Reunidos em sua assembléia geral, os Bispos do Brasil não podiam se omitir diante da situação de crise por que passa a nação. Sintonizados com o povo, percebendo o clima de desânimo que ameaça se alastrar em decorrência da decepção causada por tantas acusações de corrupção, os bispos alertam para o perigo do descrédito da democracia, e lançam um apelo para o resgate da dignidade da política.
Diante da deturpação da política pela prática da corrupção, não é o caso de desanimar, de desistir, ou de se omitir. Ao contrário. Precisamos inclusive constatar que quanto maior a ausência dos cidadãos nas atividades políticas, maior é o espaço para a corrupção prosperar.
Para extirpar a corrupção, o caminho indicado é a participação consciente e responsável da cidadania nas atividades políticas. Como motivação, os bispos lembram a recomendação de Paulo VI, ao afirmar que a política é a forma mais sublime de praticar a caridade, quando colocada a serviço do bem comum.
As denúncias de corrupção devem ser apuradas, sem pré-julgamentos nem hipocrisias. Os responsáveis precisam ser exemplarmente punidos. Neste sentido, os bispos apóiam o trabalho de averiguação dos fatos, realizado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pela Controladoria Geral da União, e pelas diversas Comissões Parlamentares de Inquérito. A imprensa tem a missão de colaborar, colocando os fatos ao conhecimento de todos.
A propósito, os bispos fazem uma observação muito pertinente. O povo brasileiro pouco foi habituado ao debate cotidiano das questões políticas. Agora, com as sucessivas denúncias de corrupção, que se renovam cada dia de maneira surpreendente, o noticiário político passou a fazer parte do entretenimento diário, como se fosse uma novela com seus heróis e seus vilões.
Assistimos a uma espécie de espetacularização da política, que pode ficar na superficialidade dos confrontos entre acusados e acusadores. E’ urgente fortalecer o discernimento, que leve a perceber o alcance dos fatos, e ao adequado posicionamento diante deles.
Exemplo deste discernimento é apontado pela declaração dos bispos, quando alertam para não só enxergar a corrupção na administração dos recursos públicos, mas a perceber também a mazela maior de nosso país, que é sua injusta desigualdade social. Esta desigualdade é mantida e acentuada por uma política econômica que aumenta a concentração de renda e da riqueza através de mecanismos que privilegiam o capital financeiro.
Descobrir maneiras de superar esta situação é o desafio de uma verdadeira política, que precisa não só se guiar por um ideal a ser perseguido com esperança, mas ser também efetivada através de metas concretas a serem buscadas com tenacidade.
A mensagem dos bispos evidencia, igualmente, o clamor maior que emerge da crise atual, que aponta para a urgência de uma reforma política que enfrente com clareza as ambigüidades que favorecem a corrupção.
Entre os pontos da reforma, os bispos mencionam alguns que julgam mais urgentes: a fidelidade partidária, as campanhas eleitorais, a regulamentação dos mecanismos de consulta direta à população, o relacionamento entre Executivo e Legislativo, de modo a superar o clientelismo. Pedem, igualmente, que se reveja o estatuto da reeleição.
Não se pode desperdiçar a oportunidade, que a crise atual nos apresenta, para realizar uma autêntica reforma política. Para que todos voltemos a acreditar na sua validade como caminho indispensável para a consecução do bem comum. D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, São Paulo. Visite seu site www.diocesedejales.org.br. Você pode se comunicar com ele pelo email:
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