativos do MEC, o que fazer com os outros? Acho pouco provável que a Fazenda esteja disposta a botar quatro mais 4 bilhões na educação.

Então, o projeto chega a ser inviável?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Sim, porque é uma autonomia sem prestação de contas, mas também um apoio financeiro. Se você tira esse apoio, dificilmente as universidades públicas vão aceitar essa reforma.

Ou seja, na opinião do senhor a proposta vai fracassar.
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – E fazer o quê? Reformar somente o privado? Quer dizer, fazer uma lei em que todos metem a mão no privado e o dono não manda? É muito difícil. Você tem cem deputados que, direta ou indiretamente, estão envolvidos com o ensino privado. Se bem que você nunca sabe o que esperar do Congresso. Têm coisas que às vezes passam numa votação à noite, mas neste caso é difícil imaginar.

No ranking das 200 melhores universidades do mundo não consta nenhuma instituição brasileira. Estamos tão mal assim?
CCLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Existem críticas aos critérios utilizados nessa pesquisa, mas uma coisa é certa: o erro metodológico não vai mudar a realidade. Se você mexer, mexer... não estarão 30 brasileiras.

E as melhores estão nos Estados Unidos.
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Os Estados Unidos lideram essa lista. Entre as 35 melhores do mundo, cerca de 20 são americanas. O que os europeus fazem para não perder os seus melhores pesquisadores para as universidades americanas é um absurdo. E sempre foi o destino preferido dos pesquisadores brasileiros. Tínhamos esse dado nas avaliações que fazíamos para os alunos que ganhavam bolsa da Capes.

Os pesquisadores brasileiros saem e voltam ao país?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Voltam, todos. Você não tem três países no mundo em que a ciência tenha crescido mais que no Brasil. Com exceção da Coréia e talvez Taiwan e China, que disputam com o Brasil o crescimento da ciência. Quantos dos 30 países que produzem ciência pertencem ao 3ª mundo? Supondo que a Coréia não é 3º mundo, só tem Índia e China.

Quais são as características do Brasil em pesquisa?
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Tem uma característica interessante: o Brasil exporta 1% do comércio internacional e exporta 1,5% da ciência internacional. É fantástico! O Brasil não perde cientistas. E tem 5% dos pesquisadores estrangeiros. Quando você põe a perda de cientistas numa tabela, o Brasil não chega a aparecer nela.

Então, não podemos falar em fuga de cérebros no Brasil.
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – Eu falo sempre: a gente precisa perder mais cérebros. Muito mais! Precisamos perder milhares de cérebros, porque essas pessoas vão fazer a diáspora com quem está aqui. Precisamos fazer como os coreanos e os chineses, que estão nos Estados Unidos fazendo pesquisa. Ou os indianos, que vão para lá e contratam os amigos da Índia. O Brasil produz nove mil doutores por ano e, se perde dez, perde muito. É preciso que as pessoas trabalhem na Alemanha, na Inglaterra... Porque eles vão mandar e-mail contando como está a pesquisa por lá e vão convidar os daqui para seminário, por exemplo. Não perdemos o bastante. Nos três anos em que fui diretor da Capes, não teve um pesquisador que não voltou. Nenhum! Na época, a gente ficava satisfeito, mas hoje não penso assim.

Os pesquisadores da Capes assumem o compromisso de voltar ao país.
CLAÚDIO DE MOURA CASTRO – É, mas agora precisa ficar mais. Estamos competindo com a Coréia e os coreanos ficam nos Estados Unidos.

Alethea Muniz, da Assessoria de Comunicação do Cespe/UnB.

 

unb

Comentarios (1)Add Comment
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escrito por carlos ferrer, 2007-03-07 23:40:20
Ao ler esta entrevista com o respeitado professor Claudio de Moura e Castro, me reportei a um relatório do qual ele é autor e que eu gostaria muito de le-lo.
Trata-se de um relatório organizado por Castro em 1994 sobre a reforma do Ensino Profissional , que viria a ser implantada pelo MEC conjuntamente com o BID.
Seria possivel me indicar os caminhos para que eu possa chegar até este documento ?
Aguardo.
Carlos.

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