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Escrito por Olavo de Carvalho   
Wednesday, 17 August 2005
Se é certo aquilo que dizia Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra, o anti-americanismo das nossas elites falantes é uma das expressões de burrice mais densas, incontestes e admiráveis que o mundo já conheceu.

Mal assentada a poeira do atentado ao prédio da ONU, já pululavam em todos os canais de TV os experts de sempre, lançando a culpa de tudo sobre quem? George W. Bush, naturalmente.

Não precisaram, para isso, a mínima investigação, não precisaram sequer aguardar uma descrição precisa dos fatos. Com a instantaneidade da ressonância mórfica, os diagnósticos incriminatórios apareceram prontos, definitivos, inapeláveis como demonstrações matemáticas.

O script já tinha sido comprado na papelaria fazia meses, faltando apenas pagar o Darj e preencher nos espaços em branco o local do atentado e o número de vítimas.

Muito menos foi preciso responder a objeções, que seriam uma intolerável falta de polidez num ambiente de tanta concórdia e interpaparicação carinhosa.

No máximo, perguntas pré-calculadas para levantar a bola, armando o gol que, em seguida, os repórteres aplaudiam segundo o formulário litúrgico mais previsível.

No dia seguinte, a versão escrita da cerimônia apareceu, intacta e fiel, em todos os jornais. Se isso é jornalismo, se isso é livre debate, se isso é circulação de idéias e informações, então os americanos devem ser mesmo muito, muito ignorantes.

Pois se a verdade sobre a política deles é conhecida com tanta certeza no Brasil, país em que pouco se lê, cuja contribuição intelectual ao mundo é quase nula e que tem reconhecidamente os estudantes mais ineptos do universo, como é que eles não se dão conta de nada e continuam confiando em George W. Bush? É muita ingenuidade, é muita desinformação, é muita falta de leitura, não é mesmo?

Talvez não seja culpa deles. Talvez sejam uns pobres manipulados. Talvez a imprensa lá esteja sob controle estatal, talvez as empresas jornalísticas sejam poucas e inibidas por dívidas, talvez os repórteres sejam tímidos, talvez não exista sequer, naquele deserto de homens e idéias, um vibrante jornalismo investigativo como aquele que, neste nosso paraíso da livre informação, redescobre ou reinventa semanalmente os crimes da ditadura militar.

Não há um só brasileiro que não saiba, de fonte segura, que:

  • os americanos lutam apenas por dinheiro enquanto seus inimigos têm lindos ideais,
  • Saddam só ficou malvado por culpa do embargo econômico (a mesma causa dos fuzilamentos em Cuba, é claro),
  • as armas iraquianas de destruição em massa nunca existiram nem muito menos estão na Síria,
  • três mil iraquianos mortos em combate são uma cifra imensamente mais chocante do que trezentos mil prisioneiros políticos mortos nos cárceres de Bagdá antes da invasão.

Nós, brasileiros, sabemos de tudo. Às vezes, é claro, falhamos. Errare humanum est...

  • Se procurarmos nos nossos jornais a expressão "Foro de São Paulo", não a encontraremos, embora ela seja o nome da organização internacional comunista que decide os rumos da política neste país.
  • Se procurarmos uma transcrição do manifesto assinado em 2001 pelo nosso atual presidente em favor das Farc, não o encontraremos.
  • Se vasculharmos as edições dos últimos dez anos em busca de uma menção, mesmo breve, à matança sistemática de cristãos nos países comunistas e muçulmanos, nada encontraremos.
  • Se revirarmos jornais e revistas em busca de alguma informação sobre os milhares de proprietários rurais trucidados pelos governos do Zimbábue e da África do Sul, nada.
  • Se buscarmos uma palavrinha sobre a produção em massa de transgênicos em Cuba, nada.
  • Se quisermos uma dica sobre as conexões entre neonazismo e anti-americanismo internacional, nada.

 Lendo toneladas de jornais brasileiros, JAMAIS ficaremos sabendo que:

  •  a liberação das drogas aumentou a criminalidade na Holanda e na Suíça,
  • o massacre de crianças cuja culpa o filme de Michael Moore atribui à fabricação de armas foi motivado por ódio anticristão,
  • o desarmamento civil foi uma experiência desastrosa que Israel abandonou,
  • reformas agrárias socialistas produziram a atual miséria africana,
  • as tais ONGs que atentam contra a soberania nacional na Amazônia não são americanas mas todas elas ligadas ao establishment mundial anti-Washington.

Sobretudo, jamais ficaremos sabendo se é verdade ou não que a campanha eleitoral do PT em 2002 foi subsidiada pelas Farc, pois os jornalistas investigativos brasileiros jamais seriam indiscretos ao ponto de querer tirar a limpo essa denúncia insolente do deputado Alberto Fraga.

Mas quem precisa saber desses detalhes desprezíveis? O essencial, o importante, não nos escapa. Sabemos que:

  •  George W. Bush é Adolf Hitler,
  • a violência carioca é causada pelo capitalismo,
  • os gays são a minoria mais oprimida do planeta,
  • a população brasileira é maciçamente racista,
  • defender uma propriedade contra invasores é mais criminoso do que invadi-la,
  • Mel Gibson é anti-semita e
  • o sr. presidente da República tem dons miraculosos que lhe permitem conhecer tudo sem estudar nada,
  • na Colômbia não existem terroristas, apenas combatentes pela liberdade em luta contra um governo tiranicamente eleito pelo povo,
  • na Amazônia não há um só narcotraficante das Farc mas milhares de soldados americanos,
  • quem quer que negue algumas dessas verdades é um bêbado, um alucinado ou um nazista.

Tudo isso nos é ensinado pela nossa mídia. É certo que tudo, ou quase tudo, é repetido também nos manuais escolares do ensino público, no parlamento, em cursos universitários e numa infinidade de livros, atestando a pujança da nossa cultura.

Mas quem ousará criticar, como suplérflua, a repetição de verdades tão fundamentais?

E como poderia um país inteiro enganar-se nessas coisas, com o belo pluralismo de idéias que impera na nossa mídia, nas nossas universidades, por toda parte enfim do mundo verde-amarelo?

Enganados, sim, estão os americanos. Lá ninguém discute nada, ninguém diverge, ninguém investiga. É um amém geral, da Nova Inglaterra à Califórnia.

Ao menos, faço votos de que o leitor continue acreditando nisso, para que não sofra o choque de perceber o estado de apartheid intelectual que se interpôs entre o Brasil e o mundo.

Olavo de Carvalho, é Filósofo, Professor e Jornalista, nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 29 de abril de 1947. Tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros. Professor de filosofia e diretor do Seminário de Filosofia do Centro Universitário da Cidade (RJ). Autor das obras "O Jardim das Aflições" e "O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras". Editor do site Mídia Sem Máscara.  E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (5)Add Comment
pobre ... estudante brasileiro
escrito por Visitante, 2005-08-17 22:36:27
infelizmente é verdade...

O Brasil não é o país do conteúdo mas da imagem.
Concordo com a observação de que "O Brasil, é um país em que pouco se lê, cuja contribuição intelectual ao mundo é quase nula e que tem reconhecidamente os estudantes mais ineptos do universo"...
Comparando alhos com bugalhos
escrito por Visitante, 2005-08-21 19:57:38
Com todo o respeito a um texto excelentemente escrito (ao contrário deste que está por ler), há sérios problemas na comparação entre a "ignorância" Americana com a Brasileira. Depois de 6 anos morando nos Estados Unidos, as minhas observações são as seguintes:

1) "Ignorância" como falta de informação, tanto por inacessibilidade quanto por opção, é igual em todo lugar.

2) "Ignorância" nos EUA é complementada pela total negação de informações incondizentes com conceitos pré-formados. A política bipartidária alimenta este tipo de postura quase-fanática. Põe um pouco de "moral", "religião", "liberdade" e "democracia" no discurso, e toda a esperança de se ter uma discussão objetiva vai por água abaixo. Isso é em todos os lugares, inclusive no meio acadêmico.

3) No Brasil pouco se lê, mas os estudantes que vêm fazer doutorado no exterior são extremamente bem-sucedidos. A "contribuição intelectual quase nula" é um insulto não só aos que trabalham arduamente, escrevendo artigos científicos e dando palestras em conferências internacionais, mas também aos cidadãos brasileiros que pagam imposto para sustentar as nossas universidades, as mesmas que preparam os intelectuais acima para contribuir para a intelectualidade mundial. Esta afirmação ("contribuição quase nula"), sim, é um típico esteriótipo oriundo da ignorância, ironicamente o alvo da crítica no texto.

4) É obvio que há os sabichões brasileiros que detestam "o capitalismo americano" (seja lá o que isso for) e acham que "sabem tudo". E há os que acham que os americanos são ignorantes. O texto implica que ambas propriedades estão n"o brasileiro". Ora, que é este brasileiro? Unir estas duas posturas numa única identidade é também um esteriótipo. O mesmo grupo de pessoas que acha que a maior parte do americano é ignorante (digamos, grupo A) reconhece a falta que informação que impera no Brasil. E esse grupo é muito maior, incluindo europeus de diversos países, asiáticos, e até mesmo americanos mais elucidados. O grupo de brasileiros que acham que sabem tudo porque temos uma mídia livre, e uma educação esclarecedora é exatamente aquele que o grupo A condena. É aquele que, se transposto para os EUA, acharia que os EUA são o melhor país do mundo, os ícones da democracia e liberdade, os policiais do mundo.

Se é tão absurdo dizer que o americano é movido a dinheiro e é mal-informado, então é igualmente absurdo dizer que o brasileiro se acha o dono do saber e despreza o americano.

A grande diferença é que o que o americano pensa ou deixa de pensar exerce influência no cenário mundial e na vida de milhares de pssoas, enquanto que o que o brasileiro resmunga no boteco não tem importância alguma depois da segunda cerveja.
Realmente voc maluco
escrito por Visitante, 2005-08-23 16:39:34
Após ler seu texto de 05 08 2005 e lendo este agora, mesmo sabendo que não é estatisticamente correto eu avançar tanto nesta extrapolação, mas posso concluir, com 99% de certeza, que você, Olavo, tem problemas sérios, não sei se frustração por ser Carvalho e não Oak Wood ou falta do remédio.

Mas é inadmissível ver alguém, que se julga intelectual, falar tanta asneira do brasileiro, quando temos, só para citar notícias de hoje no O Globo, liderança mundial nas pesquisas com células-tronco.

Mas você é bem capaz de dizer que esta pesquisa, com diz seu guru G. W. Bush, é coisa errada, coisa que papai do céu não gosta.

Eu gostaria de espaço para citar alguns dos brasileiros mais notáveis e os não tão notáveis por falta de espaço na mídia que fica lambendo os americanos e seus mirabolantes feitos; como os físicos do CBPF, Unicamp, USP e UFRJ; pesquisadores da Embrapa que reduziram estupidamente as necessidades dos produtores brasileiros de insumos importados; Fiocruz; os anônimos que estão nas instituições americanas junto com indianos, coreanos fazendo ciência básica, enquanto o próprio americano vai conseguir uma bolsa para jogar basquete e depois virar consultor em alguma empresa que frauda as bolsas aumentando a farsa americana.

Tenho medo de imaginar que pessoas influentes e admiradas como você possam, em breve, defender que a Amazônia deva ser protegida por Bush para que nós, tupiniquins, não abusemos de sua biodiversidade. O que já vem sistematicamente acontecendo bem perto de você, na mata atlântica do RJ, por ONG´s inglesas que estão levando extratos vegetais.

Você deve ser favorável a instalação da base militar americana no Paraguai, nâo? Sob o pretexto de conter o narcotráfico, seu guru está negociando com o governo vizinho. E a base de alcântara, não seria melhor entregar logo pra quem sabe ler?

Espero que fechem logo este congresso, prefiro 1 Lula a 500 parasitas. Assim pode ser que acabem proibindo intelectualóides de plantão de falar tanta besteira.

Caro Oak Wood, faça como seu estimado guru, tire férias enquanto seus homens morrem no Iraque.

P.S. Seu guru não serve nem de gari, não consegue limpar a kh.. que está fazendo
Perversidade intrnseca
escrito por Visitante, 2005-08-24 05:04:06
Olavo, leve-me a seu líder!

É filósofo, mas não gosta de lógica? Quando você correlaciona neonazismo com anti-americanismo está, implicitamente, querendo dizer que quem é anti-americano é neonazista? Quando você diz que as ONG´s na Amazônia tem características Anti-Washington então a salvação é a tutela americana, visto que estas ONG´s são realmente uma balela? (Será que você acredita que colocarem um bando de gente gritando palavras de ordem contra o imperialismo americano misturado com questões ecológicas implica que os "donos" das ONG´s são, de fato, anti-americanos?)

Sabemos que não é nesta lógica simplista e binária que se baseiam as relações humanas. Não necessariamente o amigo do meu inimigo é meu inimigo.

Sabemos, embora finjamos que não, as relações humanas são pautadas pela perversidade intrínseca dos homens, torneadas e embelezadas por argumentos tão estúpidos que são impossíveis de combater, como levar a democracia a outros países, simplesmente por que achamos que democracia é melhor. Foi nesta base que, em nome de deuses, queimamos, matamos, torturamos e "outrosamos" quem estava no nosso caminho. Junto com esta perversidade anda um antropocentrismo exagerado, capaz de nos permitir criar deuses a nossa imagem e semelhança, afinal deus castiga quem é malvado e ama seus filhos que o adoram. Bem humano isto, não?

Veja o que está acontecendo agora, com um pastor americano declarando que é melhor assassinar Hugo Chávez. Da boca para fora você deve discordar dele, não? Mas no fundo reza para alguém silenciar o trio parada-dura, Fidel, Lula, Chávez. Mas se formos usar sua lógica, e nos baseando no fato de os inteligentes americanos poderem fazer uma guerra preventiva, esta declaração do pastor dá o direito aos venezuelanos de mandarem matar o pastor e seu líder, preventivamente, claro.

Assim, ironizar fatos reais pode, num primeiro momento, tornar as conclusões erradas. Debochar e tornar estes argumentos ridículos e até cômicos é uma estratégia infantil, mas funciona, afinal, como disse o colega acima, depois da segunda cerveja nada disto é importante.

Sua posição em defesa da "liberdade" e ironizando os contrários me faz crer que você acredita, por exemplo, que foram realmente os alemães que afundaram o navio brasileiro na segunda guerra; que Bush quer dar liberdade ao povo iraquiano com uma democracia que faz licitações que sempre ganham empresas americanas ou inglesas, já que estas são comprometidas com os objetivos divinos da criação. Por que não invadir a China, lá tem mais de 1 bilhão de oprimidos e sofredores que não podem ter deus no coração? Que Bush é um sujeito inteligente que está em sua fazenda apenas porque é leitor e discípulo de Russel e que ele entendeu perfeitamente bem o Elogio ao Ócio?

Desculpe-me se não falei sobre o "tema", mas é que você usou diversos argumentos com o simples objetivo de chamar o brasileiro de idiota, justamente para que não haja questionamento, afinal burro não discorda. Prefiro acreditar que a burrice, estupidez, insensatez, arrogância, truculência é uma característica genética, por isto sempre digo que deus errou, deixou o bicho errado evoluir, macaco, definitivamente, não foi uma boa escolha.


Eta povinho covarde !
escrito por Visitante, 2005-08-29 05:09:13
Pois é Olavo,
além de mal-informado, podemos perceber que esse povinho brasileiro é estúpido e covarde.

É incrivel... não há um só detrator de sua dignidade que tenha a coragem de se identificar... em todas as suas colunas.

Utilizam o seu espaço de expressão literária para lhe insultar e distorcer suas idéias... jogando no lixo o convite à reflexão que nos permite os seus textos, e que lhes são oferecidos gratuitamente.

Neste país está ficando cada vez mais comum a covardia e o idealismo terrorista da agressão anônima.

Desculpe minha indignação...

Aproveito a oportunidade de comentar sua coluna, para lhe parabenizar pela bela dissertação sobre o Rancor Endêmico Invejoso que assola nossas escolas, universidades, midia, etc.

Um abraço,

Marcius Teixeira
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