Ninguém agüenta mais. Chega! Ultrapassaram todos os limites. De Delúbio Soares a Marcos Valério, de Duda Mendonça a José Dirceu e tantos outros e outras, em seus depoimentos nas CPIs, no Conselho de Ética da Câmara, na Polícia Federal e no Ministério Público, o festival de mentiras não apenas choca e envergonha, mas enraivece todo mundo.
Querem demonstrar, os depoentes, que não houve corrupção, nem mensalões, muito menos utilização de dinheiros públicos, caixa dois, tráfico de influência e roubalheira ampla.
São todos uns anjos, evoluindo em torno da verdade. Sob esse aspecto, investigar tornou-se inviável. A depender do que falam, mesmo envolvendo contradições, deveria a nação pedir-lhes desculpas, recompor o espaço para suas operações ilícitas e transformar Lula em imperador e defensor perpétuo do Brasil.
Há quase noventa dias ouvimos denúncias de toda ordem, evidências de desonestidade e até provas do maior escândalo da História da República.
Mas quase nada em decorrência das oitivas dos implicados. Fosse na China, aberta economicamente ao mundo, mas fechada em termos políticos, tiros na nuca já teriam sido disparados. Não que se defendam soluções radicais, mas é pouco esperar que a população dê a resposta só nas eleições, derrotando os implicados.
É preciso alterar o Código Penal, ou os Regimentos do Congresso, estabelecendo que mentir perante as CPIs dá cadeia. Tanto quanto roubar dinheiros públicos.
Manobras escusas
Tem uma armação, nessa crise, que deixará todo mundo de cabelo em pé caso se concretize. Já repararam que os principais implicados na roubalheira preparam a cama para continuar liderando seus respectivos partidos?
Valdemar da Costa Neto renunciou ao mandato, não à presidência do PL. Nos depoimentos, não revela o nome de um só deputado do seu partido que recebeu mensalão. A ameaça é óbvia: se tentarem depô-lo, denunciará os que privilegiou com dinheiro vivo. Se aceitarem sua permanência, continuará calado.
No PP, o mesmo. José Janene e Sandro Mabel deixaram claro: se tentarem atingi-los com a deposição da liderança ou a cassação abrirão a boca. Contarão tudo. Parte da ameaça atinge também o governo. Dizem que até lá em cima.
Fica evidente que Roberto Jefferson será cassado, mas só não continuará gerindo o PTB se não quiser.
Por fim, o PT. Qual a explicação para José Dirceu insistir em integrar o novo comando do partido, a ser eleito em setembro? A mesma dos demais. Caso não votem nele e em seus companheiros para integrarem o Diretório Nacional, em vez de Tarso Genro, arquivos serão abertos e intimidades, reveladas.
Não é fácil derrubar corruptos.
Severino Joga de beque
Apesar de deputados e senadores, na quase totalidade, sustentarem a importância de aprovação imediata das reformas política e eleitoral, na verdade poucos estão empenhados nas mudanças. Da boca para fora, defendem, sugerem e exaltam as excelências de dezenas de alterações ditas necessárias e imprescindíveis.
Na prática, porém, fogem das reformas como o diabo da cruz. Elas poderão prejudicar o conjunto e, individualmente, atingir o futuro de cada um.
Mas como justificar essa manobra para a opinião pública? Aparecer com roupa de vestais quando, na realidade, tentam manter os trapos que vestem?
Encontraram a saída na ingenuidade do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Na intimidade, estão fazendo a cabeça do sertanejo.
Querem convencê-lo a ganhar o próximo mês numa tramitação lenta dos projetos, até mesmo na sua paralisação, por conta de mil e um argumentos: não há tempo para um debate amplo, os prazos terão que ser cumpridos, é arriscado mudar o que precisará ser mudado logo depois.
Resultado
Salvo milagre, as reformas não serão aprovadas até o prazo limite de que necessitam para valer já nas próximas eleições. Começará, então, a mesma farsa encenada há mais de vinte anos.
Discussões estéreis, sugestões mirabolantes e adiamento permanente das medidas mínimas que serviriam para melhorar o processo político.
Carlos Chagas, Jornalista
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