| Cultura & Mídia |
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| Escrito por Roberto M. Moura | |
| Monday, 22 August 2005 | |
De Beatriz Sarlo a Augusto dos Anjos O melhor em Beatriz Sarlo é que ela fala da Argentina e é quase sempre possível ler Brasil. Em “Tempo presente” (José Olympio), por exemplo, ela aborda a dívida impagável que nossos governos têm com seus povos. Lá pelas tantas, conclui: “Os pobres têm corpos sem tempo. Por isso as mulheres que têm trinta anos, oito filhos e um marido desempregado ou preso parecem tão velhas. Por isso os corpos dos velhos pobres parecem aniquilados. Para eles, o tempo já se esvaiu por completo: nasceram, cresceram e envelheceram no hiato em que um jovem próspero entra na primeira etapa da maturidade.” Quem discorda? Talvez possamos olhar esses velhos e repetir, com Augusto dos Anjos em seus “Versos íntimos”, que “ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera”. Lembro do poeta paraibano de “Eu e outras poesias” por que a Editora Ática acaba de relançar o que é provavelmente a melhor reedição de seu único livro. Melhor por agregar introdução, notas e conceitos do poeta e ensaísta Sergio Alcides, que vão didaticamente tornando simples aos olhos do leitor poemas e idéias recheados de força telúrica mas infestados daquele vocabulário científico e rebuscado que define o seu estilo. Augusto dos Anjos morreu em 1914, com 30 anos, na cidade mineira de Leopoldina. Seus versos de despedida foram escritos lá (“O último número”): “Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,/a Idéia estertorava-se... No fundo/do meu entendimento moribundo/jazia o Último Número cansado”. Espremido entre o simbolismo e o parnasianismo, o poeta não teve tempo de conhecer a teoria crítica da Escola de Frankfurt, na Europa dos anos vinte. É provável que não tenha conhecido Walter Benjamin nem Adorno – dois dos autores que pairam sobre o pensamento da francesa Anne Cauquelin em seu “Teorias da arte” (Martins). Mas certamente concordaria com ela: “nenhuma obra pode hoje em dia ir além da injunção de ter de ser ‘crítica’ de alguma maneira”.
Augusto dos Anjos ganha na Ática a melhor edição de seu livro único e genial Nara, por Ana Martins Nara Leão vem se tornando presença cada vez mais bissexta nesses dias de celebridades vazias – e isto já é motivo bastante para que se saúde com alegria o novo CD “Samba sincopado”, da cantora Ana Martins, com selo Biscoito Fino. Todas as faixas são criações do repertório da intérprete de “Opinião”. Participação especial de Joyce, Nelson Ângelo e Elton Medeiros, com direção musical de Paulo Aragão, do Quarteto Maogani. Detalhe nada desimportante: este é o terceiro CD de Ana Martins lançado no Japão. O primeiro a ser distribuído no Brasil. No outro lado do mundo, Ana aproveitou o fuso-horário para mergulhar em clássicos como “Coisas do mundo, minha nega” e “Recado” (ambos de Paulinho da Viola, este com Casquinha), “Quatro crioulos” (do musical “Rosa de Ouro”, com participação especial do autor Elton Medeiros); “Nega Dina” e “Diz que fui por aí” (Zé Két), “Pranto de poeta” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), além de “Fez bobagem” (Assis Valente, década de 30), que Nara relançou em 1969. A “Madrugada” de Manu Le Prince Entreouvido num bar carioca: “o Brasil tem cantora demais – e todo dia surge mais uma”. É verdade e, como se vê, às vezes vem até do Japão. A realidade, que ninguém nos ouça, é que a maioria delas está longe do cacife de regravar Nara, homenagear Clara Nunes (como Nilze Carvalho) ou altear-se às excelências de Maria Rita e Marisa Monte. Mas, cantoras, pululam. Cantores, em contrapartida, rareiam. Quantos, depois de Emílio Santiago e Zé Renato? Mas, voltemos ao canto do eterno feminino. Há brasileiras que nem nasceram aqui – mas, no caso de Manu le Prince, não creio que se ofenda por ser assim definida. Ela é francesa e seu “Madrugada”, de 2003, ainda está em processo de lançamento por aqui (Manu esteve no Rio, em papos com Hermeto Paschoal e Robertinho Silva até a segunda passada). É CD de exceção. Inclusive pela coragem e competência com que ela recria duas daquelas gravações tabus de Elis Regina: “Me deixas louca” (Armando Manzanero, versão de Paulo Coelho – quem lembrava disso?) e “Casa forte” (Edu Lobo). Ah, sim: Manu foi casada com brasileiro, seu português praticamente não tem sotaque. Afora essas duas maravilhas, têm a ellingtoniana “Caravan”, já longe da latinidade e numa de suas melhores interpretações vocais; o maestro soberano (“Fotografia”) e uma dupla baiana sempre prestigiada por João Gilberto (“É preciso perdoar”, de Alcyvando Luz e Carlos Coqueijo). Como cereja do bolo, a vinheta sobre “Jardin d’hiver” (Benjamin Biolay e Keren Zeidel), na voz do pequeno Julian, 12 anos, filho de Manu e menino prodígio que vi destruir, sábado retrasado, no Serafim, uma capa de filé com batatas coradas. Quem sai aos seus não degenera. Jornalista esportivo, grande rubronegro, ex-tesoureiro da ABI, Aristélio Andrade anda agora por Friburgo, onde se dedica mais ao jazz que ao futebol. Abro o Outlook e dou de cara com ele. O assunto acaba invariavelmente no Flamengo. Escrevo: “A cada jogo que passa mais concordo com o que Tostão disse numa coluna há uns dois meses. Por que não tentar o Junior Baiano como centro-avante? É o segundo artilheiro do time, com 4 gols, jogando lá atrás. Não tem menos bola do que os caras que estão em campo. E, como diz aquele velho provérbio, na frente, que é o lugar da irresponsabilidade, um drible é meio gol (a favor). Tem corpo, altura e domínio de bola para fazer um pivô melhor que a maioria dos atacantes que estão por aí. Você diria que ele é pior que o Antes que digam que Tostão e eu piramos de vez, gostaria de lembrar que, nos tempos da Praça Onze, quando não dava expediente no Santos, no Palmeiras ou no Atlético Mineiro, o zagueiro Djalma Dias não dispensava as peladas com a rapaziada. Jogava sempre na frente, chutava com os dois pés e, por mais quadrada que a bola viesse, se entortava todo mas não perdia o faro do gol. Itamar, aquele que ajudou Almir a encarar o Bangu, também era atacante na Rua General Pedra. Em compensação, Jairzinho, o “furacão da Copa”, ficava atrás nas peladas. Uma vez ou outra, batia uma nostalgia, pedia a bola ao goleiro, driblava o time adversário inteiro e entrava com bola e tudo. O Centro Popular de Cultura Aracy de Almeida festeja logo mais, às 21 horas, no Centro Cultural Carioca, o aniversário de 91 anos da Dama do Encantado. Antes do show, com Lúcio Sanfilippo e Ana Costa (participação especial de Dóris Monteiro), haverá exibição de vídeos com e sobre Aracy. Na programação, ainda, a segunda edição do fanzine “Araca”, resumo biográfico da cantora em distribuição gratuita, e lançamento do bloco do CPC, com a presença de Xangô da Mangueira. A casa abre às 19 horas. “Vi que você atribuiu a Zé Kéti a autoria do apelido do Paulinho da Viola. Não foi ele o autor. Fui eu. Zé Kéti, é verdade, deu a idéia, mas fui eu quem criou. Pô, Roberto, tenho tão pouca coisa para deixar para a posteridade que não posso abrir mão da autoria do apelido do grande compositor.” (Sergio Cabral, jornalista e escritor, Rio de Janeiro, RJ)
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Roberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email: 

http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=1222
Este é o site da Associação Brasileira de Imprensa, onde ele era colunista e um dos conselheiros.
Ass: Ana Paula (Webmaster do ABI Online)