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E Que Mulher É Essa Ninfeta PDF Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Roberto Pires, (Foto) André Gardenberg   
Thursday, 25 August 2005
Quanto mais reflito sobre o intelectual hoje, mais penso em Cléo Pires, ou melhor, na Lurdinha.

“Esboço de auto-análise” é um livro surpreendente. Nele, Pierre Bourdieu, o sociólogo mais citado do século 20, passa em revista sua formação, mostrando como as relações sociais e intelectuais são indiscerníveis.

Escrito pouco antes de sua morte, em 2001, o “Esboço” fala muito do papel do intelectual em nossos dias, papel esse que o autor de “A economia das trocas simbólicas” encarnou com perfeição e riqueza de ambigüidade e contradições.

Quanto mais reflito sobre o intelectual hoje, mais penso em Cléo Pires, ou melhor, na Lurdinha. Como meus seis leitores sabem, viciei-me em “América”, uma boa droga: não faz mal para o fígado, não faz pensar e, sobretudo, não faz sentido.

Desde o início, entre os peões de Boiadeiros, os mariachis de Miami e os suburbanos de butique do Rio de Janeiro, Lurdinha é, pelo menos para este que vos digita, uma sensação.

Cléo Pires faz parte daquela categoria de mulher que é melhor não ver. Quando estava ali, na margem da trama, só abrindo a boca (e que boca) para dizer “Tiiiiio” e lançando sorrisinhos safados para sua vítima, o executivo Glauco, já estava entre as melhores coisas da novela – junto com Quartz, o labrador que rouba a cena do inominavelmente chato Jatobá, e Bandido, o boi que parece Alec Guinness perto do expressivo Tião.

A diferença é que, além de roubar a cena com sua beleza, a filha de Glória Pires não é só filha da mãe, mas uma atriz e tanto.

E ela é tão boa (ops) que está conseguindo emprestar realidade para a função absurda que Gloria Perez destinou à sua personagem: o de ninfeta emancipada, Lolita pós-Camile Paglia, que dança funk, faz fofoca com as amigas e, nas horas vagas, lê escondido manuais de feminismo.

Pois só isso para explicar por que ela, toda provocação, se mostre mais resoluta que uma perua de “Sex and the city” na hora de botar na parede (êpa) o Edson Celulari, quer dizer, o Glauco, e enchê-lo de exigências só para começar a brincadeira.

Vamos combinar que “América” é um desfile de situações e personagens que não fazem muito sentido. Não é preciso pensar muito. Basta lembrar que Ed, o americano abobado, viu seu caminho cruzar com o de Sol quando ela saiu de uma caixa (!) de papelão onde havia se escondido.
Sim, isso mesmo, e a trama corre como se nada extraordinário tivesse acontecido.

E que Creusa, a crente vivida (?) por Juliana Paes (?!?!??!), anda sempre de lingerie e cinta-liga por baixo do vestidão de chita. Esta é a vida como ela é no universo paralelo da novela.

Diante disso, faz todo o sentido que Lurdinha, deliciosamente provocante, esteja empenhada em faturar o pai da melhor amiga e, na hora agá, exija: que ele se separe da mulher, com quem é casado há bilênios; que ele dispense a amante que mantém há oito anos; e, é claro, que ele case com ela.

Mais enrolado que deputado na CPI, Glauco cumpre a lista de exigências e ganha sexo ardente e sorvetinho na boca – em Miami, é claro, onde o casalzinho vive sua louca história.

Além de listar exigências, Lurdinha é boa frasista, como me lembra a Antonia Pellegrino: “Não sou pano de chão pra só ficar em casa”, avisou ela diante da possibilidade de freqüentar a clandestinidade dos amantes.

Em poucas e boas palavras resolveu a crise de Glauco, que se pelava de medo da mulher enfurecida: “Você não gosta mais dela, ela não gosta mais de você: então pronto”. Uma Simone de Beauvoir, essa menina.

Buscar sentido em Lurdinha é mais difícil do que se concentrar em Bourdieu. É sobretudo inútil, pois graças a Cléo Pires você acaba acreditando em qualquer coisa que ela faz ou diz. Outro dia mesmo, ouvi na sala: “Tiiiiio”. E achei que era comigo.

Como eu ia dizendo, “Esboço de auto-análise” é fundamental para entender o papel do intelectual hoje.

 

nominimo

Comentarios (1)Add Comment
MickeyRourkewaw
escrito por Visitante, 2006-07-04 07:17:15
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